A escritora, professora e contadora de histórias Márcia Evelin lança dia 30, em Teresina, às 19h, na Livraria Entrelivros, "O segredo da chita voadora". A professora Assunção de Maria Sousa e Silva fará a apresentação da obra. Para embalar o ritmo da noite, a própria autora realizará  a contação da narrativa e a banda As Fulô do Sertão se apresentará durante o momento de autógrafos.

Em entrevista a Entretextos, Márcia Evelin conversou sobre a obra em lançamento e sobre seu fazer literário.

Entretextos - Literatura para crianças é o lugar sagrado do lúdico, mais do que em qualquer manifestação literária. Como o lúdico e a brincadeira se apresentam na obra?

Sou uma contadora de histórias, antes de ser escritora, isso faz com que a veia da oralidade seja mais forte nas minhas histórias. Dessa forma, a  presença da musicalidade, da poesia, da estrutura simples e direta predominam na obra. Quando criei O Segredo da Chita Voadora pensei, inicialmente, numa história que enaltecesse o tecido chita e a beleza da mulher negra, seguindo a linha de escritores que comungam com a necessidade de dar visibilidade a histórias que protagonizem o negro positivamente. Daí pensei numa história de encantamento, uma espécie de conto de fadas moderno, que se passasse  numa cidadezinha do sertão brasileiro. A presença de um elemento mágico na história e o próprio título são chamativos que atiçam a curiosidade e o lúdico no leitor criança e no adulto também, pois escrevo histórias para crianças de todas as idades. O projeto gráfico do livro também foi pensado  com esse objetivo. As belas ilustrações de Angela Rego levam a criança a se deleitar num cenário nordestino, colorido com as cores fortes do tecido chita. Pensamos também na disposição das letras nas páginas, como na página em que o texto acompanha o movimento do vento e o tamanho da letra cresce para mostrar o vento forte. Esses recursos trazem para a história a ludicidade e inclui o livro no universo contemporâneo tornando-o “objeto novo”, um livro-brinquedo que concentra várias linguagens, não só a linguagem verbal.

Entretextos - As lendas são elementos que exercem sobre você um fascínio e se incorporam ao seu modo de contar. Qual exatamente a função delas no seu texto infantil?

Sempre gostei muito de ouvir histórias, causos de mistérios e até histórias de assombração. O contador de histórias carrega consigo toda a tradição oral de um povo. Acredito que cada escritor tenha um estilo e preferência de temas para escrever. Não posso dizer que escreverei somente lendas e histórias em que as manifestações culturais sejam o ponto forte, mas sei que esse é um elemento muito forte no meu texto, a valorização da cultura, do que não está sendo visto, mas que faz parte da nossa essência. Não gosto de histórias que tenham um cunho didático e moral,  literatura é arte, é estética...gosto de histórias que sirvam para fazer a criança/adulto sonhar, fantasiar, imaginar, mergulhar fundo no texto e voltar renovada. Esse é o papel da literatura.

Entretextos - Em conversa há algumas semanas, pude conhecer um pouco da essência da obra, e do diálogo que ela mantém com outras culturas e contra o preconceito. É esse um dos grandes desafios da literatura para crianças: ajudar a construir um mundo sem preconceitos e barreiras?

Sim, mas isso pode acontecer a medida que a criança se identifica com o texto e busca um sentido para o que está lendo, de forma natural. Nem sempre é preciso dizer diretamente o que se quer, é preciso deixar o leitor preencher os espaços em branco do texto, fundir sua experiência pessoal com o que está lendo. No livro O Segredo da Chita Voadora  eu trago o personagem negro numa vivência do cotidiano, sem precisar falar nada diretamente, mas a minha intenção é bastante clara. Também faço uma homenagem a cultura africana através do nome da personagem, Abayomi, palavra de origem ioruba, que significa “encontro precioso”, além de ser o nome dado as bonecas, feitas somente com nós, pelas mães africanas que atravessavam o Atlântico, de forma forçada, vindo para o Brasil. Abayomi é símbolo de resistência, tradição e poder feminino, tudo isso combina muito com o tecido chita.

Entretextos - Sem querer me antecipar e morrendo de curiosidade, como muita criança na hora de ler o título da obra, o que os leitores descobrirão com essa chita voadora?

Cada um terá uma vivência pessoal, mas talvez possam descobrir que a contemporaneidade precisa de encantamento, que precisamos ser intuitivos. Acredito que as crianças/adultos de hoje precisam de histórias mágicas para alimentar suas subjetividades.

Entretextos - Como a arte de contar histórias, ofício que exerce tão talentosamente, interfere na obra infantil que vem construíndo? Ou, de fato, são fazeres distintos, de campos discursivos, embora relacionados, não necessariamente ligados no momento da escritura, quando se considera a função social de cada um?

Nunca pensei em ser escritora e há mais de 30 anos exerço a função de contadora de histórias, despertada em mim com a maternidade, meu lado mãe. Só agora descobri que também poderia escrever histórias, já que, durante tanto tempo, estive em contato com textos dessa natureza. Acredito no percurso ciclico do texto, das histórias irem do oral para o impresso ou vice-versa, assim o texto ganha vida. Meu primeiro livro O Boi do Piaui, escrito em 2015, também pela Editora Nova Aliança nasceu primeiro na oralidade, só depois de 20 anos que eu contava essa história resolvi que queria cristalizá-la no papel. Ninguém escreve para a história ficar parada, sem vida, mas para ser contada aos quatro cantos do mundo.

Entretextos - Escrever para crianças é de algum modo volta a sê-lo? Como acontece o seu processo de criação do texto infantil?

Geralmente penso na temática que quero abordar e procuro enxertar no texto elementos mágicos. Escrevo com emoção, com sensibilidade, com amor.....não me preocupo muito (pelo menos no início) com a forma gramatical, com a estrutura do texto, mas com os elementos que vou colocar no enredo para fisgar o leitor, para aproximá-lo do texto, seja ele criança ou adulto. E assim nascem minhas histórias.

Entretextos - qual seu próximo projeto?

Escrevi uma releitura do clássico O Pequeno Príncipe  (minha grande paixão) que gostaria que fosse meu próximo livro, assim como uma coletânea de pequenas melodias que eu e Anna Miranda, minha parceira do Grupo Cafundó de Contadores de Histórias, juntamente com Fernando Ferreira criamos para as histórias. Pretendemos fazer um livro com todas elas, acompanhado de um CD. Esses são meus próximos projetos.