[António Vilhena]
 
De outra margem chegou-me o último livro, Pessoa Doutra Margem, do poeta santistas Flávio Viegas Amoreira (FVA), editado pelo Imaginário Coletivo, que conheci na Casa das Rosas, em S. Paulo (2017). Com os sentidos reféns da baía, o poeta deixa-se levar pela melancolia que veste o mar imenso e que lhe lembra os “operários do Brooklyn”, quiçá, os que construíram a ponte (1883). Há nesta sua obra poética um TU que dialoga com Pessoa ou Álvaro de Campos através de um artifício literário onde a sombra do poeta do Orfeu se perpetua no poeta santista, através do Velho Mundo que representa a Cultura Clássica, o melhor da matriz greco-latina. 
 
O cais, como memória de outros mundos, espaço de encontro e de encontros, exílio de poetas cativos na liberdade de olhar o horizonte, desassossego de desejos interditos, é o “muro” que leva Álvaro de Campos a descobrir o abismo que o torna imenso. Nessa contemplação, “O mar sem medidas //único a que me subjugo (pg.55), é ainda a distância de Zénite a Nadir que toma a semântica da poesia num rio pequeno, mas único a que o poeta se subjuga (pg.55). Quem ousar ler esta poética dos anseios de Flávio Viegas Amoreira descobre um Algarve que desenhou as coordenadas e as viagens com sangue mouro, os insolúveis corpos naufragados nos versos de velas pandas. 
 
O caos é um chamamento de erotismo “de novas aventuras // em busca dum só amor // que satisfaça” (pg.58). A varanda sobre o mar constrói-se na paciência dos dias, mas “A eternidade é aos domingos” (pg.50). Um livro desassombrado onde o poeta deixa que lhe toquem “da forma que ainda exista”(pg.31). Às vezes, o mundo mais íntimo é o que resiste nos corpos dos outros, “no álcool da melancolia” (pg.58), em busca de “Um presente infinito!” (pg.59). Pessoa Doutra Margem é um livro sem margens.
 
 
António Vilhena
Publicado originalmente no Blog Escreve nos meus Olhos