A dimensão intertextual e metafórica na poesia de Mário Faustino

    

             
              (*)Carlos Evandro M. Eulálio

        O professor e ensaísta Ivo Barbieri, com larga experiência no campo do magistério e da crítica literária, apresenta-nos em seu livro “A Oficina da Palavra” lúcida análise da obra poética de Mário Faustino, do ponto de vista da intertextualidade.

O autor inicia a sua análise descartando conceitos reducionistas que possam conduzir o processo criativo de Faustino a uma simples produção influenciada por reminiscências de leituras de outros poetas.

Não se considera intertextualidade apenas como um mosaico de citações, nos termos de Júlia Kristeva, para quem todo texto é uma retomada de outros textos. Esse conceito é delineado a partir da própria concepção de Mário Faustino acerca do fenômeno poético, consubstanciado no lema que adotou: “repetir para aprender, criar para renovar.” Ao refletir sobre esse lema, Benedito Nunes acrescenta que “entre o repetir para aprender e o criar para renovar estava implícito o aprender para criar.” No âmbito desse raciocínio, o enfoque intertextual que Ivo Barbieri dá aos textos de Faustino, quando os confronta com os de Jorge de Lima, por exemplo, é aquele em que os poemas se aproximam como variantes de um mesmo texto.

Três capítulos compõem o livro. O primeiro, “Ensaio Intertextual”, põe em confronto com Mário Faustino poetas como Pound, Mallarmé e Jorge de Lima, considerados integrantes da “família mais nitidamente visível no espaço textual da poesia de Mário Faustino.” Mas esclarece que o cotejo não tem o propósito de verificar influências, mas identificar a dimensão e a força do espelhamento entre textos, para sondar o nível de penetração de um texto no outro. Verifica também a ultrapassagem de cada um, ressaltando o modus faciendi da poesia baseada no compromisso de vanguarda com a tradição, segundo o princípio poundiano traduzido por Faustino:  make it new. “Fá-lo novo; fá-lo de novo; faze nova a coisa; faze a coisa nova; faze novo; faze de novo”.

O segundo capítulo, “A Heresia Didática”, estuda a fundamentação poética de Mário Faustino, a partir de uma visão didático-pedagógica. O enfoque aí concentra-se na reflexão do artista, que instaura no poema que cria um diálogo com Homero, Virgílio, Dante, Camões, Pound e Jorge de Lima. São citados para exemplo fragmentos do poema-título “O homem e sua hora”, estruturado segundo preceitos poundianos quanto às projeções sonoras, icônicas e conceituais (melopeia, phanopeia e logopeia).

O terceiro capítulo, “Língua de Fogo e Mar”, procura ler a poesia de Faustino como um texto único, nos interstícios da construção metafórica. Segundo o autor, na sua introdução do livro, “procura-se não a metáfora em si, mas o texto que ela constrói. Cada realização metafórica seria, desse ponto de vista, uma variante e um componente da metáfora maior: o texto”. Neste último capítulo, o campo de análise é ampliado, dando lugar ao enfoque intratextual, quando se ressalta agora o processo de mataforização recorrente em todo o texto. Barbieri, ao eleger a metáfora como recurso preponderante na configuração poemática de Mário Faustino, evidencia o nível semântico do texto, trabalhado sistematicamente com reduzido número de imagens. O próprio poeta é consciente dessa estratégia, ao considerar a metáfora elemento mediador da relação do poeta com a linguagem: “A metáfora organiza orficamente o mundo. A metáfora mostra. A metáfora cria a coisa.”

Mas o grande mérito da análise empreendida por Barbieri é ter sido capaz de imprimir no seu texto crítico um caráter inventivo ao longo de suas reflexões, pondo em destaque o aspecto experimental do trabalho, como bem observa a profa. Dirce Cortes Riedel: “Se para Faustino o poeta não é só inventor, mas também professor, em Ivo o professor é também inventor, desestruturador inquieto, reativador de velhas situações.”

 

REFERÊNCIAS

BARBIERI, Ivo. A Oficina da Palavra. São Paulo : Edições Achiamé, 1977.

Resenha publicada  na Revista Cadernos de Teresina – ANO X nº 24 – Dezembro de 1990, p;99

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(*)Carlos Evandro Martins Eulálio é professor universitário, coordenador pedagógico de Latim e Literatura em escola de Ensino Médio e pesquisador sobre a obra de Mário Faustino. Autor, entre outros, de Mário Faustino em Curso (Oficina da Palavra).