[Andreia Donadon Leal]

Perguntaram-me o que era uma crônica. Disse aos ouvintes que crônica deriva do latim chronica, e que poderia significar tempo, ou seja, o relato de acontecimentos em sua ordem cronológica. Alberto Martinez atribuiu a crônica uma origem no jornalismo da França, Espanha e Itália, semelhante, mas sem correspondentes precisos no jornalismo alemão, inglês e norte-americano. Por exemplo, na Itália, a crônica era mais voltada para a reportagem, na França oscilava entre reportagem setorial e colunismo, na Espanha, combinava notícia e comentário, em Portugal ficava entre o ensaio e o folhetim. Perguntaram-me quando surgiu precisamente a primeira crônica, disse-lhes que o gênero narrativo era tão antigo quanto a invenção da Literatura. A crônica histórica, por exemplo, é o relato da vida dos soberanos, dos eventos e suas respectivas guerras. Se imaginarmos que a crônica é tão antiga quanto a invenção da Literatura, aqui no Brasil, teremos o cronista Pero Vaz de Caminha que acompanhou a expedição portuguesa que chegou ao Brasil e tornou-se o primeiro cronista em nossa terra. Vejam vestígios cronísticos nesta carta enviada ao Rei: “a pele deles é parda e um pouco avermelhada. Têm rostos e narizes bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas mais do se que preocupariam em mostrar o rosto. E a esse respeito são bastante inocentes. Ambos traziam o lábio inferior furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa! Esta terra, Senhor, parece-me que, de ponta mais ao Sul até a outra ponta ao Norte, do que nós pudemos observar deste porto, é tão grande que deve ter bem ou vinte e cinco léguas de costa. Ao longo do mar, têm, em algumas partes, grandes barreiras, uma vermelha e outras brancas; e a terra é toda chão e muito formosa. O Sertão nos pareceu, visto do mar, muito grande; porque a estender os olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos – terra que nos parecia muito extensa”... 

Ora, estimados estudantes, isto ainda não é arte literária! Pelo menos para a Academia consagrar este gênero como Literatura. O ofício do cronista será uma voz embrionária, das nossas Letras e vai ocupar um lugar de destaque somente a partir de meados do século XIX da Literatura Brasileira. A Crônica acompanharia o ritmo alucinante de palavras voadoras, solidárias ao registro factual e aos voos imaginários; crônica flagraria memórias do dia-a-dia; crônica iria da piada às inquietações metafísicas; crônica falaria sobre os apelos da alma com a ironia mordaz; crônica faria denúncias sociais e contemplações introspectivas; das confissões poéticas ao comentário chulo; do humor à compaixão. As relações entre o jornal e a crônica apresentam-se como uma das características fundamentais da atividade literária. A crônica é fruto do jornal, onde aparece entre notícias efêmeras. Trata-se de um gênero literário que se caracteriza por estar perto do dia-a-dia, seja nos temas, ligados à vida cotidiana, seja na linguagem despojada e coloquial no jornalismo. Mais do que isso, surge inesperadamente como um instante de pausa para o leitor fatigado com a frieza da objetividade jornalística. “Se a notícia deve ser sempre objetiva e impessoal, a crônica deve ser precisa e enxuta, a crônica é impressionista e lírica. Se o jornalista deve ser metódico e claro, o cronista costuma escrever pelo método da conversa fiada, do assunto-puxa-assunto (DRUMMOND, 1999,p. 13) 

Com as penas missionárias do Padre Manuel da Nóbrega do ou Padre José de Anchieta a crônica veio pelas veredas de sensível e puríssima comunicação, desde os tempos que já lá vão. A crônica se firma nas décadas de 1930 e 1950 de forma única e originalíssima no Brasil, acolhendo o que as vanguardas ofereciam de melhor nos idos de 22. Dessa forma, a crônica surge no jornalismo brasileiro como folhetim, no século XIX. Nomes ilustres foram pouco a pouco transformando o folhetim, transformando-o na crônica moderna. Para tanto contribuíram Francisco Otaviano, José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Raul Pompéia, Coelho Neto, João do Rio e outros. O perfil nacional da crônica firmou-se em 1930, com nomes como o de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga, que, de certo modo, seria o cronista exclusivo desse gênero.

A partir desta época o desenvolvimento da impressa assume proporções comerciais, conduzindo a uma diversificação do seu conteúdo e à ampliação das seções permanentes, para atender um público leitor mais exigente. Nesse caso a crônica adquire um lugar especial, sendo o cronista o intérprete das mudanças que ocorrem na sociedade. Machado de Assis junto com José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, fez parte do primeiro time de “cães farejadores do cotidiano” – numa expressão feliz de Antonio Candido para registrar a avidez pela “reportagem da vida” que progressivamente vai se tornar na nossa tradição literária um encontro único entre literatura e jornalismo, gênero que os escritores brasileiros dominam como poucos. No entanto, quem deu personalidade à crônica no Brasil foi Machado de Assis. Sobre a origem da crônica, por seu caráter de prosa, colóquio, confissão, comunicação imediata, graça, sentido telegráfico, urgência, trivialidade e até mesmo brincadeira ainda que o tema solicite o tom seriedade disse Machado de Assis “não dá para precisar quando surgiu a crônica, mas é muito provável que a crônica aconteceu pela primeira vez quando as duas primeiras vizinhas, depois das tarefas do jantar, se sentaram na porta de casa para papear”... Mesmo assim, a crônica como gênero literário só vai aparecer em 1854, no Brasil, com José de Alencar escrevendo para o Jornal Correio Mercantil o folhetim “Ao correr da pena”, título sugerido para ilustrar a leveza e o tom corriqueiro da matéria. 

A caracterização da crônica pode ser vista assim: crônica lírica (que apresenta conteúdo lírico), crônica comentário (que divulga fatos, tecendo sobre eles comentários ligeiros), crônica narrativa (que tem por eixo uma história ou episódio), crônica descritiva (alterna momentos com flagrantes descritivos, temos uma abordagem narrativo-descritiva), crônica reflexiva (a interioridade do autor se projeta sobre a realidade, registrando inferência, conjecturas e associações de ideias).

E para continuar a falar sobre a crônica apresento algumas características dela produzida no século XX. Mas antes no momento marcante na história da crônica brasileira; o Modernismo, cujo o início é demarcado cronologicamente pelo advento da Semana da Arte Moderna de 1922, as crônicas eram voltadas para as miudezas do cotidiano, incorporação de elementos ligados à linguagem coloquial na busca de uma arte mais próxima do povo, fraturas expostas da vida social, ridículo de cada dia, a poesia mais alta que ela chega a alcançar; linguagem livre, solta, natural, inspiração regional e popular. A crônica dessa épica pode ser entendida, portanto, como amostra do percurso do movimento modernista brasileiro.

Machado de Assis comenta que, no século XX, ela também, ganha dimensão autoral, permanecendo no tempo. Por essa razão, deve-se reconhecer, por exemplo, que crônicas escritas há mais de cem anos por um cidadão chamado Machado de Assis estão hoje vivas como naquele tempo. Os acontecimentos perderam a atualidade, mas a crônica não perdeu, porque ela traduz uma visão tão sutil, tão maliciosa, tão viva da realidade, que o acontecimento fica valendo pela interpretação que Machado de Assis deu para ela (DRUMMOND, p. 13)

E para terminar minha breve crônica cito Affonso Romano de Sant’Anna que diz “que há vários tipos que crônicas. A que visa suavizar é um dos tipos. Era assim no passado. Machado dizia que o cronista era um beija-flor”... Quem está mais autorizado a meter o bico nas flores alheias?