[José Castello]
 
Nascido no coração do século 18 e quase desconhecido no Brasil, o pensador Joseph Joubert, que foi secretário de François René Chateaubriand, o grande diplomata e intelectual francês, celebrizou-se como um grande autor de aforismos. Neles, a dispersão e a pluralidade se levantam como um antídoto poderoso contra a arrogância do desfecho e do pensamento final. Ao contrário, argumenta, o pensamento odeia as conclusões últimas, as percebe como uma amputação. "Toda loucura se deve a um excesso de rigor, de tensão e de atenção exclusiva", escreveu. Para Joubert, "os poetas, buscando a beleza, encontraram mais verdades que os filósofos que buscam a verdade". Texto publicado no mensário "Rascunho", de Rogério Pereira", em março de 2016.
 
As mentes inchadas
 
 
Estou, mais uma vez, a reler os “Pensamentos” do francês Joseph Joubert. Algumas idéias aderem a nosso espírito e não desgrudam. Assim é meu caso pessoal com Joubert: sou seu prisioneiro. Mas quem foi ele afinal? Nascido no coração do século 18, Joseph Joubert foi amigo de Diderot, e também de Chateaubriand, de quem chegou a se tornar secretário. Faleceu em 1824, em Paris, aos setenta anos. Moralista e ensaísta, é quase completamente desconhecido no Brasil. Leio e releio seus pensamentos na edição espanhola da Edhasa, de 1995, livro organizado por Carlos Pujol.
 
Não é preciso uma ordem, já que Joubert pensa e escreve por aforismos – isto é, por raciocínios compactos e dispersos, expressos em poucas palavras. Verdadeiras flechadas. Desde logo, seu poder de síntese me fascina. Abro ao acaso o livro organizado por Pujol. Esbarro em uma primeira frase: “Há muitíssimas coisas que só se fazem bem quando se fazem por necessidade”. O filósofo fala de mim – ou pelo menos é o que sinto. É o que sentimos quando lemos escritores que nos desafiam. Uma necessidade secreta me leva a voltar a seus pensamentos. 
 
Algumas linhas à frente, outra idéia completa a primeira: “A idade. O espírito não se apaga, mas há que alimentar esse fogo com outra lenha”. Chego, esse mês, aos 65 anos de idade. Preciso de novos alimentos. Estranho: cada vez que releio Joubert, tenho o sentimento de que o leio pela primeira vez. Na verdade, leio sim. O que li ontem não é mais o que leio agora. Sua escrita me provoca muitos sustos. Ela me desloca e esbofeteia.
 
Diz Joubert: “A filosofia dos antigos. Prefiro suas nuvens a nossos seixos”. O pensamento contemporâneo parece, de fato, atulhado de cascalhos. Freqüentar a internet, por exemplo, é muito atraente e divertido, mas é também dispersivo. Seixos são fragmentos de rocha, pedras toscas que, em vez de nos reforçar, nos ferem. Restam cicatrizes, que lemos com dificuldade. Na grande rede, a fragmentação, em vez de nos elevar, nos arranha, sem chegar, no entanto, a rasgar nosso sangue. Melhor a elevação dos antigos, que nos leva a tomar distância de nós mesmos. E a nos olhar com vigor, mas também com piedade. Mas é preciso ter cuidado com as conclusões. Alerta Joubert: “O orgulho é o cúmulo da ignorância”. Não acreditar demais em si.
 
Em Joseph Joubert, a dispersão é um antídoto contra a arrogância do desfecho. Ele escreve por impulsos, assim como pensamos por impulsos também. O pensamento odeia as conclusões últimas, porque as percebe como uma amputação. Devemos nos dispersar para nos salvar. Alerta: “Toda loucura se deve a um excesso de rigor, de tensão e de atenção exclusiva”. O melhor pensamento, o mais fértil, é aquele que surge da divagação. E, assim, se liberta da loucura da precisão. “Os poetas, buscando a beleza, encontram mais verdades que os filósofos que buscam a verdade”, diz. Mas a dispersão é diferente da fragmentação – aquela que fere e afasta. No mundo virtual, pisamos em cacos de vidros. Lendo Joubert, em um tapete de plumas.
 
É preciso, contudo, não ser arrogante e reconhecer que mesmo a imaginação tem sua origem em nossas limitações. “O medo nutre a imaginação”, ele escreve. É de algumas de nossas piores coisas, de nossos mais brutais defeitos que, enfim, arrancamos a beleza. A arrogância – que crê que o bom só procede do bom – é, na verdade, um obstáculo. Precisamos aceitar o que temos de pior para chegar a um pouco do que temos de melhor. Lembro aqui de um pensamento de Fernando Pessoa, que capturo em “O eu profundo”. Diz assim: “A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito”, Pessoa escreve. Também Clarice não se cansou de nos dizer que a verdade é sempre implícita e, na maior parte das vezes, inalcançável. Resta-nos evocá-la. Roçar de leve em sua face áspera. E ficar com isso.
 
É por isso também que Joubert faz a defesa do silêncio _ o que é muito útil em nossos tempos de zoeira e dispersão. Escreve: “O silêncio. Delícias do silêncio. Os pensamentos hão de nascer da alma, e as palavras do silêncio. Um silêncio atento”. Os meninos que esbofeteiam imagens nas lan houses navegam em um turbilhão. Não conseguem ficar quietos, não podem silenciar. A máquina devora seus corações. Quantos deles podem, de fato, permanecer quietos? O silêncio – a solidão – lhes é insuportável. Contudo, e ainda que pareça um paradoxo, é do silêncio que as palavras, enfim, surgem. Imperfeitas. Insuficientes. Cheias de defeitos, mas também de emoção. Sempre me surpreendo com esses meninos que hoje, além da fast food das cadeias internacionais, se empanturram de imagens coloridas. Encontro um comentário de Joubert que talvez lhes caiba: “Mentes esfregadas pelo fósforo e que parecem luminosas. E, no entanto, brilham, mas não iluminam”.
 
A dispersão no pensamento de Joubert, em vez de levar a um cenário estilhaçado, promove uma espécie de flutuação. Um recolhimento – como o do menino que, armado só com uma lanterna, se esconde sob os lençóis para ler o “Robinson Crusoe”. Eu mesmo fiz isso aos onze anos de idade, e a experiência da caverna marcou minha vida. Já tentei escrever um livro sobre ela, mas as palavras não expressam o que vivi, e desisti. Talvez meu problema tenha sido exatamente esse: ter me deixado guiar pelo ideal da precisão. As palavras, por melhor que as definam os dicionários, desconhecem o rigor absoluto. São ambíguas, vivem de metáforas e de alusões. São insuficientes. 

Não é fácil, sequer, escutar a nós mesmos. Volto a Joubert: “A alma fala consigo mesmo em parábolas”. Fala de modo indireto, evoca mais do que fala. Trata-se de uma fala que nem sempre podemos traduzir, podemos talvez apenas sentir. Infelizmente, vivemos o século do estilo oficial, da linguagem padronizada, do culto ao correto. Nesse sistema de rigidez, as alusões nos escapam, e com elas o espírito individual também. Anota Joubert: “Maneira, de mania. Se é involuntária, é um tic. Se é natural, nós a chamamos de originalidade. Se é deliberada, estudada, é jargão, charlatanismo”. Só a volta ao pessoal e ao que é natural abre caminho para uma chegada a si. No ano de 1805, em pleno alvorecer do século 19, Joubert escreve ainda: “Muita inchação nas mentes e muita magreza no estilo: uma das características desse século”. De que século ele realmente fala?