O filósofo e psicanalista Evaristo Magalhães, mineiro de Ipanema, radicado em Belo Horizonte, doutor em Psicanálise Clínica pela UFMG, lançou na Livraria Leitura, em BH, seu novo livro: "Reflexões para viver bem". Nele, questões que inquietam o homem contemporâneo se tornam objetos do texto, em que se confundem, em linguagem simples, o comentário, a crônica e o ensaio. O livro é um guia para uma interação mais saudável com o cotidiano e com as interrogações do mundo de hoje.

Eis o que escreve o psicanalista Evaristo Magalhães, por exemplo, sobre a felicidade:

"SOMOS INFELIZES PORQUE PROCURAMOS A FELICIDADE NO LUGAR ERRADO

O problema da vida é que nela tudo tem - no mínimo - dois lados. Algumas músicas são alegres e outras, tristes. Dificilmente, tudo o que comemos está como gostaríamos. Na vida, nada é pleno. Nada é cem por cento. Nada é constante ou regular. Nada é absoluto. Jamais saberemos se o bom de agora continuará depois. Por isso, começamos a sofrer antes mesmo da festa terminar. Não estamos seguros do amor de ninguém. A vida não é só felicidade. Os sentimentos são dúbios. Não controlamos de sermos tomados por uma emoção que não gostaríamos. Um dia cinzento pode afetar nosso humor. Um olhar pode nos deprimir. Um comentário pode nos deixar agressivos. Podemos enxergar tristeza em uma planta, na solidão de uma montanha ou na melancolia de uma estrela que partiu. Nunca estamos integralmente felizes. Começamos a envelhecer logo que nascemos. Cada minuto que passa é um a menos para a nossa vivacidade. Por isso, não deveríamos nos concentrar nessa vida esquisita e contraditória. Precisamos ocupar nossa mente com o que não é alegre nem triste, com o que nem ama e nem desama, com o que nem envelhece e nem rejuvenesce - porque é sempre o mesmo. Ou seja, existe - sim - um lugar sem sentimentos e que está depois de todos os sentimentos. É possível que acessemos este lugar sem palavra e que está depois de todas as palavras. O mundo não é só o desespero do trânsito, a correria, as guerras, as brigas políticas, a insensibilidade, o egoísmo, o medo do desemprego, o medo de perder a juventude e o medo de morrer. O mundo é muito mais que isso. Não deveríamos fixar nossa mente nisso que é pura inconstância. Precisamos transcender nosso intelecto para um pouco mais além. Existe - sim - um lugar onde as palavras e as tristezas findam. Nesse lugar, tudo é o mesmo o tempo todo: sem dubiedades e sem sentimentalidades. As coisas - simplesmente - são: sem dores, conflitos, medos e oposições. Não há - nesse lugar - antes e nem depois, longe ou perto, grande ou pequeno, quente ou frio, seco ou molhado. Esse lugar está para além de tudo o que achamos que somos. Ele é sempre o mesmo todas as vezes que o acessamos. Sua consistência é sem angústia, ansiedade, depressão, raiva ou melancolia. Nele cessam todas as nossas contrariedades. Ele está depois desse nosso cotidiano louco. Nele esvaziamos: nada pensamos, nada sentimos, nada escutamos e nada enxergamos. Nele, somos plenos, porque somos sem qualquer interferência.

Evaristo Magalhães - Psicanalista"

A partir de segunda-feira, 30, Evaristo Magalhães assina em Entretextos a coluna Psicanálise no cotidiano.