[Geraldo Lima]

 

Há dias em que nos sentimos leves, equilibrados, em plena harmonia com o cosmo. Nosso ser, em dias assim, parece ter alcançado aquele estado de plenitude, de uma alegria vasta e contagiante. É tão intenso esse estado de espírito em nós que somos invadidos, a todo instante, pelo temor de que algo imprevisto (um pequeno incidente, por exemplo) venha a abalar ou fragmentar essa sensação de paz e vida plena. E esse pequeno e imprevisto incidente pode nos atingir com a potência de uma bomba atômica, pulverizando tudo o que nos tornava, em relação ao caos que geralmente reina ao redor, seres mais completos e sadios.

Sentia-me assim dia desses. Saí de casa para comprar comida, no domingo, tomado por essa sensação de leveza. Invadido por uma energia positiva e intensa, adentrei o restaurante. E quando estamos assim, alegres, iluminados, abertos ao mundo, sentimos uma necessidade incontida de estabelecer contado com o que se encontra em derredor, com os semelhantes, ainda que não façam parte do nosso círculo de amizades. Só isso pode explicar o fato de eu, quase num ato reflexo, ter ensaiado um cumprimento a um senhor de uma mesa próxima. Meneei a cabeça num cumprimento (quase como fazem os japoneses) assim que me deparei com sua figura me dirigindo um olhar. Aí está o engano, resultante do estado de euforia em que me encontrava. Aquele senhor olhava mesmo para mim? Demonstrava realmente me conhecer? Havia percebido o meu cumprimento?Ainda tentei uma segunda vez, mas, diante da sua figura marmórea, distante, percebi que fitava qualquer coisa, menos a mim. E, se me fitava, não estava dando a mínima importância para o meu cumprimento.

Já no momento em que enchia a marmita com a comida, pus-me a indagar de onde conhecia aquele senhor. Para a minha mente, o equívoco de ter cumprimentado uma pessoa totalmente desconhecida não era ainda admitido. Daí o labirinto de indagações em que me vi enredado. Fato é que, minutos depois, tive que me curvar à certeza de que nunca havia conversado com aquele senhor. A conclusão de que o havia confundido com outra pessoa não aplacava o desconforto e a angústia por ter “pagado um mico” daquele tamanho.

O leitor já deve ter percebido que, àquela altura, toda a minha paz de espírito e todo o equilíbrio psíquico que envolvia o meu ser haviam se esfarelado. A angústia mais corrosiva dominava a minha alma. Que tolice a minha ter me dirigido a um estranho com um cumprimento de cabeça! Por acaso me sentia (devido ao efeito narcótico da alegria vasta que me tomava inteiro) numa pequena cidade do interior, onde todos praticamente se conhecem? Dizem que Sobradinho tem um ar de cidade interiorana, no entanto já a percebo contaminada pela distância e pela pressa que costumam nos isolar num mundo particular, quase autista. Isso explica, talvez em parte, o que aconteceu naquele domingo.

 

Texto publicado, originalmente, no Jornal de Sobradnho.