Professor Dr. Amós Coêlho da Silva
      Estimados confrades da ABRAFIL
      Senhoras e senhores
      Prezados Estudantes de Letras

     Sinto-me muito honrado e grato com o convite que me fez o Presidente da Academia Brasileira de Filologia, Professor Amós para que fizesse uma palestra sobre o Curso de Letras – tema que me foi sempre caro e muito inter-relacionado com a minha vida tanto de antigo aluno de Letras, modalidade português-inglês da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, quanto na condição de professor de literatura brasileira e de língua inglesa do Curso de Letras da Universidade Castelo Branco, e de Professor Titular aposentado de língua inglesa do Colégio Militar do Rio de Janeiro.
     Eis-me aqui álacre e por isso extremamente motivado a desenvolver o tema em cujo título estão paratextualmente indiciadas as fases de desdobramento de minha ideias e visões sobre o assunto em exame.
    Gostaria de lhes tecer algumas considerações que elucidem melhor o meu entusiasmo jamais arrefecido para tratar de tema tão oportuno como falar do Curso de Letras em geral e sob uma perspectiva da realidade educacional brasileira atual.
     As minha motivações vêm de longe, tendo como ponto alto aquele momento sublime em que me vi envolvido num dado instante no qual, dando uma aula de literatura brasileira no Instituto de Educação Roberto Silveira, Duque de Caxias, senti como que um espanto epifânico, ou seja, a ideia, surgida num lampejo de luz, de elaborar um livro sobre o ensino de Letras destinado sobretudo a alunos egressos de escolas públicas ou de escolas particulares de ensino deficiente. Obviamente, a ideia-máter já devia estar germinando na minha mente e tinha como leit-motif os anos de estudos na graduação com as alegrias, os sonhos, os ideais e as dificuldades enfrentadas e duramente superadas. O livro a ser escrito seria, em resumo, um vade-mécum de orientação mais segura a quem está ingressando no curso de Letras.
    Com isso, lucrariam os estudantes que, em geral, ao escolherem Letras, pouco ou quase nada sabem do que os aguarda quando adentram os umbrais do campus universitário. Permitam-me, agora, uma auto- citação extraída do parágrafo final do meu livro Breve introdução ao curso de letras: uma orientação, somente para lhes mostrar o que provavelmente um neófito de Letras, como foi o meu caso e seguramente o de futuros estudantes, psicologicamente sentiria no início do curso:
     É aí que a pólis - a cidade do saber - embaralha a cabecinha do estudante, atordoada que fica com o labirinto universitário, com os códigos e mais códigos burocráticos, com esse campo imenso e variadíssimo aberto ao saber superior. Esquecido, contudo, de que, por trás dele, existe uma multidão de seres diferentes nos seus gestos, perspectivas e desejosos, como o foram no ensino fundamental e médio, de que a mão acolhedora se lhes estenda a fim de que a práxis universitária não perca o elo com a vida [... ] (p. 117)


      Daí que, na elaboração do livro, o meu principal objetivo seria dar a minha modesta contribuição à melhoria do ensino de Letras no país a partir da perspectiva do antigo estudante com as suas deficiências de conteúdo e de formação teórica incompleta.
     A exposição, embora escrita com passagens de natureza autobiográfica, não deixa de adquirir maior objetividade em alguns capítulos em virtude de ser um livro que se propõe levar o leitor informações e recomendações, dicas e sugestões vasadas em linguagem didática e accessível.
     Posto que lançada em 2009 e, assim, distante quase nove anos de nossos dias, posso lhes assegurar que os óbices que atrapalhavam a vida do estudante da época da publicação, ainda se fazem sentir atualmente no que toca ao despreparo dos estudantes na maioria oriundos de escolas públicas sucateadas por sucessivos governos estaduais ou municipais em todo o país. Poucas são as exceções a esse estado de deterioração do ensino público fundamental e médio, situação deplorável atingindo até universidades públicas estaduais, como foi o triste exemplo da UERJ.
     Releva assinalar que não escrevi o livro pensando em alunos privilegiados provenientes de colégios particulares ou federais com ensino de alto padrão, alunos mais preparados com bom repertório de leituras e de conhecimentos de línguas modernas. Muitos desses alunos fizeram cursos de idiomas no exterior ou até cursaram o ensino médio em países adiantados. No livro denominei este tipo de aluno de highbrow (designação, de resto, irônica, que ouvi há muitos anos de uma querida colega do curso de Letras), em oposição a lowbrow, tipo ao qual galhofeiramente nos atribuíamos então por não fazermos parte do primeiro, um grupo fechado e pedante. Este fato me lembra também um texto de Aldous Huxley (1894-1963), “I am a highbow,” texto que motivou admirável réplica de Gilbert Frankau (1884-1952), sob o titulo de “I am a lowbrow.”
     Feitas essa ponderações, passo ao primeiro tópico do tema desta palestra: a importância do curso de Letras. Cumpre-me frisar com todas as letras (vale o trocadilho, mas com “L” maiúsculo) a relevância do Curso de Letras na preparação das gerações de profissionais  que vão atuar no ensino fundamental e ensino médio, ou senão, dependendo de seu preparo e prioridades, cursarão mestrado e doutorado com a finalidade de lecionar em universidades. Não importa que outras áreas do ensino superior não nos vejam com a grandeza que o magistério de Letras merece ser reconhecido.
     Se nossa área de atividade não tem recebido o devido apreço de parte da sociedade, o que sairá perdendo será ela mesma. Uma sociedade incompetente linguisticamente até nos estratos mais altos dará mau exemplo diante de países cultos que devotam ao ensino da sua língua nacional um lugar de realce.      Daí por que o ensino do inglês se disseminou por quase todo o mundo. Valorizando a sua língua, os Estado Unidos, a Inglaterra, por exemplo, pensaram logo em variadas formas de fazer o inglês ser disciplina praticamente universal através do rádio, televisão internet, de publicações de revistas sobre o inglês, das suas embaixadas, de bolsas de estudos, de intercâmbios culturais com diversos países do mundo. Naturalmente investiram muito dinheiro na propagação do ensino do inglês a fim de atingirem o ponto privilegiado de que hoje desfrutam.
     Já houve época até melhor naqueles países quanto à propagação do inglês. Recordo bem uma publicação americana, chamada Forum, de alta qualidade para os estudos linguísticos, distribuída gratuitamente para vários países e da qual fui assinante por muito tempo. Só com os problemas financeiros mundiais, ela deixou de ser impressa.
     Ao não valorizarem os estudos de Língua Portuguesa, carro-chefe de todo o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural do país, os governos dificilmente atingirão níveis altos e competitivos em todos esses campos da atividade humana. Quando um governador ou prefeito pagam mal seus professores, eles estarão prejudicando a performance de seus mestres em todos os níveis de ensino.
     Da mesma forma, na medida em que preparamos melhor os nossos alunos de Letras, estaremos, mais adiante colhendo os frutos de melhores profissionais de língua portuguesa, de literatura, de redação, os quais, por sua vez, hão de formar educandos e cidadãos mais aptos a ingressar no mercado de trabalho e conseguir melhores condições de vida independente, o que vai redundar em progresso social para o país.
     O Curso de Letras não é um penduricalho estéril no desenvolvimento de uma nação. São os docentes de Letras que mantêm a sobrevivência de nosso aperfeiçoamento em campos cruciais dos estudos humanísticos, da latinidade, da filologia, da gramática normativa, da linguística, da teoria literária, dos estudos de línguas clássicas como o grego e o latim, estes constituindo dois pilares da cultura ocidental e da tradição dos bens imateriais indispensáveis ao aperfeiçoamento do ser humano integral. Sem o conhecimento do latim e do grego, um ensaísta ou um crítico literário não absorverá adequadamente uma leitura de alta complexidade e com citações nessas línguas, referindo-me, para ilustrar, na literatura brasileira, a algumas passagens de textos do padre Antônio Vieira (1608-1697).
      O segundo tópico seriam os desafios a serem arrostados no campo dos estudos literários de nosso curso de Letras diante de um espaço geográfico-planetário interligado pelos avanços vertiginosos da tecnologia, das ciências, do advento da internet, das redes sociais e de suas enormes possibilidades em termos de comunicação instantânea entre os povos.
      Os desafios, no campo da informação, que nos esperam são muitos e estão em constante transformação, a tal ponto que, se por acaso, navegamos pelo Facebook, a todo instante, somos surpreendidos com uma interminável acúmulo de notícias em postagens de vária natureza comunicativa e ideológica e com variadíssimos formatos, visuais, textuais, sonoros, gráficos, etc. Ora tudo isso, vai se refletir também na área educacional em todos os níveis de ensino, em todos os cursos.
      Diante dessa realidade que, parece, veio para ficar, o papel do Curso de Letras deverá sofrer igualmente transformações em seus formatos tradicionais e nas metodologias, nas pesquisas e nos projetos acadêmicos com vistas a atender aos reclamos dos novos tempos virtuais.
      Consoante agudamente observou um escritor americano, Philip Roth (1933-2018), falecido nesta semana, em notícia veiculada pela televisão, a leitura sofrerá uma inflexão, uma perda irreparável diante das múltiplas opções de procedência sobretudo virtual. Pelo visto, ele quis dizer que cada vez menos se lerá, por exemplo, ficção. Pois os leitores estão se encaminhando para outros tipos de leituras não impressas e não necessariamente ficcionais. Não se sabe até aonde se vai chegar ante tantas mudanças de hábitos e de entretenimentos. A observação de Roth deixa sem dúvida nuvens sombrias ao universo narrativo.
      Pois é em face desse caleidoscópio assustador de informações sempre renovadas e de variadas instâncias que devemos meditar com alto espírito crítico e honestidade intelectual sob pena de perdermos o nosso controle de usuários em trocas ciclópicas de informações velocíssimas de informações e contrainformações, algumas reconhecidamente nocivas como as fake news, as quais por vezes colocam em xeque a veracidade de notícias ou de acontecimentos ocorridos mas divulgados torcidamente ao público, fora aquelas montagens em vídeo que podem, através de recursos eletrônicos de alta sofisticação, mudar partes de corpos humanos em cabeças de outras pessoas, ou usando a voz de alguém em contextos de diálogos falsos. Ou seja, criam-se realidade falsas passadas como verdadeiras ou vice-versa.
     Todo esse mundo virtual e visual de algum modo nos assusta e, se não nos acautelarmos, nos devorará como se fossem pirâmides egípcias. É tempo, portanto, de prudência, equilíbrio e mormente de sobriedade. Nunca valeu tanto a máxima “Virtus in medium est.” E, por isso mesmo é que não devemos sucumbir a esse ilusório canto de sereia que nos toma um bom tempo mais produtivo daquela “solidão” benfazeja de que nos fala o crítico Álvaro Lins(1912-1970), essa solidão preciosa como antídoto à banalização do tempo perdido que nos subtraem horas de leituras dos livros impressos ou eletrônicos.
     São estes desafios globalizados que, de certa maneira, modificarão alguns hábitos de estudo e, na    Universidade, que é um espaço aberto ao conhecimento sem fronteiras, as modalidade dos diversos cursos de Letras oferecidos sofrerão certamente, por seu turno, influências múltiplas, por exemplo, diante da escalada de cursos de ensino superior privado à distância ultrapassando há muito a porcentagem de cursos universitários presenciais nas universidades públicas. Creio que um caminho para contornar isso seria melhorar o nível dos cursos presenciais e atualizá-los aproveitando-se de recursos da informática para implantar de forma complementar estratégias pedagógicas de ensino-aprendizagem que façam interagir harmoniosamente docentes e alunos. Há tempos vi uma experiência dessa natureza relatada por um professor de Letras da área de língua inglesa da Universidade de Brasília. As universidades públicas devem, sim, ser competitivas em relação às privadas.
      Por outro lado, vejo com algum receio que essa “invasão” virtual no âmbito do ensino possa acarretar alguns problemas de cunho acadêmico em nossas universidades públicas. Neste sentido, ainda sempre vejo a presença do professor na sala de aula como algo insubstituível, não obstante o ensino virtual tenha um professor-tutor à disposição do aluno e dispondo inclusive de horários e dias agendados para a realização de provas com a presença do obrigatória do aluno.
     Mesmo assim, ainda mantenho uma posição conservadora no tocante à indispensável presença do professor em sala de aula em interação com os seus discentes e a fundamental convivência social no campus universitário de efeito salutar ao desenvolvimento psíquico do aluno e daquela sensação de liberdade de estudo, de chegada e saída do campus, de trocas de ideias entre os universitários, de encontros combinados para eventos culturais fora da Faculdade, do prazer de ver os colegas de aula, das conversas nos corredores e nos jardins da Faculdade, das idas à biblioteca, das dúvidas tiradas com os professores, dos debates em torno da matéria dada, do comparecimento a conferências, simpósios abertos aos alunos, do sentimento daquilo que chamo “Universidade é vida.”
     Só no campus é possível vivenciar todas estas situações que só enriquecerão a personalidade do alunado e a tornarão pessoa crítica, consciente dos problemas ligados ao conhecimento, ao saber profundo, à investigação, à pesquisa, à universalidade.
     Todavia, cientes dos desafios que nos são lançados pelos tempos pós-modernos ou pós-pós-modernos (aqui aludindo a um tipo de momento de literatura contemporânea no país), me volto para o terceiro tópico, que é o da permanência dos estudos literários e, portanto, do curso de Letras entre nós.
Remontando ao tempo, veremos que os cursos de Letras, os quais foram incluídos no conjunto de cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, no país, se iniciaram em 1934, simultaneamente à criação dessa universidade, segundo nos informa o saudoso Massaud Moisés no verbete “Universidades,” constante do proveito Pequeno dicionário de literatura brasileira, em coautoria com José Paulo Paes (1926-1998).
      No Rio de Janeiro, a Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil, depois chamada Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi fundada em 1939, sendo que a Universidade do Brasil criada em 1937. A UERJ, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mais conhecida pela sigla assim outras universidade do pais, segundo o historiador da literatura brasileira Afrânio Coutinho (2011-2000), no seu pequeno volume Notas de teoria literária, publicado pela Civilização Brasileira, em 1976, teve, primeiro por nome Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette, em seguida, se tornaria Faculdade de Filosofia da Guanabara e, finalmente, comporia a Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
     Afrânio Coutinho esclarece ainda que, em 1950, havia submetido um projeto de criação da disciplina teoria literária que seria incluída “... na primeira série de todos os Cursos de Letras” (op. cit. p.1). O projeto foi aprovado pela Congregação da UERJ após receber “parecer favorável” da Professora Virgínia Cortes de Lacerda (1903-1959). Essa nova disciplina passaria a ser obrigatória em todos os cursos.
     Ao crítico baiano devemos assim esta contribuição ao desenvolvimento no país de uma específica abordagem do fenômeno literário em moldes atuais para a época, inclusive já acompanhada de um corpus de conteúdo próprio a esta finalidade pedagógica-acadêmica. Este primeiro passo redundaria na inclusão dessa disciplina nos currículos de outros curso de Letras pelo país afora e a Coutinho devemos esse pioneirismo nos estudos literários brasileiros.
     Só compreendo o sentido de permanência de nosso cursos de Letras na medida em que certas exigências e pré-requisitos sejam alcançados numa guinada a patamares de maior otimização de desempenho e de mudanças efetivas de comportamentos tanto da parte do alunado quanto dos docentes.  

     Entre essas exigências no que toca aos estudantes de Letras, enumerei as seguintes para as quais as mudanças seriam proveitosas a uma melhoria do ensino de Letras:
    1. O preparo do aluno;
    2. O que é intrínseco à vocação para a área de Letras;
    3. A importância do conhecimento de idiomas modernos e clássicos;
    4. O que o aluno deve evitar durante o Curso de Letras;
    5. O que pela vida afora deve ser princípio básico de sua competência como professor;
    6. A importância dos trabalhos acadêmicos;
    7. A bibliografia como instrumento básico de pesquisas e revisões bibliográficas;
    8. A complementação pedagógica;
    9. A escolha correta e amadurecida das vocações nas variações das áreas e subáreas no campo das Letras;
   10. A validade da Pós-Graduação;
   11. O valor da interdisciplinaridade.
 

    Todo esse conjunto de recomendações e exigências só servirá para possibilitar um mais elevado padrão de nível de formação intelectual do aluno e do futuro professor do ensino médio ou superior. Desta maneira, almejo, esperançoso, a despeito da crônica desvalorização dos docentes, que, num futuro não muito tardio, surjam governantes hábeis, éticos e comprometidos com a Educação Brasileira em todos os seus níveis e com o proposto firme de ter pelo docente em especial uma das suas preocupações constantes, já que ele é sujeito de ação de qualquer reforma em direção a avanços civilizacionais.
    Muito obrigado!⁢

* NOTA:  PALESTRA PRONUNCIADA PELO   PROF DR. FRANCISCO DA CUNHA E SILVA   FILHO  NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA  HOJE,    DIA 16/06/2018. LOCAL: UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO(UERJ),  AUDITÓRIO , 11 ANDAR, RAV. 112/114, Bloco F.