“Rio querido! Conheci-te ainda Província, embora capital. Num tempo em que as cidades não se construíam em três anos nem os homens enriqueciam em três dias. Foi em 1896. Contando não se acredita: nas Laranjeiras da minha infância, sossegado arrabalde (já sem Laranjeiras) os perus se vendiam em bandos, que o português tocava pela rua com uma vara, apregoando ‘Eh peru de roda boa!’. À porta da casa se tomava leite ao pé da vaca. Não havia automóveis.”

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Manuel Bandeira

Sobre essa crônica de Bandeira, escreve sobre a memória da infância, em dissertação de mestrado em Literatura pela Universidade de São Paulo, SYLVIA TAMIE ANAN:

"A construção de Brasília, com a transferência da capital brasileira para o planalto central, é um assunto recorrente nas crônicas do final dos anos 50 e do ano de 1960. Durante o período de construção da nova cidade, desde a escolha do nome até o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, Bandeira comenta as notícias sobre a futura capital ou, como no trecho acima, ao se sentir cansado da vida atribulada do Rio, projeta nela suas esperanças de melhoria na vida cotidiana e mesmo política do país. Na crônica “Pêsames ou parabéns?”, de Andorinha Andorinha, publicada dias depois da inauguração de Brasília e da transferência da capital, em 21 de abril de 1960, refere-se às avaliações dos habitantes do Rio de Janeiro da perda da condição de capital federal. Na manhã do dia em que Brasília se tornaria definitivamente capital brasileira, o poeta “natural do Recife, pernambucano dos quatro costados, mas cidadão carioca honorário” pergunta entre seus amigos nativos do Rio sobre o seu sentimento em relação à mudança; e a conclusão do cronista é, naturalmente, favorável aos benefícios do retorno da cidade à condição de província, graças ao esvaziamento da cidade, subitamente silenciosa, sem movimento urbano nenhum, o que só poderia ser salutar aos que ficaram".

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