"La vida, a la hora de destrozarnos, tiene la terca

paciencia de la marea.”

Enrique Vila-Matas

 

 

Quando todos pensavam que o Boom da literatura hispano-americana, amparado pelo realismo fantástico, teria chegado ao ápice através da consagração de autores como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa, e, conseqüentemente, que esta riqueza literária contornaria sua rota em direção ao declínio, surgiu um escritor chileno, que morreria precocemente aos 50 anos de idade, ganhador dos prestigiados prêmios Herralde e Rómulo Gallegos, que deixaria uma obra decisiva para a ficção do século XXI: Roberto Bolaño (1953-2003).

 

Seus livros são marcados pela consciência de que o mote do que se escreve serve apenas como instrumento mediador para que se possa encontrar o não aparente. O tudo e o nada formam um amálgama constante nas narrativas do autor de Estrela Distante (1996), Detetives Selvagens (1998), Noturno do Chile (2000), Putas Assassinas (2001) e 2666 (2004), para citarmos aqui algumas das suas obras mais conhecidas. A constante relação entre poesia e conflagração, o cenário violento, a ditadura em seu país de origem, o exílio, o amor pelos livros, a paixão por sua geração, a ironia e a tragédia da guerra urbana e social, a princípio, podem parecer elementos utilizados sem métodos adequados para formar a tessitura de cada história. O autor faz uso do “falso fim” para envolver o leitor na trama de cada uma de suas novelas. Trata-se de uma caçada a si mesmo, já que a memória nunca vem com a mesma amplitude e com a mesma nitidez com que se forma em nossas mentes.

 

Bolaño viveu toda a sua vida com sérias dificuldades de ordem material: foi preso pelo regime opressor de Pinochet, refugiou-se no México, vegetou, morou e morreu em Barcelona. Provavelmente, na obra deste escritor, o leitor mais atento poderá observar uma questão crucial: saber onde está localizado o limite entre os gêneros. Outro limite exige definição: o ponto de distinção do que é ficção e o que é admissão do vivido. Aqui, é preciso ter uma noção mais profunda do conceito de contemporaneidade. Procurar saber se o tempo atual está diretamente relacionado às condições sociais e históricas, ou se esta relação se dá em face da forma com que cada um consegue ver a si mesmo diante do outro. No caso do artífice da palavra, como ele consegue transpor esta percepção/sensação para o papel. 

 

Como ensinou George Lukás: “A vida faz-se criação literária, mas com isso o homem torna-se ao mesmo tempo o escritor de sua própria vida” . O autor seguiu à risca o caminho dos exilados borgianos. Aqueles que encontram refúgio entre as estantes das muitas bibliotecas espalhadas pelos países de língua espanhola. Bolaño não dispensou o caráter tradicional na feitura de sua obra em prol de uma tentativa desesperada de atingir a vanguarda. A leitura das primeiras páginas, de qualquer um dos seus livros, projeta o leitor para um mundo marcado pela forma incomum e jocosa com que o autor encarava sua realidade. Os recortes bruscos no texto, para serem retomados em momentos bem distantes, são outra característica comum em sua escrita.

 

Inquietações, dúvidas e vazios são inseridos constantemente. Ele solta e controla as rédeas com total domínio. É autobiográfico em todos os momentos, sem medo ou culpa. Mas deixa bem claro que ninguém consegue ser totalmente sincero.

 

Bolaño arrasta, por todos os seus livros, a sombra da ditadura e, ao que me parece, não sugeriu o viés da vanguarda. Pelo contrário, trata-se de um escritor que deixava claro a influência da tradição em seus escritos. Seja em Estrela distante – onde se observa traços primordiais da prosa do autor: a poesia e o poeta como anti-herói (Bolaño era grande admirador da poesia de Nicanor Parra, por exemplo), a violência, o exílio e o fascínio pelos escritores (personagens comuns em sua obra) – seja em O espírito da ficção científica, obra póstuma lançada em 2017, uma espécie de louvor à tradição do gênero que deu ao mundo nomes como Júlio Verne e Philip K. Dick. Outro fantasma que ronda a escrita fragmentada desde chileno é o tcheco Franz Kafka, mestre em criar intervalos no texto. Intervalos esses que mais parecem chamamentos para que o leitor possa emergir e participar da costura textual.

 

Nascido no começo da década de 1950, e tendo conseguido notoriedade mundial na Literatura no final da década de 1990, Roberto Bolaño é um homem da década de 1970. Foi lá que ele encontrou a matéria-prima para a sua prosa. Foi lá que ele aprendeu a desfraldar a bandeira da resistência que se instalou em sua mente e deu o caráter marginal, ou melhor, maldito, aos seus livros. Suportar o exílio e transformá-lo em campo de produção (em observatório) foi a sua tábua de salvação. Bolaño elabora trajetórias descompassadas, oblíquas, usa e abusa das retomadas de períodos, desenvolve sua teia textual no limite da banalidade. O chileno assume os riscos de uma narrativa em primeira pessoa camuflada por seus alter egos. Sabia, mesmo sem o saber conscientemente, o que nos ensinou Montaigne em sua obra máxima, Os ensaios: “Quero que me vejam aqui em meu modo simples, natural e corrente, sem pose nem artifício: pois é a mim que retrato. Meus defeitos, minhas imperfeições e minha forma natural de ser hão de se ler ao vivo, tanto quanto a decência pública me permitiu.” 

 

Nathan Sousa é poeta, contista e romancista.