RIO - O economista e ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso morreu de causas naturais, aos 87 anos, na manhã desta terça-feira na casa onde mora, no Rio. As informações são de familiares. Ao ser homenageado pelos seus 50 anos de idade, em 1981, com uma festa para mais de mil convidados, não exagerou ao dizer que, apesar de "cinquentão", ainda se sentia jovem, com muitas ideias e planos. Personagem singular na cena política brasileira sem nunca ter concorrido a um cargo público, a despeito da pressão de lideranças, àquela época já havia sido ministro do Planejamento por dez anos, fundado e presidido o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada (IPEA). Ainda estava por criar o Fórum Nacional de Altos Estudos.

Há três décadas, o evento reúne economistas, governantes e empresários, anualmente, para discutir temas que giram em torno do que foi a sua maior preocupação nacional: o desenvolvimento econômico. Só deixou a condução dos debates em 2017, quando, com a saúde debilitada, se afastou da vida pública. Passou o bastão para um dos seus irmãos, o também economista Raul Velloso.
 
Visto como um político liberal e, em relação à visão econômica como um desenvolvimentista, transitou em governos de seis presidentes distintos, entre 1961 e 1979. Mesmo tendo sido ministro em dois governos do período da ditadura militar - dos generais Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, de 1969 a 1979 -, dificilmente sua imagem é associada ao clima de medo, falta de liberdade, torturas e mortes que marcaram os duros anos inaugurados em 1964. Pensar em Reis Velloso é lembrar do planejador comprometido, sensível ao papel da ciência, da tecnologia e a da produção acadêmica para promover o desenvolvimento do país.
 
Em 1967, ajudou a criar a Fundação Brasileira de Inovação e Pesquisa (Finep). De 1968 a 1969, durante o governo do Marechal Artur da Costa e Silva, integrou o Conselho Federal de Educação (CFE) e o Conselho Na­cional de Pesquisas (CNPq).Mais tarde, já durante o regime democrático, e dedicado apenas ao Fórum, disse que conseguiu manter o planejamento e traçar estratégias de desenvolvimento mesmo durante o período mais crítico do regime militar, no começo dos anos 1970, porque ambos os governos começaram com promessa de redemocratização e que a área econômica tinha um "bom" grau de autonomia.
Sua gestão como ministro do Planejamento foi marcada por dois momentos distintos: o apogeu do chamado "Milagre Brasileiro" e a "Crise do petróleo de 1973".Em 1987, em seu livro "Último Trem para Paris", fez uma autocrítica no capítulo "A insustentável leveza do PND", no qual comenta o polêmico Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) do governo Geisel, acusado por alguns de ter levado o país a pisar no acelerador, quando o momento, em face da crise do petróleo, deveria ter sido de freio. O nome do livro, assim como do capítulo citado, conjuga o interesse intelectual de Reis Velloso pelos processos históricos de desenvolvimento econômico do Brasil e no mundo com sua paixão pelo cinema. O último trem, no caso, é aquele que, simbolicamente, seria capaz de transportar um país subdesenvolvido, condição do Brasil na época, para o rol das nações ricas, algo que o ex-ministro não viu acontecer. Velloso era defensor fervoroso dos dois governos nos quais foi ministro.
Em 2009, durante o seminário organizado pelo JORNAL O GLOBO "Cenários e Perspectivas para o Brasil", afirmou que o país perdeu " know how  do alto crescimento" no período pós-militar e que, por isso, não conseguiu chegar aos mesmos níveis de crescimento da Coreia do Sul. Em 1970, período em que Velloso era ministro do Planejamento, o país asiático tinha metade da renda per capita brasileira. Quarenta anos depois, o Brasil estava em desvantagem: tinha apenas um terço da renda sul coreana.
 
- O Brasil tinha tudo para estar bem melhor que a Coreia até a altura de 1980. Em meados daquela década até o início deste século, houve a desconstrução do alto desenvolvimento. Ganhamos estabilidade dos preços como valor social, mas perdemos o desenvolvimento como valor social - criticou à época.
No governo de João Goulart  (1961-1964) serviu no gabinete do ministro da Fazenda, Válter Moreira Sa­les. Também foi aluno da Fundação Getulio Vargas, onde depois viria a lecionar por mais de três décadas. Entre 1962 e 1964 fez mestrado em Economia na Universidade de Yale, em New Haven (EUA). Avesso a atividades políticas, recusou um convite para se candidatar ao Senado pelo PDS do Piauí, em 1982, após sondagem feita pelo então governador Lucídio Portela.Em 2013, durante uma homenagem a Reis Velloso na FGV, o então presidente do Ipea e hoje diretor da FGV Social, Marcelo Neri, destacou a vida de feitos do ex-ministro:- É uma enorme responsabilidade cuidar do quinto filho do ministro Reis Velloso, o Ipea. Ele teve outros como a FINEP, o Sebrae, o Fórum.
 
Sua capacidade de criar instituições longevas é impressionante. As marcas do ministro são sua paixão pelo Brasil e seu olhar sempre voltado para o futuro. Daí vem a jovialidade que ele passa, pois juventude é olhar para o futuro.Na mesma ocasião, o presidente da FGV, Carlos Ivan Simonsen Leal, destacou o privilégio de ter sido aluno de um “criador de ideias, simples, idealista e dedicado, um dos homens mais excepcionais deste país”.
 
A desigualdade na distribuição de renda o preocupava porque aumentou durante o período do "Milagre" (1968 a 1973). Segundo Velloso, em decorrência de um tipo de industrialização que privilegiou as aptidões e jogou para o alto os salários da mão de obra super especializada. Em 1979, ao desembarcar ainda na condição de ministro na sua terra natal, o Piauí, falou sobre a necessidade de criação de um programa especial para a acabar com a "pobreza absoluta".
 
- Não é algo que se resolve simplesmente pela política de crescimento, nem mesmo através do simples dinamismo na área social. A pobreza absoluta tem de ser atacada diretamente, por programas específicos, como através da auto-suficiência alimentar em áreas pobres e dos programas de alimentos básicos.
 
Trajetória pessoal
Filho de uma costureira e de um funcionário dos Correios, João Paulo dos Reis Velloso nasceu em Parnaíba, Piauí, em 12 de julho de 1931. Vinte ano depois, mudou-se para o Rio, então capital do país, incentivado pela mãe, pois em sua cidade não havia possibilidade de cursar o ensino superior. Foi secretário do deputado federal Jorge Lacerda, da UDN de Santa Catarina, escriturário, oficial de administração e ocupou alguns cargos de confiança do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) até que, em 1955, passou em um concurso público do Banco do Brasil e mudou-se para São Paulo. Foi na capital paulista que iniciou o curso de economia, na Fundação Álvares Pen­teado. Transferido para o Rio, concluiu a faculdade na UERJ.
 
No último Fórum organizado por Reis Velloso, em 2016, ano em que a crise econômica iniciada dois anos antes se aprofundou, o ex-ministro defendia um novo plano nacional de desenvolvimento, ancorado em seis eixos (um ajuste fiscal, uma estratégia de desenvolvimento industrial que passasse pela expansão das exportações, a melhora da infraestrutura, a inovação, a integração na nova reforma industrial e a reforma política) como saída para o quadro recessivo.
 
— Sem uma visão estratégica, o Brasil vai ficar entre voos de galinha e recessão. A crise não foi recente, foi sendo criada ao longo do tempo e havia sinais óbvios. Partimos de altas taxas de crescimento para voos de galinha, baixo crescimento e, agora, recessão — disse na ocasião.
 
Na avaliação de Velloso, a despeito da situação grave da economia, a política era o que mais preocupava:
 
— O maior problema brasileiro é político. Não é econômico, não é social, não é fiscal. Temos 30 e tantos partidos, e é tudo lixo. Os partidos devem ter corresponsabilidade com o crescimento sustentável e a geração de empregos.
 
Em novembro desse mesmo ano, em uma de suas últimas declarações públicas, Velloso se posicionou contra as principais mudanças propostas pela reforma trabalhista do governo Temer.  Defendeu idade mínima de 60 anos para aposentadoria, cinco anos menos que a proposta do governo, e a manutenção do tempo mínimo de contribuição, de 35 anos para homens e de 30 anos para mulheres.
Reis Velloso foi casado duas vezes. Com Gelza, primeiro, teve dois filhos, um já falecido e outro que mora no Rio. Com a viúva Izabel Barroso do Amaral teve outros dois filhos, que também vivem na capital fluminense.
 
Publicado originalmente em O Globo, em 19.02.2019
Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo