Outro dia estive me lembrando da visita à fazenda da Rachel de Queiroz, no município de Quixadá, em abril do ano de 2001. Ao passar pela porteira, deparei-me com um grande bosque, de onde se avistava a casa branca, ao longe, protegida por árvores centenárias a perder de vista.

Nesse cenário bucólico, a escritora (primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras) encontrava seu refúgio e repouso para compor tantas de suas obras. Embora tivesse nascido em Fortaleza e vivido no Rio, ela costumava visitar a fazenda duas vezes ao ano, sempre que tinha notícias de chuvas: aquela era a sua casa da alma.    

Logo me apresentei a uma senhora que foi me receber no alpendre, todo de ladrilhos, cercado pela vegetação do semiárido. “Ali mesmo havia sido escrito o Memorial de Maria Moura”, pensei, sem ter dúvidas de que esse lugar havia servido de inspiração a um dos primeiros livros a me chamar a atenção para o prazer da leitura.

Sentei-me numa cadeira branca de frente para a sala de estar, de onde pude avistar os antigos armários suspensos da cozinha e as lâmpadas armadas em longos fios, com uma espécie de pratos frisados sobre elas. Na sala, um grande retrato da escritora pintado à mão, um enorme baú e duas estantes, uma de cada lado da porta, cheias de livros.

A mulher que me recebeu chamava-se Rosita, conhecia meu bisavô e começou a discorrer sobre ele, embora eu não conseguisse me concentrar na conversa, apesar de todo o interesse; na verdade, apenas me perguntava: “Vou vê-la, afinal”?

O tempo não passava, e a minha inquietação crescia gradativamente. De súbito, uma empregada chamou Rosita para o interior da residência, aumentando ainda mais o suspense, e pouco tempo depois ela voltou, dizendo que a Rachel estava um pouco cansada, pois acabara de chegar de viagem.

“Pronto, acabo de descobrir que não vim no momento certo”, pensei, desolado. Para minha surpresa, entretanto, a outra prosseguiu a falar, pedindo-me apenas não me demorasse tanto a fim de não cansá-la.
“Afinal, ela já tem 90 anos”, disse ela, tentando me convencer a ser breve.

Com um pouco de tempo, ouvi rumores de chinelos, e olhei na direção da porta principal: “É ela!”. E lá vinha a escritora aproximando-se lentamente da direção onde eu me encontrava... Deu boa-tarde e, quase imediatamente, comecei a dar minhas congratulações por suas obras, as quais me acompanharam desde cedo. Não pude deixar, é claro, de afirmar que o Memorial era um dos meus preferidos, perguntando-lhe como havia surgido a personagem principal e todo o enredo.

Em seguida, ela ofereceu um suco de manga e passou a contar fatos de sua vida, ali mesmo ou no Rio, relatando também sobre as dificuldades enfrentadas por todo autor para publicar seus trabalhos iniciais. A conversa foi breve, mas ficaria para sempre em minha memória, e, ao nos despedirmos, saí dali com uma certeza: depois de conhecê-la pessoalmente, havia encontrado mais incentivo ainda para continuar a ler suas obras, como se, por um instante, me houvessem transportado para as páginas de um romance favorito.

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Trecho retirado do livro "Geografia Afetiva" - Prêmio Milton Dias, 2011.
Outras obras do autor estão disponíveis neste link (Livraria Saraiva).