“Marataoã/O rio corre em meu coração/E separa os sentimentos da areia./A vaga das águas vai/Virando pó em pensamento/E a estrada encurta distâncias./O rio viaja no horizonte/Onde dançam os cabelos das carnaúbas/E soluçam os olhos do sol./O rio corre em meu coração/E deságua nas correntezas do caminho.”
 
Qual a alma de uma cidade? Antes de os valores do mundo do consumo determinarem tendências e comportamentos, em muitos lugares, a igreja, a praça e principalmente o rio definiam a essência das cidades. O afeto, a interação, o tempo mais valiam que qualquer outro signo, porque a pressa era viver.  O afeto, a interação e o tempo cabiam com todas as letras na igreja, na praça e principalmente no rio, à margem do qual os fins de semana se chamavam alegria; fosse inverno, fosse verão, em banhos que eram motivos para confraternização.
 
Muitos exaltaram o rio-alma de sua aldeia. Celebrá-lo é ir a fundo nas feições das cidades, nas formas de relação entre o homem e a natureza. Celebrá-lo é também habitar. Pessoa, intermediado pelo heterônimo Alberto Caeiro, enalteceu a grandeza do Tejo, rio universal, mas também rio ímpar de sua Lisboa: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia (...)/poucos sabem qual é o rio da minha aldeia /E para onde ele vai/ E donde ele vem/ E por isso porque pertence a menos gente/É mais livre e maior o rio da minha aldeia...”  Mário de Andrade, o Tietê: “Água do meu Tietê,/onde me queres levar?/ - Rio que entras pela terra/ E que me afastas do mar....”  João Cabral de Melo Neto, o Capibaribe: “Deixando vou as terras/ de minha primeira infância./ Deixando para trás/ os nomes que vão mudando./ Terras que eu abandono/ porque é de rio estar passando./ Vou com passo de rio,/ que é de barco navegando./ Deixando para trás/ as fazendas que vão ficando./ Vendo-as, enquanto vou,/ parece que estão desfilando./ Vou andando lado a lado/ de gente que vai retirando;/ vou levando comigo/ os rios que vou encontrando./”. Da Costa e Silva, o nosso Parnaíba: “Saudade! O Parnaíba – velho monge/As barbas brancas alongando… E, ao longe,/O mugido dos bois da minha terra…”.
 
Exaltei o amor pelo rio de minha terra de nascimento e das vivências inigualáveis da infância e pré-adolescência, expressando no poema Marataoã, designação do volume de águas que serpenteia o perímetro urbano de Barras-PI,  o sentimento do eu lírico que utiliza o rio não  apenas como símbolo de identidade, mas também como elemento por meio do qual o lirismo telúrico projeta a interlocução entre o mundo exterior e o universo interior da voz poética. O rio funciona como uma metonímia para a própria terra e as emoções dela advindas, resignificada em jogos sonoros e imagéticos, construídos com a finalidade de revelar o sofrimento ou a saudade pela distância da terra-berço.
 
Como em poesia a relação ritmo-imagem conta mais do que qualquer  experimentalismo, os recursos da tradição literária, os tropos, ganham sentido especial.  Nesse poema, extremamente musical, o rio e a terra se confundem semanticamente.  O rio é movimento (inclusive pela repetição assídua do som “rê”):  assemelha-se ao sangue ( “o rio corre em meu coração”) – corre, viaja, dança. Acompanha o eu lírico como fragmento, como memória, conotada na metonímia “ vaga das águas” (a parte pelo todo).  O rio é onipotente, conforme se vê no processo metonímico  “deságua nas correntezas do caminho”,  processo que reitera o significado afetivo tanto da terra quanto do Marataoã.  A  Terra (cidade) e o Marataoã  se confundem e fundem na expressão da alegria e da tristeza. O rio presente; o rio ausente.
 
A voz lírica fala de um lugar social demarcado. Lugar que estabelece separações  no plano físico. Na esfera afetiva, na há distanciamento.  O próprio lugar de onde fala o eu lírico, a estrada,  conota também a vaga das águas,  as quais aproximam pela memória o enunciador  do espaço  material que ele evoca. Em contínuo processo de personificação,  o rio “separa os sentimentos da areia”, “vira pó em pensamento”, “soluça”,  “deságua”, entretanto, está continuamente vivo no eu lírico. Mais do que um simples processo de personificação, o rio absorve a imaginação: sinestesias, assonâncias e aliterações  em alta voltagem. Sensacionismo e racionalidade. Poesia para sentir e pensar. 
 
Viajando nos “cabelos das carnaúbas” e nos “olhos do sol”, homenageio a cidade de Barras do Marataoã, abençoada pela abundância de uma natureza que não comporta nos olhos, evocando o elemento afetivo mais caro aos barrenses, além de sua fé imorredoura. Homenageando o rio quando Barras completa, em 24 de setembro de 2017, 176 anos, como núcleo humano, deixo agora a  diversidade de sentidos (ritmos e imagens)  que se pode vasculhar no poema  por conta da imaginação do leitor. Ela pode mais do que quaisquer explicações.  Sobretudo do que  explicações ou leituras vindas de quem escreveu.  Deixo o leitor à vontade. Essas  anotações,  parciais, porque a afetividade é apenas uma parte de quem escreveu;  em poesia, a outra parte é a intuição do leitor, a carga sugestiva das  palavras e de seus sons individuais e arbitrários.  
 
Deixo o leitor à vontade, afinal, não apenas o rio, paradoxalmente, reduz-se a lembranças, mas também tudo aquilo que significa, para nós, o afeto sem medida exata. Parabéns  Barras do Marataoã (e por extensão a todos os barrenses) pelos seus 176 anos!
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(*)Dílson Lages Monteiro  é professor, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras.