Por Dílson Lages Monteiro - editor de Entre-textos

A lembrança é o que fica adiante dos olhos suspensos. O tempo único de agora-porvir. O tempo da tarde na casinha de palha. O tempo na rede de tucum. O tempo dos animais no sono da letargia. O tempo na velocidade sem pressa. O tempo de sentir o instante único da contemplação. O tempo das matas e dos sonhos, adiante dos olhos suspensos, a lembrança (pre)sente.

Parto ilhado em labirintos
e lado a lado me elevo
partilhado de confis(sões).

O peito em voltas
volta o alto vôo
volta lado a lado
no ventre da contramão.

Esse sentido das palavras sentidas
antes dos tons e feições
os sons antes da forma primeira da letra.

Esse sentido da tarde em partículas
como os braços da rede em seus abraços
abre as brechas do chão
esse sentido na casinha sem parede.

Abre-se o carrossel de cores e de céu
abre-se e flutua
tua fazenda de argila e de sonho
tua ante-visão de morros e florestas.

Flores por estas
se fores assim como eu
me confundo e fundo
o fervilhar de m(eus)
diálogos de pedras.

Na incompleta essência a infância se parte
Parte a sílaba na música da casa do avô:
a estrada de areia o balé dos anuns
e a noite sem fim no mugido do gado.

Parte a arte e o ar da tarde
este sol de sal e saudade
dor e gelo na ponta da língua:
parte o por da tarde em particulas.

 

>