[*Dílson Monteiro]

Criança gosta mesmo é de brincar e de receber afeto. Eu era criança quando convivi com meu avô e sua casa significava diversão e carinho: o que dele mais guardo são as situações que criava para a minha satisfação e a de meus primos no Jenipapeiro. Sentíamos acolhidos, de um acolhimento chamado proteção, e divertir-se tinha lugar certo nas férias, que às vezes duravam até meses, longes da casa paterna, mas como se dela nunca nos tivéssemos desgrudado.

Hoje, no distanciamento temporal da idade adulta, vem, além da visão mais racional de todo aquele cenário rural, de sons, cores e sabores em todos os ritmos, tons e paladares únicos, uma emoção e uma nostalgia que não têm tamanho em nossos sentimentos. Essa emoção tinha uma imagem: Manoel do Rêgo Lages.

Quando declinamos o olhar interior para o ontem, surgem na memória da infância os pedaços das décadas de 1970 e 1980. Um tempo flutuando com tal leveza, cuja sensação que temos é a da fantasia de um mundo mágico de encantamentos e descobertas, inacessíveis como tal para as crianças da atualidade.

Vem um tempo de brincadeiras que jamais retornarão e, por isso, é sempre alegre vovô gritando, de riso aberto para o céu: “Boca do forno?”. Respondíamos: “Forno!”. Ele continuava: “Jacarandá?”. Respondíamos: “Dá!”. Interrogava: “Quando eu mandar?”. Em uníssono, devolvíamos: ”Vou!”. E finalmente recebíamos a nossa missão, quase sempre uma ordem divertida ou, quando já cansávamos, uma tarefa impossível, para se pôr fim à brincadeira.

Manuel do Rêgo Lages

Vem o Lampião Petromax, aceso no terreiro da casa, para ouvirmos as estórias de outro mundo, quando não nos era imposto rezar o terço depois do jantar. Hábito com o qual também nos acostumávamos e se transformava numa obrigação aceita com  naturalidade. Rezávamos não apenas para que se “levassem as almas todas para o céu, especialmente as que mais necessitassem”, mas também para Deus “dar muitos anos de vida para papai e mamãe”. Eram as mesmas almas que faziam cócegas em meus medos, obrigando que carinhosamente vovô armasse minha rede próxima à sua cama, onde dormi, quando menino, sempre que estava na fazenda.

Vem da casa que era a figura de meu avô as partidas de dominó e baralho à luz de lamparinas.  O movimento da quitada pesando babaçu e despachando mercadorias, num tempo de acesso limitado a produtos alimentícios e industrializados. Vovô de óculos na ponta da nariz: “Quanto?”. O agregado respondia: “Oito quilos”. Vovô emendava: “Despeje ali!”. Levantava-se a cancela do balcão e o morador despejava as amêndoas, trazidas em coufos, no canto direito do comércio, que rapidamente se avolumava a tal ponto que sentíamos a vontade de caminhar por sobre a montanha de coco babaçu e, estando ali, não resistíamos em mastigar amêndoas. “O que vai querer hoje?”... e o trabalhador rural ia regrando a compra do mais essencial, pondo cada produto no coufo em que trouxera o babaçu. Às vezes, pedia um grande trago de pinga que engolia com voracidade, cuspindo longe nas calçadas o amargor da aguardente.

Vem da casa que era a figura de meu avô a calçada sobre o morro, tomada de silêncio enquanto ele ouvia a voz do Brasil. Meu avô, o mesmo de sempre na  alta madrugada, balançando-se na sala na cadeira, ouvindo a rádio Nacional, cuja audição das notícias e músicas se confrontava com a dos bichos despertando a manhã, para introduzir a certeza de mais um dia.

Vem da casa a figura de meu avô perguntando se já tínhamos namorada. O avô levando-nos aos sítios de frutas com o cuidado redobrado para não padecermos de animais peçonhentos. O avô acompanhando-nos para o banho no Açude ou no Tanque, sempre vigilante, vigilante, com uma alegria gigantesca quando o Jenipapeiro se enchia dos netos.

Vem da casa o caminhãozinho de madeira com o qual me presentou aos 6 anos, feito por marceneiro da região. Que rumo dei àquele presente que jamais deveria ter perdido? Como tenho saudade daquele caminhãozinho; vejo-o aqui, no chão, carregado de areia, andando pelas veredas, maiores do que as estradas desconhecidas dos nossos destinos. Estou vendo aqui meu avô entregando-me o caminhãozinho numa época de brinquedos raros. Ou pedindo a Antônio Dias que nos fizesse cavalinhos de carnaúba, e os meus, eu imaginava, mais velozes do que os de todo mundo, mais até do que minhas próprias pernas.

Meu avô materno Manoel do Rêgo Lages teve uma vida dedicada às lides do campo e aos desafios de educar prole de 11 filhos. Uma vida voltada para a manutenção dos filhos em Barras e em Teresina, no desafio em que a mão amiga, o entusiasmo e a generosidade do parente Antônio Félix de Carvalho Filho e do irmão José foram sempre encorajadores; como dos filhos Nelson, Rosa, Gladston e Joaquim, os mais velhos, sempre disponíveis a ajudar o pai nas demandas necessárias. Uma vida rica de satisfações, embora difícil e de limitações econômicas, embora disso nunca tivesse feito ressentimento ou tristeza. A felicidade era os seus propósitos: o amor à família e o desejo de vê-la adiante de si, adiante do que as escolhas tinham-lhe reservado, como anseia todo bom pai.

Em criança, vovô fora mandado pelo pai para o ginásio em Parnaíba e o que consta no boletim escolar dele são as notas de um aluno exemplar. Jovem, estudara em Salvador e por último em Belém, onde se diz começou a estudar Medicina, antes de resolver regressar para a Esperança, segundo se conta, preocupado com as condições econômicas do pai, de apertos, depois do famigerado conflito agrário da Trindade, que demandou em ação judicial no Supremo Tribunal Federal por mais de década e resultou em ação desfavorável ao pai, Alfredo Pires Lages.  Disso resultaria a fragmentação econômica de um dos mais influentes latifundiários do Norte piauiense na primeira metade do século XX, cuja vida passaria a girar em torno apenas da Fazenda Esperança e dos sítios a ela integrados, numa porção de 10 mil hectares. Aceitaram, ambos, com resignação, as contingências do destino.

Jovem, Manoel do Rêgo Lages casou-se com sua prima Maria Adélia de Carvalho Pires, neta de sua tia Adélia Pires Lages e filha do matrimônio de Nelson Pires Alves com sua prima Adalgisa Pires de Carvalho e Silva, filha do lendário coronel Trazíbulo de Carvalho e Silva, rábula, intendente de Barras e deputado estadual, irmão do ex-governador Coriolano de Carvalho e Silva. Inicialmente estabeleceu-se em Batalha, onde nasceu sua primeira filha, Célia Pires Lages, de saudosa memória, e onde manteve, sem o sucesso esperado, sociedade com o primo Raimundo Nonato Lages. De lá, passou a residir na localidade Santa Luzia, em Nossa Senhora dos Remédios, então Porto, onde nasceriam os filhos Nelson e Rosa Maria.

Estabeleceu-se em seguida no Jenipapeiro, um dos braços da antiga fazenda Esperança antes de seu desmembramento em outros núcleos. Ali, por um ano, seu pai, meu bisavô Alfredo, construiu agradável casa, cujo encerramento da construção ocorreu em 1946, presenteando, na ocasião, com a nova edificação, Manoel e Maria, em nome de seus netos. Manoel e Maria viveriam por toda a vida, por longos anos, nessa casa ainda hoje vigorosa na continuidade do encanto do filho Gladston Pires Lages pela vida no campo. A casa situada no alto de um morro, depois de uma curva, de onde se avistam outros morros tomados de vegetação e mistério e um horizonte que enche os olhos de esperanças. Naquela data, a pedido de Maria Adélia, a nora e sobrinha de segundo grau, vovô Alfredo passaria a morar na fazenda Jenipapeiro até quase lhe findar os dias. Sentindo a proximidade da “indesejada das gentes”, há 3 dias da última despedida, foi levado pelos seus e agregados à sede da antiga Esperança, onde se despediria em definitivo do mundo.

Gonçalo Soares Monteiro (saiba mais)

Com o distanciamento temporal que a idade trouxe, vemos hoje que vovô era mais que o afeto, mais que sua casa mítica. Vovô era um homem justo, acolhedor, de espírito alegre,  avesso ao aviltamento humano. Com o distanciamento temporal, eu vejo nele o que, adolescente, ouvia meu pai Gonçalo Soares Monteiro, um de seus quatro genros,  pregar-me, não exatamente nestas palavras: “Onde vicejam rivalidades vãs, o egoísmo e a ambição sem limites, corroem-se os laços de convivência, inviabilizando transformações e oportunidades de crescimento para todos”. Meu pai ilustrava essa situação falando das ervas daninhas tomando o fôlego das árvores a que se prendiam. Em meu avô, com a chegada da adolescência, em sua casa de portas abertas para acolher gente jogada nas lides no meio da mata, na forma amigável de tratar os trabalhadores rurais e no desapego às vaidades do dinheiro, eu enxergava o homem do coração maior do que o peito suporta, o homem pronto a ajudar. O homem generoso e justo. A palavra de quem o conheceu fala melhor por mim.

Alfredo Pires Lages (saiba mais)

Também jamais me sairá da lembrança o quatro de dezembro, quando estava prestes a completar meus quinze anos. Meu avô doente há um mês e quinze dias aproximadamente, de moléstia sufocante, que nos tomava de desespero, dor e sufocamento iguais aos seus, em dia fechado, eu sentiria pela primeira vez, de verdade, o peso da morte. Se a árvore derrubada, o pássaro caído, o gato envenenado, o cachorrinho velho desfalecido e tanta cousa que eu vivera provocavam uma sensação desagradável, era tudo isso muito pequeno diante da dimensão concreta de que tudo um dia fenece. Ouvi na rua a vizinha de passagem à janela dizer alto que meu avô morria. Corri para a casa onde ele convalescia, a poucos metros da residência de meus pais. O quarto tomado de lágrimas; o avô na rede, filhos e netos acompanhando os últimos momentos, também, os irmãos José e Alcides. Os olhos de vovô “Manel” percorreram, enquanto se segurava nas mãos de vovô uma vela, todo o quarto, para repentinamente, sem vida, esvaziar-se para sempre e José do Rêgo Lages, o mano mais novo, estender as mãos sobre as pálpebras indicando que jazia, ali, um corpo.

Meu avô Manoel do Rêgo Lages se transformava naquele dia, para sempre, em saudade.

Dílson Monteiro, da Academia Piauiense de Letras, neto de Manoel do Rêgo Lages