[José Castello}

Escritores enlouquecem diante da página em branco. Em seu E história começa, o israelense Amós Oz recorda a inveja que sentia do pai porque ele, autor de livros acadêmicos, partia sempre de uma mesa coberta de separatas, de livros de referências, de farta pesquisa documental. Enquanto ele próprio, Oz, quando começa a escrever, nada mais tem diante de si que uma miserável página em branco. 


Não é fácil partir do “absolutamente nada”. A tela lisa e brilhante dos computadores guarda uma aparência ainda mais ameaçadora. No papel sempre é possível rabiscar, esboçar desenhos e, com isso, se distrair. No computador, onde qualquer erro é imediatamente deletado, isto é, jogado no lixo, nada perturba a castidade da tela. Ela se conserva limpa e trêmula, a pedir o alimento das palavras.

 
Foi para enfrentar essa ausência brilhante que, um dia, adotei um recurso banal de que, no entanto, nunca mais abri mão. Sempre que me sento para trabalhar, antes de qualquer outra coisa, escrevo no alto da tela uma palavra que serve de senha para meu estupor: “nada”. Agora mesmo, para escrever essa coluna, repeti a estratégia. Vocês não podem vê-la mas, enquanto avanço neste terceiro parágrafo, a palavra “nada” ainda está bem ali em cima, a me consolar. A dar um nome, inútil, a minha agonia. Eu só a cortarei _ deletarei _ quando decidir que a coluna está pronta.


O que ela quer dizer? Nada mesmo – e apenas isso. Nenhuma coisa, coisa alguma, nada: eis, para Amós Oz, a matéria-prima de que se servem os escritores. Escrever “nada” antes de qualquer outra coisa é uma maneira de conferir uma materialidade ao vazio (isto é, àquilo que nada contém), para dele fazer alguma coisa _ ainda que essa alguma coisa seja o próprio registro de uma ausência. 


Por isso me entusiasmo com a leitura de E a história começa, delicado livro em que Oz examina os começos de relatos célebres, assinados por escritores como Franz Kafka, Nicolai Gogol, Raymond Carver e García Márquez. Ele persegue o momento em que o vazio primordial se transforma, enfim, em palavras. Em seu livro, Amós Oz luta para delimitar o não existente que os escritores têm como objeto. Artistas plásticos, mais afeitos às manhas da matéria, e, por força, às sutilezas da ausência, há muito fazem o mesmo esforço. Penso no californiano Larry Bell, um artista que, nos anos 60, construiu cubos de espelho, ou de cristal, exatamente para capturar o que não existe. Ele dizia: “Minhas obras não tratam de nada, apenas ilustram o vazio e a falta de sentido”. E ficava satisfeito com isso.


Cada vez que começam a escrever, escritores se vêem diante do mesmo horror que atordoava Bell. Um medo mórbido, que se acerca da paralisia mas que, fantástico paradoxo, é o combustível da escrita. A folha em branco e a tela vazia são a falta sobre a qual a literatura se funda. É nelas que, em contradição com a própria condição do nada (que, ensina o dicionário, é “nenhuma coisa, coisa alguma”), alguma coisa se detém. 


Mas será do nada mesmo que os escritores partem? Ou esta é só uma ilusão a que se agarram, para se proteger do pior? É o próprio Amós Oz quem instala a dúvida, quando se lembra de Edward Said, o falecido crítico palestino. Para Said, começar era “essencialmente uma ação de regresso, é retroceder”. Um retorno a alguma coisa perdida, e não um avanço a partir do zero. Prudente, ele se apressava, contudo, a distinguir o começo da origem. A origem é divina _ ela, sim, provém do nada. O começo, ao contrário, é humano e histórico. Mesmo partindo da página em branco, é a um passado e a uma memória, a toda uma imaginação em retalhos, que o escritor regressa. 


A ideia do nada, à qual eu mesmo me aferro, era, para Said, um grave engano. Em vez de uma ausência, a folha em branco é um véu que encobre aquilo que, oculto, pede para ser descoberto. A imaginação, ao contrário do que crêem os autores de best sellers e os roteiristas de Hollywood, não aceita qualquer coisa. Imaginar é recuperar restos do passado, é dar destino a agitações sem nome e sem forma que, sem saber, carregamos. É moldar alguma coisa que não se vê, mas que já estava ali antes que começássemos a escrever.


Amós Oz sustenta, então, a hipótese de que todo começo é sempre um contrato entre escritor e leitor, em que as partes definem as regras de sua relação. Um contrato que leva a diferentes soluções. Elas vão desde o começo filosófico que Tolstoi exercita em Anna Karenina e o começo ríspido que Faulkner nos oferece em O som e a fúria, até (como em tudo na vida) aos “contratos fraudulentos”, em que o escritor joga uma isca, fingindo que vai em uma direção quando, na verdade, vai em outra. Nesse segundo caso, estariam relatos célebres como O nariz, de Gogol e Um médico de aldeia, de Franz Kafka.


Todo começo é, enfim, uma posição que o escritor toma diante do real. Em seus diários, o pintor suíço Paul Klee relata uma experiência que, me parece, ajuda a entender isso. Diz ele que descobriu o que é a pintura durante uma viagem que fez, em 1914, à Tunísia. Descobriu o que ela é observando a luz vibrante e as cores fortes do norte da África. Apesar disso, a temporada tunisiana desembocou não em uma tela forte e vibrante, mas em um trabalho obscuro e denso, O tapete da recordação, guardado hoje em Berna. 


Alguns entendem que O tapete da recordação encarna o pessimismo de Klee diante da Primeira Guerra. Talvez. Mas parece que, depois do mergulho na luz que experimentou na Tunísia, Paul Klee pôde, enfim, chegar (retornar) a si. E o que encontrou no ponto de partida não foi o nada, não foi uma tela em branco, ou a limpidez da luz, mas um negrume desolador.

 
Essa estranha tela de Paul Klee, que de certa forma desmente sua pintura anterior e também a posterior, retrata, quem sabe, a obscura matéria de que partem os criadores. Como o branco da tela vazia, ela não é a ausência de cor, mas a mistura de todas as cores. É o grande nó do qual Klee tirou sua grande arte. É desse duro nó, tenso como um enigma, nos mostra Oz, que também os escritores arrancam a literatura.