Por Gabriel Perissé

Contou-me uma professora que certa aluna sua recusava-se a separar os dígrafos RR e SS. Embora com autorização expressa da gramática, a menina queria as duas letras juntas. A professora só entendeu mais tarde, quando descobriu que os pais da aluna estavam separados e “separação” tornara-se palavra cruel demais.

 

Os educadores envolvidos com o cotidiano das salas de aula, e não apenas com as estatísticas (que têm sua função, mas jamais dizem tudo), experimentam na carne os reflexos incontestáveis da vida familiar no desempenho escolar dessas crianças e jovens, no seu comportamento, na sua timidez ou expansividade, na sua agressividade ou tranqüilidade. 
 

Não idealizemos a família. Idealizá-la é uma tentação (no fundo compreensível) quando pensamos na importância que desempenha no desenvolvimento psicológico e moral do indivíduo. Neste ponto, contudo, como em muitos outros, os poetas acabam sendo mais realistas (porque aceitam o que há de ambivalente na realidade) do que os filósofos e sociólogos mais perspicazes. 
 

Lembro as palavras de Paul Valéry lá pela década de 30 do século passado: “Cada família expele uma secreção, esse aborrecimento interior e específico que faz os seus membros, enquanto ainda têm vida, fugirem dela quanto antes. Mas a família possui também uma antiga e poderosa virtude que reside na comunhão de todos em torno da refeição à noite, e no sentimento de cada um poder ser, diante dos demais, aquilo que de fato é, sem fingimentos”. 
 

Todas as famílias terão suas contradições. O que preocupa, no entanto, é a família desarticulada, mesmo que aparentemente unida. Há escolas que começam a ter medo de comemorar o Dia dos Pais ou mesmo das Mães... porque pais ou mães vivem tão ocupados que mal podem participar de um encontro com seus filhos nesses momentos. Mães e pais mergulhados na vida profissional delegam às babás, aos instrutores, aos docentes, aos avós responsabilidades básicas que somente os pais nasceram capacitados para assumir. 
 

Tarefa fundamental dos pais: dar tempo aos filhos. Falar com eles. Ainda que os filhos reclamem dos “sermões” maternos e paternos, são essas palavras as que ficam, em forma de lembrança, ensinamentos profundos, âncoras para quando vierem as tempestades. 
 

A falta de tempo para conviver em família faz da família uma farsa entediante, e da educação familiar perigosa ilusão. Não basta coincidir algumas horas sob o mesmo teto. 
 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor - Web Site: www.perisse.com.br

                                                            

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