[Doralice Araújo]

Será que o leitor leu Meus verdes anos, de José Lins do Rego? É um livro precioso e muito querido para mim; costumo reler determinados  trechos para aprender a exercitar com gosto a descrição. Veja ali um dos  meus excertos preferidos; está à página 345, na edição da Livraria José Olyimpio:
(...) Acordava com os seus cantos. Estalava nos gorjeios, vibrava ao sol, com os albores da madrugada. Corria da cama, ia mudar a água de seu cocho, deixava alpiste na gavetinha (...) E cantava. Enchia-me a alma aquela maravilha da criação. Os outros pássaros rondavam por perto da sua gaiola, atrás do alpiste que o meu príncipe derramava na sua abundância de lorde. (...) Até o juiz quando passava para a casa da Câmara, parava, gozando as delícias do meu canário. Era meu, todo meu...

Como é bonita a flor do maracujazeiro !- reprodução via Google



Eu nunca tive um canário ou qualquer animal, mas certa vez  joguei no quintal umas sementes de maracujá, quando ainda morávamos juntos, os irmãos e minha mãe, já uma senhora viúva naquela altura, lá na Rua João Balby, em Belém, no meu saudoso Pará. As sementes germinaram e dentro de um tempo perdido na memória um maracujazeiro começou a pedir espaço, logo à entrada da nossa cozinha, lugar estratégico de convivência e que abria a visão de todos para um quintalzinho lateral. No começo, tudo foi calmo e recompensador; em tempo de frutos - ah.. tivemos uma bela colheita doméstica. Como era bom quando eu estendia as mãos para pegar 1, 2, 3, 4 ou outra quantidade de maracujás! Vê-los em processo de desenvolvimento era uma lição de botânica; a linda flor, o fruto  dela brotando, aquela bolota verde crescendo e dentro de pouco tempo  a exibir um amarelo inconfundível. Lindas lembranças tenho do meu pé de maracujá, caro leitor.


Chegaram, porém, as lagartas e começaram a criar uma confusão danada em casa. Minha mãe certo dia disse com aquele seu ar de matriarca e dona de grandes decisões: olha, Dora, vamos ter que cortar o teu maracujazeiro, minha filha. Eu tremi, pois era o meu brinquedo, a minha floresta particular, o meu  queridinho. Chorei tal como choram as crianças diante do inevitável e os adultos na frente das factualidades. As minhas lágrimas, entretanto, não adiantaram. Nem mesmo o cartaz que escrevi com letras grandes e tive que subir na cadeira para bem colocá-lo sob os olhos de todos; nada obteve sucesso. O meu querido foi sacrificado, tal como o que tornamos necessário para bem tranquilizar a paz doméstica ou mundial. É a vida com seus ais e ufas e poucos vivas


Será que o leitor teve um brinquedo, um animal preferido ou umapequena árvore na sua infância? Que tal descrever um deles? À descrição que tal acrescentar dados da sua alegria diante do ser querido? Prometo trazer aqui para cima as contribuições que surgirem ali na caixa de comentários, ora tão abandonada, coitadinha...