Roselany Duarte

 Ao se projetar uma maneira de dizer não se pode ignorar as conseqüências desse ato, pois tal atitude induz a uma construção de uma imagem que condiciona, em troca, a ação comunicativa. Através de influências mútuas, o discurso se manifesta numa perspectiva interacional. Os participantes dessa interação exercem poder um sobre os outros e é nesse jogo discursivo que eles mostram posições, ou melhor, papéis sociais que caracterizarão um caráter. A construção da imagem de si é um mostrar e tal imagem só é revelada através de processos inferenciais resgatados pela enunciação e pelo contexto.


 A partir da nossa enunciação, projetamos um auto-retrato no qual necessariamente imprimimos qualidades, ocasionando assim uma representação de nossa auto-imagem, pois modos de dizer produzem uma imagem daquele que enuncia. Desde os antigos gregos, esse auto-retrato discursivo, conhecido como ethos, caracteriza-se como “a construção de uma imagem de si destinada a garantir o sucesso do empreendimento oratório” (AMOSSY, 2005, p. 10).


O Ethos Aristotélico


Foi Aristóteles o primeiro sistematizado da arte de persuadir. Em sua Arte Retórica, o filósofo de Estagira demonstra, de forma categórica, conceitos e passos da arte de convencer pelo discurso cuja finalidade dá-se em aduzir provas, já que o objetivo maior da retórica não é apenas persuadir, mas diferenciar os instrumentos de convencer. Desta forma:

Sua tarefa não consiste em persuadir, mas em discernir os meios de persuadir a propósito de cada questão, como sucede com todas as demais artes. Assim, a medicina não tem por missão dar saúde ao doente, mas avançar o mais que lhe é possível na direção da cura (ARISTÓTELES, s.d., p. 31).

Como podemos observar, a arte retórica propõe-se a diagnosticar situações de discurso para adequá-lo ao seu objetivo maior, que é convencer, ou seja, ela pretende "ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão" (idem, ibidem, p. 33).
Um dos pontos fundamentais na arte de persuadir está na qualidade das provas empregadas pelo orador. Aristóteles (s.d.) observa que existem as provas dependentes e as independentes. As primeiras ocorrem através de testemunhas, confissões através de torturas ou por convenção escritas, ou seja, não dependem do orador. As provas que são tributárias do método e dos meios do orador são considerados dependentes.


 A respeito das provas dependentes, Aristóteles (s.d., p. 33) observa que “precisamos de as encontrar”. Entre as provas fornecidas pelo discurso, o filósofo destaca três espécies: as que residem no caráter moral do orador (ethos), as que dependem da disposição que se cria no ouvinte (pathos) e as que estão no próprio discurso, pelo que ele demonstra ou parece demonstrar (logos).


O que está em jogo na arte de convencer pelo discurso não é a verdade, mas os índices que provoquem os efeitos de verdade, levando os auditórios a sentirem uma paixão "porque os juízos que proferimos variam consoante experimentamos aflição ou alegrias, amizade ou ódio" (ARISTÓTELES, idem, p. 33).


Depreendemos, assim, que na arte de convencer temos três elementos de provas dependentes articulados pelo discurso, um centrado no orador, outro centrado no ouvidor e, por fim, um último centrado no próprio modo do discurso. Tais provas são, respectivamente, o ethos, o pathos e o logos.


O ethos aristotélico relaciona-se com o caráter de honestidade que o orador do discurso mostrará para parecer digno de credibilidade perante os interlocutores. Em algumas passagens da Arte Retórica, ethos também evoca hábitos, modos e costumes. Longe de serem termos excludentes, tais campos semânticos são elementos fundamentais na arte de convencer, já que o ser e o parecer são elementos argumentativos na persuasão. Como afirma Barthes (apud AMOSSY, 2005, p. 70), ethos "são traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão”.


O Ethos na Perspectiva Discursiva


 Foi Oswald Ducrot (1987) o primeiro a introduzir a categoria do ethos na enunciação. Quando distingue o locutor enquanto tal do locutor enquanto ser do mundo, Ducrot está mostrando as potencialidades de representação do discurso. Apesar disso, este não se valeu do termo ethos.


 Foi Dominique Maingueneau quem resgatou o termo aristotélico em questão e deu-lhe uma roupagem adequada, ou melhor, uma voz e uma corporalidade para melhor apresentar-se na cena enunciativa.


O ethos discursivo é a construção da imagem de si refletida no discurso. Como ressaltamos que esta imagem está contida na enunciação, convém atentar que, antes de o enunciador proferir seu discurso, o auditório constrói representações do seu ethos antes mesmo dele se pronunciar. A esta segunda categoria, Amossy (2005) denomina de ethos prévio.


Ao enunciar, o orador construi sua imagem em função da imagem que ele cria do seu auditório; para que isso ocorra, é necessário o orador se indexar de representações sociais valorizadas pelos seus interlocutores. O ethos prévio ou pré-discursivo é esse espelhamento de imagens com base na história pregressa, no caráter e nos costumes do orador que, contrabalanceados, vão ocasionando um efeito de sentido no discurso, possibilitando assim a autoridade do orador.
Para se conceber o ethos prévio, é imprescindível o estereótipo. Ao enunciar de um lugar constituído de valores socialmente impostos, modelos de representação coletiva são cristalizados, ocasionando a estereotipia. O estereótipo é criação da doxa e tributário da história pregressa do indivíduo e do seu status social.


Maingueneau (2002, p. 95) assevera que “toda fala procede de um enunciado encarnado; mesmo quando escrito, o texto é sustentado por uma voz – a de um sujeito para além texto”. Ao “encarnar” uma voz que dará sustentáculo ao texto / discurso, o enunciador, independente da veracidade do que diz, mostra uma atitude, uma performance, já que, independente de ser verdade ou não, o sujeito da enunciação deverá convencer o ouvinte através da autoridade demonstrada no caráter performático.


Enfatizando a pertinência do conceito de ethos na compreensão do discurso midiático, Pinto (2006) observa que as produções verbais da mídia organizam-se de modo a produzir uma áurea de seriedade (“bom caráter, bom senso e boas intenções”), o que remete ao ethos, e a cooptar o leitor pela emoção mais do que pela razão, o que remete ao pathos.


O ethos, o mostrar-se, o vender a aparência com o valor de essência é um jogo discursivo que, além das abstrações das idéias (ou mesmo das ideologias), necessita de um corpo, físico ou imaginário, instrumento que obedecerá às ordens enunciativas. Para Maingueneau (2002), a fala do enunciador é incorporada e a maneira de dizer atesta, de algum forma, a legitimidade do que é dito, conferindo autoridade ao enunciador. O ethos é, além da circunstância dimensional da voz, as determinações físicas e psíquicas que são essenciais para a construção ética da imagem do enunciador.


 Assim, é constitutivo do ethos “o policiamento tácito do corpo, uma maneira de habitar o espaço social (...) Constitui-se através de um conjunto de representações sociais do corpo ativo em múltiplos domínios” (MAINGUENEAU, 2001, p. 139).O policiamento tácito diz respeito a não deixar que as atitudes espontâneas, em dadas circunstâncias revelem e contradigam a fala no espaço do jogo discursivo; já as representações sociais constituem a imagem do enunciador que é produzida coletivamente pela fala de um grupo ou comunidade, ou seja, o estereótipo.


O corpo que se mostra e a voz que enuncia encontram-se, nas circunstâncias discursivas, num embate reflexivo. A aceitação ou não da enunciação depende indubitavelmente destes dois elementos. É na identificação dos ouvintes com os valores construídos pelo discurso e pelo corpo investido de valores que a palavra se torna poder. Longe de ser um objeto de contemplação – pois contemplar implica um distanciamento para observar, admirar de forma mais veemente – o texto é uma relação interativa em que sujeitos são afetados e impelidos a responder, num embate dialógico (BAKHTIN, 1981).


Já que o ethos é um mostrar-se através de uma voz, como podemos identificá-lo em textos escritos, já que a vista isola a imagem e o som a incorpora? Maingueneau (2002) procura resolver esta problemática argumentando que as produções escritas remetem a uma vocalidade fundamental.

O texto está sempre relacionado a alguém, uma origem enunciativa, uma voz que atesta o que é dito. Levar em conta o ethos de uma obra não implica que se volte aos pressupostos da retórica antiga, que se considere o escrito como o vestígio, o pálido reflexo de uma oralidade primeira. Trata-se de levar em consideração a maneira como a cenografia gere sua vocalidade, sua relação inelutável com a voz (MAINGUENEAU, 2001, p. 139)

  O lugar enunciativo que atesta o ethos é a cenografia. “É a enunciação que, ao se desenvolver, esforça-se para construir progressivamente o seu próprio dispositivo de fala” (MAINGUENEAU, 2002, p. 87). A imagem construída mentalmente pelo enunciatário através discurso do enunciador necessita de um local estereotipado que o identifique e dê mais validade e legitimidade ao discurso.


O ethos do texto escrito é identificado através das manifestações diversas dos tons, que são a representação dos enunciados que o interlocutor, a partir de índices fornecidos pelo texto, constrói através de marcas, traços e pistas deixados no enunciado.


 Assim como na música o instrumentista vai amalgamado notas musicais e a melodia construída imprime no ouvinte sensações diversas de paz, alegria, movimento, tristeza, angústia; o tom discursivo textual que constitui o ethos nos possibilita construir no imaginário características psicossociais que ocasionarão juízos estéticos e de valores de um ser real ou imaginário. “A leitura faz emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador do que é dito” (MAINGUENEAU, 2002, p. 98). Nesta perspectiva,

O  leitor constrói a figura do fiador a partir de índices textuais de diversas ordens e para isto é necessário um caráter e uma corporalidade. O primeiro são traços psicológicos, já o segundo corresponde a uma compleição corporal à maneira de se vestir e de se movimentar no espaço social (MAINGUENEAU, 2002, p. 98).

O fiador é a representação do caráter e da corporalidade de quem constrói o discurso, ou seja, é a representação social e a performance do orador, os índices de construção de imagem pelo interlocutor. É ele quem paga os débitos do enunciado supostamente verídico. Ao abordar os índices textuais de diversas ordens, não podemos esquecer as posições estéticas e os gêneros literários que modelam o ethos. Assim, através da escolha do léxico, das adjetivações, nominalizações, dos verbos, da pontuação e das construções sintáticas, o estilo do enunciador vai revelando aspectos do comportamento e da disponibilidade corporal. O estilo do enunciador mostra-o sem dizer. Por conseguinte, não se pode separar o ethos e o código de linguagem próprio a uma posição que se ocupa na ordem do discurso.


BIBLIOGRAFIA

AMOSSY, R. (org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005.

ARISTÓTELES. Arte poética e arte retórica. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d.

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1981.

DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.

MAINGUENEAU, D. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

________ . Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Unicamp & Pontes, 1997.

________. O contexto da obra literária. São Paulo: Martins Fontes: 2001.

________. Análise de textos de comunicação. 2 ed. Campinas: Cortez, 2002.

________. “Ethos, cenografia, incorporação”. In: AMOSSY, R. (org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005.

PINTO, M. J. “Retórica e análise de discursos”. In: Fronteiras – estudos midiáticos, vol. II, 1,São Leopoldo: UNISINOS, 2001.

________. Os mundos da mídia. João Pessoa – PB: UFPB, 2006.

REBOUL, O. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 

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