[Leonardo Cazes]

Carioca de Laranjeiras, que viveu entre os subúrbios do Rio e os cafés do Centro da cidade, Lima Barreto manteve ao longo dos seus 41 anos de vida uma relação conturbada com alguns intelectuais paulistas. Por um lado, Monteiro Lobato foi o único editor que lhe pagou um adiantamento para publicar um romance. Por outro, Lima protagonizou uma troca de farpas histórica com os modernistas da Semana de 1922, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda à frente. O diálogo cheio de ironias de lado a lado acabou interrompido pela morte do autor carioca, aos 41 anos, no dia 1º de novembro daquele ano. Essa relação entre Lima e os paulistas será abordada em livros e em mesas da 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que vai homenagear o autor carioca, e acontece de quarta a domingo.

Neste diálogo entre Rio e São Paulo, Monteiro Lobato foi fundamental. Os dois autores mantiveram uma intensa correspondência entre os anos de 1918 e 1922, apesar de nunca terem se conhecido pessoalmente. As cartas trazem conversas sobre colaborações de Lima em “A Revista do Brasil”, editada por Lobato, as negociações sobre o lançamento do romance “Vida e morte de M.J Gonzaga de Sá” e comentários sobre a literatura feita na época. A correspondência saiu em livro pela primeira vez em 1955, organizada por Edgar Cavalheiro, e desde então virou uma obra rara. Agora, mais de seis décadas depois, as cartas ganham nova edição pela Verso Brasil. A editora Valéria Lamego destaca que algumas missivas, que não estavam na íntegra, foram ampliadas.

Quem abre a conversa da dupla, em 2 de setembro de 1918, é o paulista, ao pedir um texto para sua revista: “Ninho de medalhões e pérolas, ela (a revista) clama por gente interessante, que dê coisas que caiam no gosto do público. E Lima Barreto, mais do que nenhum outro, possui o segredo de bem ver e melhor dizer, sem nenhuma dessas preocupaçõezinhas de toilette gramatical que inutiliza metade dos nossos autores”, numa referência ao estilo de escritores como Coelho Neto, alvo de muitas críticas de Lima nos jornais.

— É um diálogo que ficou esquecido, aparentemente é improvável, mas não era — afirma Valéria. — A correspondência abrange um período em que o Lima já vive seu drama e o Lobato começa sua grande ascensão, compra “A Revista do Brasil” e se estabelece como editor.

Havia, portanto, uma flagrante assimetria entre os dois autores — um, amanuense aposentado do subúrbio, o outro um emergente capitalista das letras. Antonio Arnoni Prado, que vai participar da mesa “Moderno antes dos modernistas” na Flip, na sexta-feira, ao meio-dia, aponta que nas cartas não há uma discussão sobre o projeto literário de Lima. Lobato se porta, o tempo todo, como um editor. A visão de futuro do paulista, aliás, é notável. Em uma carta de dezembro de 1918, ele afirma: “Que obra preciosa estás a fazer! Mais tarde será nos teus livros e nalguns de Machado de Assis, mas sobretudo nos seus, que os pósteros poderão ‘sentir’ o Rio atual com todas as suas mazelas de salão por cima e Sapucaia por baixo”.

— Lobato tinha um faro de editor que era extremamente fino. Ele não errou, era o terceiro grande livro de Lima — diz Arnoni Prado.

Sem o retorno financeiro esperado, Lobato é cada vez mais lacônico nas suas cartas, que rareiam, apesar da insistência de Lima. Paralelamente, os modernistas de São Paulo foram se articulando. São nomes como Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Os paulistas liam e admiravam os romances e os contos de Lima, além de suas crônicas na imprensa, que chegavam principalmente através das revistas ilustradas com que ele colaborava.

DESENCONTRO COM OS MODERNISTAS

Francisco de Assis Barbosa, na sua biografia “A vida de Lima Barreto” — que acaba de ser reeditada pela Autêntica, após anos fora de catálogo —, traz um depoimento de Milliet que resume o fascínio dos paulistas: “O que mais nos espantava então era o estilo direto, a precisão descritiva da frase, a atitude antiliterária do escritor, a limpeza de sua prosa, objetivos que os modernistas também visavam”. Em 1922, Buarque, que se mudara para o Rio, vai em busca de Lima para apresentá-lo à revista “Klaxon”, criada naquele ano pelos paulistas.

Em entrevista a Arnoni Prado, já na década de 1970, Buarque contou que foi à Livraria Schettino com um maço de exemplares da “Klaxon” embaixo do braço, de manhã cedo, e quem abriu a porta foi um homem negro, mal dormido, e “que foi logo amaldiçoando a chegada do novo freguês”. O jovem crítico reconheceu Lima Barreto e tentou convencê-lo a se juntar à revista, mas um impaciente Lima disse que não queria saber nada daquilo, pois a “Klaxon” “não passava de uma imitação das revistas americanas de automóvel”. O desencontro se estendeu para as páginas da revista “Careta”, onde o carioca comentou o episódio e criticou os “futuristas paulistas”. O revide veio na edição seguinte da “Klaxon”, em texto não assinado, mas cuja autoria é atribuída a Mário de Andrade, que chamou Lima de “escritor de bairro”.

Felipe Botelho Corrêa — professor do King’s College, organizador de “Crônicas da Bruzundanga (e-Galáxia) e que fala na mesa “Arqueologia de um autor”, quinta-feira, ao meio-dia — aponta que Lima escrevia em revistas muito populares, de circulação significativa e nacional, como a “Careta”. Para Corrêa, esse desejo de comunicação com um público amplo era parte fundamental do seu projeto literário. Nesse ponto, diz, os modernistas também se inspiravam nele.

 

— Eles queriam ser o Lima, queriam fazer o que o Lima fazia — afirma o professor, que escreveu o ensaio “A literatura militante de Lima Barreto”, que abre a coletânea. — A farpa que ele solta na “Careta” foi uma brincadeira. E o vocabulário que o Mário usa para devolver a farpa mostra que ele lia os textos do Lima e via nele a possibilidade de falar com um público maior.

Publicado originalmente em O Globo, em 22.07.2017