[Dílson Lages Monteiro – da Academia Piauiense de Letras]

Como se revela o poema para crianças? Dada a natureza do gênero, independente de marcas temporais, torna-se inseparável a associação entre a literatura infantil e a transmissão de valores. Entretanto, essa condição deve tornar-se, para que aflore a função estética dessa manifestação comunicativa, segunda natureza, e somente realizada de maneira implícita, no plano conceitual, a partir das associações desencadeadas pela dimensão lúdica da linguagem.

No caso particular do poema, essa dimensão ganha lugar especial, porque a tessitura do gênero já é, em essência, um jogo: ritmo-imagem determinam a construção do texto e sua dimensão estética evidente. É o que se verifica em “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles. Em todos os poemas, as relações decorrentes de imagens sonoras ou semânticas vão espontaneamente “agarrando” pelo braço e pelo coração a criança leitora e integrando-a ao plano que é o da imaginação, como no poema Colar de Carolina:

 

Com seu colar de coral,

Carolina

corre por entre as colunas

da colina.

 

O colar de Carolina

colore o colo de cal,

torna corada a menina.

 

E o sol, vendo aquela cor

do colar de Carolina,

põe coroas de coral

 

nas colunas da colina

 

Nesse poema, a imagem do colar da menina transfere-se para a luz do sol e para outros desdobramentos nas serras. O encantamento é igualmente alcançado pela combinação sonora que indica alegria (com o predomínio de consoantes abertas) ou movimento (demonstrado, a saber, no som /r/). É essa percepção que torna o texto atraente e fisga a criança para o mar de palavras, sonhos, imagens.

Há uma representação de infância em “Ou isto ou aquilo”  que expressa claramente o que é ser criança no século XX. Nesse recorte temporal, a boa poesia para crianças retira de cena a focalização no papel moralizante; entra no palco a dimensão lúdica. Em “Ou Isto ou  Aquilo”, de Cecília Meireles, toda a obra, centraliza-se na valorização do ato de se divertir. Ser criança é, pois, brincar. Brincadeiras que não se limitam a objetos infantis, pelo contrário: estão vivas na percepção do mundo e em atividades como correr, sujar-se, ouvir ruídos, dançar, observar os movimentos da natureza e todos os seus sons e cores, enfim, interagir por meio de tudo o que pertence ao mundo do sonho e da fantasia. Cecília Meireles, nessa obra, incorpora o mundo da fantasia das crianças em ritmos e imagens genuinamente capazes de inserir o infante como leitor de si mesmo.

Assim, a obra é um belo exemplo de eficiente adaptação  para crianças. Assunto, forma, estilo e meio, adequados a acolher o interesse do leitor. Quanto ao tratamento dado ao assunto, os conhecimentos prévios requeridos da criança para a leitura dos poemas, diga-se de passagem, além de se centralizarem no ato de brincar, que se desdobra no exercício dos sentidos subjacentes em cada poema, tornam natural o processo de leitura, porque a consciência poética da autora explora com propriedade a dimensão sonora e imagética da escritura poética. São poemas feitos para serem, de fato, sentidos a partir dos significados que os jogos sonoro-semânticos geram. A literariedade, que poderia ser interpretada como obstáculo para ler, acaba sendo, desse modo, um elemento que atrai o interesse da criança.

Ler acaba sendo também uma brincadeira. Lendo se enxerga colares em montanhas, os sons e cheiros do mar, anda-se a cavalo, joga-se bola sem restrições de gênero, brinca-se com borboletas e girassóis no jardim, vê-se carneirinhos no céu, acompanha-se as acrobacias do mosquito no ar, sonha-se com a lua e os significados da noite, vive-se a amizade verdadeira, entende-se o que é ser velho, ri-se das melodias da língua, sente-se o cotidiano: o temporal, as flores e tudo que é vida pulsante em torno de toda criança observadora.

Cecília Meireles também se mostra habilidosa na adaptação da forma para a compreensão das crianças. Como dito já anteriormente, a valorização de assonâncias e aliterações concede um sentido especial aos poemas, pondo a percepção em primeiro plano na leitura. Cabe ao leitor absorver, sob orientação do mediador, a concepção segundo a qual poema não existe para explicar, mas para alcançar a dimensão estética que reside, a partir da leitura do ritmo e da imagem, em questionamentos existenciais, em intertextos, no humor e na própria brincadeira que é perceber a polissemia da linguagem literária. Um jogo como outro qualquer. Descobrir isso é encantador.

A habilidade de Cecília Meireles é perceptível, ainda, na adaptação do estilo e do meio. Sobre aquele, cabe afirmar que a linguagem é simples, com períodos curtos, léxico totalmente acessível à criança. Ressalte-se que mesmo a grande utilização dos tropos não se constitui em obstáculo ao ato de compreender e interpretar. Há que se considerar, porém, que a leitura do poema requer a intermediação do adulto, a fim de que a criança perceba que o poema se trata de um texto a ser lido a partir das sugestões que a natureza polissêmica das palavras traz em si. 

Sobre a adaptação do meio, por fim, observa-se que a leitura das imagens não se sobrepõe ao texto verbal; também não adquire papel decorativo. Dialogam o verbal e o não verbal, garantindo que a criança adentre ao poema com maior espontaneidade. Em Ou isto ou aquilo, a voz lírica não sabe se brinca, não sabe se estuda, se sai correndo ou se fica tranquila; enfim, a inquietação pulsante e vigorosa do ato de brincar e de perceber o mundo se expressa no labor das imagens funcionando como primeiro índice para ler o  verbal, de tal modo que remete a palavra escrita a novos significados, seja impresso no próprio vocábulo, seja na imagem propriamente dita. Assim, confundem-se o verbal e o não verbal, tornando-se uma única natureza, um único símbolo, capaz de medir com exatidão o lugar da criança no mundo e capturá-la à  leitura de si e de suas percepções filosófico-existenciais, que estão na própria essência do ato de ler poesia.