Por José Expedito de Carvalho Rêgo

Conheci velho ferreiro português, Mestre Orlando Peixe, com fama de burro. Nem tanto assim. Tinha habilidade com o martelo e a bigorna, fazia bonitas grades e utensílios de ferro.


Seu grande amigo, o Sr. José de Abreu, era dono de bar, jantava sempre com o ferreiro. Se José de Abreu não chegasse na hora, achava o prato feito. Não admitia impontualidade.


Uma noite, José de Abreu encontrou Mestre Orlando, no quintal, fazendo uma casinha de cachorros. O improvisado canil tinha duas portas, uma baixa, outra mais alta. Não havia divisões interiores. José de Abreu perguntou: - “Mestre, por que duas portas?”


- Ora, senhor José de Abreu, uma porta grande para o cachorro maior e uma porta pequena para o cachorro menor.


- Bastava, então, a porta grande, Mestre.


- Não, senhor! E por onde passaria o cachorro pequeno?


Era assim Mestre Orlando. Uma noite de 31 de dezembro, estava ele a tomar uma cervejinha gelada, no  bar do José de Abreu. O amigo veio cumprimentá-lo: - “Feliz Ano Novo, Mestre Orlando!”


- Ano Novo, não! Ano Velho.


- Como assim, Mestre?


- Ora, se o senhor tem 68 anos e eu 69, quem é o mais velho?


- O Senhor!


- Então? O ano de 69 é mais velho do que o de 68. Assim, o ano que vai chegar é o ano velho, pois não?


                        Será que Mestre Orlando tinha razão? O tempo não existe, é pura convenção. Não passa o tempo, nós é que passamos. Nada muda, tudo é sempre o mesmo. Cumprimentamos nossos  amigos e parentes pela passagem do ano, desejamos saúde e felicidade para todos, mas tudo não passa de esperança vã.


                         Continuaremos no mesmo ramerrão de todo o sempre, falando mal do governo, queixando-nos da carestia da vida e da falta de dinheiro. Alguns poucos felizardos permanecerão bem de vida, independentemente da mudança de ano.
O tempo só mudou mesmo para Mestre Orlando e o Sr. José de Abreu, que já descansam em paz, estão livres de aperreios.          

 

Síntese Biográfica (colaboração de Joca Oeiras - O Anjo Andarilho)

                        José Expedito de Carvalho Rêgo nasceu na madrugada de 1º de junho de 1928, numa casa da Rua do Fogo, em Oeiras. Filho de Assuero César Rêgo e Carmen de Carvalho Reis.

                        Cursou o primário em sua terra natal no Grupo Escolar “Costa Alvarenga”. Concluiu o ginásio e o científico em Salvador. Formado em medicina, pela Universidade Federal da Bahia, a 16 de dezembro de 1953. Exerceu a profissão de médico, em Oeiras, de 1954 a 1977. Desde então passou a residir em Floriano, onde faleceu em 31 de março de 2000.

Em 1971, ainda em Oeiras, com a ajuda de Possidônio Queiroz e Costa Machado, criou o jornal O Cometa, que circulou, mensalmente, até 1976.

A partir de 1977, colaborou no Jornal de Floriano, escrevendo crônicas, semanalmente, durante cerca de dez anos, versando quase todas sobre assuntos de medicina.

Em 1981, publicou seu primeiro livro, Né de Sousa, biografia romanceada do Visconde da Parnaíba. Esse livro teve uma segunda edição, sob o título de Vaqueiro e Visconde. Em 1990 lançou Malhadinha, talvez sua melhor obra. Vidas  em Contraste, veio em 1992 e ganhou o prêmio Wady Moisés Said, para o melhor romance do ano, patrocinado pela Academia Piauiense de Letras e Loja Maçônica “Raul Serrano”. Estórias do Tempo Antigo é um pequeno livro de contos de 1995. Deste mesmo ano foi editado seu quarto romance Os Caminhos da Loucura.

Sócio fundador e membro da primeira diretoria do Instituto Histórico de Oeiras (1972). No dia 05 de março de 1993, tomou posse na cadeira nº 2 da Academia Piauiense de Letras.

 

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