[*Graça Vilhena]

Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia Piauiense de Letras, Dr. Nelson Nery Costa e demais componentes da mesa, senhores acadêmicos, autoridades presentes, senhores e senhoras.

É uma honra estar presente neste evento, para apresentar a obra poética de Maria Isabel Gonçalves de Vilhena, minha avó paterna.

Isabel Vilhena nasceu em Teresina a 20 de agosto de 1896 e faleceu nesta mesma cidade a 19 de dezembro de 1988, aos 92 anos de idade.

É formada pela Escola Normal Oficial e, por educação domiciliar, estudou Francês, língua que dominava com fluência. Foi professora e diretora da Escola Modelo e lecionou Português e Francês nos colégios Diocesano e  Sagrado Coração de Jesus. É acadêmica desta casa, tendo ocupado a cadeira cujo patrono é Da Costa e Silva.

Como poetisa, publicou pela Imprensa Oficial dois livros: Seara Humilde (1940) e Nada (1942). Em 1975, no governo do Dr. Dirceu Arcoverde, através da Secretaria de Cultura, é publicada uma nova edição, que reúne os dois livros em um só, com o título de Seara Humilde. Agora, em comemoração dos Cem Anos desta casa, essa obra é reeditada, em terceira edição, compondo o conjunto da Coleção Centenário, sob número 122, numa louvável iniciativa do Presidente desta Academia, Dr. Nelson Nery Costa, que presta, com isso, relevantes serviços à cultura piauiense.

Para um breve comentário, que farei da obra de Isabel Vilhena, escolhi o poema “A alma do Sino”, que lerei a seguir.

A Alma do Sino

O sino canta!...

O sino está dizendo,

Numa voz de festivo repicar,

Que alguém chegou e vai se batizar.

Numa alegria doida de criança,

A voz do sino é um canto de esperança!

O sino vibra!

O sino vai cantando

Um hino de inocente contrição!

A capela da igreja encheu-se da revoada

De crianças de véu e de grinalda,

Que vão fazer a sua comunhão!

A voz do sino sai purificada

Como o sol, ao romper da madrugada!

O sino chora!...

O sino faz chorar ...

O sino entoa o derradeiro canto:

A prece da saudade, em voz de pranto!

E, soluçando, o sino vai dizendo

Que alguém partiu ... e que não vai voltar.

No corpo do poema, assim como em quase todo o livro, percebemos que Isabel Vilhena foge do soneto, forma tradicional e presente nas composições dos poetas do início do século XX. São apenas 14 sonetos e a maioria das composições têm formas variadas, como a que observamos neste poema, composto por vinte versos livres, porém ainda rimados, nos versos mais longos. O ritmo, no poema, surpreende por meio da alternância do som expressado pelo sino. As sílabas tônicas, nos versos, acentuam a altura melódica, com um som vibrante nos momentos de alegria. Ainda percebemos que esse tom não é verificado nos versos finais do poema, momento em que a voz do sino perde sua intensidade para assumir,  sobretudo no verso aliterante, em que o sino soluça, uma acentuada tristeza, pelo final de nossa existência. O ritmo construído une matéria e forma para compor uma gradação descendente, por meio da voz do sino personificado.

Esse trabalho, construído pela união entre fonopeia e logopeia, conforme Ezra Pound, bem como o rompimento da métrica, traduzem perfeitamente o desejo de novos caminhos, uma vez que aproximam a poética de Isabel Vilhena ao Modernismo, apesar da visível influência da estética romântica. O saudosismo, o apelo sentimental e religioso, a presença constante de toda natureza, que serve tanto às descrições quanto à composição de imagens poéticas, por meio da analogia, o uso de exclamações e outros aspectos da estética romântica permeiam toda sua obra poética.

A lírica de Isabel Vilhena é rica em imagens poéticas. Nesse poema reflexivo, carregado de subjetividade, podemos “ver” o movimento na igreja e também “ouvir” o canto do sino, ora alegre, ora triste. O poema é o resultado de uma arte criadora, cuja matéria prima é a palavra em seus múltiplos sentidos, levando o leitor ao prazer estético.  

O resultado dessa criação pode ser confirmado pela prosopopeia, pois o sino personificado é capaz de adquirir sentimentos para celebrar a vida e entristecer com a morte.

Na metáfora, encontrada nos versos “A capela da igreja encheu-se da revoada \ De crianças de véu e de grinalda”, a analogia estabelecida na composição dessa imagem vai além do movimento de crianças inquietas. A palavra revoada, associada à leveza das crianças em seus trajes brancos com véu e grinalda, permitem imaginar que são pássaros que voam.

O símile está presente, quando “A voz do sino sai purificada \ Como o sol, ao romper da madrugada!”

A imagem do romper da madrugada nos remete à inocência e à esperança que alimentam nossa alma no início de nossas vidas. Para concluir este comentário, ressalto que a poeta, em todo o texto, constrói uma gradação que vai do nascer ao morrer.

No ato da criação literária, como nos ensina Massaud Moisés, “existe um modo de ser e de ver a realidade tipicamente poético”.  Acredito que essa visão da realidade é inerente a todos os poetas que se fascinam com as palavras para revesti-las da poesia descoberta, como fez Izabel Vilhena, de modo exato e perfeito.

 

Obrigada a todos pela presença.

 *Graça Vilhena é poetisa, contista e professora de Literatura em Teresina-PI