[Ronaldo Cagiano]

       Dando sequência a um trabalho iniciado há 30 anos com a publicação de “Verso e vida” (1981) e da incursão musical em seu disco “De verde e luz” (1982), Lúcia Rios Peixoto da Silveira, nascida em Jaraguá e radicada em Goiânia, retoma sua trajetória com o lançamento de sua delicada safra poética em “Da Paixão” (Ed. do autor, 2012, 188pgs).

 Abrindo-se como um álbum de inscrições pessoais, em caprichada edição gráfica, a obra reúne o vasto olhar da autora, que une a precisão matemática do olhar da arquiteta com a emulação onírica da mulher sintonizada com as angústias de seu tempo e com as questões individuais e coletivas.

 Da objetividade da prancheta para o subjetivo mergulho na razão de ser e viver, está a percepção da realidade que a cerca. Lúcia não vacila em emprestar a voz do coração para discorrer sobre o que é assombro ou motivo de contemplação. Sua poesia não se filia a modismos ou ondas estéticas que sempre regem as produções literárias, mas tão-somente comunicar plenamente seu sentimento do mundo dando voz, vez e asas a uma palavra que é fonte de uma aguda preocupação com o universo, de onde emergem todas os movimentos que culminam na vida e na morte.

Trata-se de uma poesia sem meias palavras, que incorpora um certo viés naif, em que o mais relevante é enxergar a natureza e a essência primeira de todas as coisas, sem mistificação, sem rodeios ou piruetas de linguagem, mas tão somente a  expressão que de cada ser, situação ou acontecimento emana. E não há qualquer vezo de ingenuidade nessa postura, senão uma maneira personalíssima de interpretar ou espelhar o mundo que a cerca. 

 Não é sem propósito que Lúcia Rios segmenta o livro em “Mergulho”, “Margem Direita” e “Margem Esquerda”. Nesse croqui está a razão de seu processo criativo: ir fundo, de um lado a outro do mistério existencial para tentar encontrar a terceira margem que é justamente aquela que não está ao norte ou ao sul, nem a leste ou oeste, mas sob todas as coisas, a que verdadeiramente sustenta, a que não é vista, mas sentida. 

 Nessa latitude sempre perseguida pelos poetas e ficcionistas encontra-se o leitmotiv de uma busca literária e os poemas desse livro caminham na tentativa de responder a certas indagações, como se constata em “Estelar: De onde você veio criatura/ com essas asas adivinhadas/ esse não-sei-quê de profundezas/ ensaiando abismos sem limites.” Eis uma escritura que resiste e insiste nas procuras, nos questionamentos, nas inquietações pessoais, filosóficas e metafísicas para “conhecermos nessa cósmica e comum sinfonia/ certas especiais e humanas criaturas/ suas metamorfoses, às vezes, sobre-humanas tessituras...”. 

 O conjunto de poemas explicita o senso de observação da autora, pois nada lescapa ao seu juízo, tudo é matéria e circunstância para uma invocação poética, como a natureza, a família, os encontros, as relações afetivas, as amizades, a solidão, o desencanto com as tragédias quotidianas, com a passagem do tempo e com o destino da humanidade. Trazem seus versos uma mirada crucial e apesar de todos os passivos que inventaria, eles acenam com a possibilidade de apaziguamento, pois “Se o Verbo se fez homem/ - matéria de fé -/ certos versos se fazem pássaros” e é nessas asas que a autora encena seu voo e segue viagem, já que sentindo-se visitante nesse mundo cão, ela vai ao encontro de outras verdades, “Como quem vem de longe/ como quem traz as curvas/ e os caminhos de distâncias tantas.”

“Da paixão” revela um posicionamento sensível de uma escritora diante dos desafios da vida, do mundo e da própria arte.

(Ronaldo Cagiano, escritor, reside em São Paulo)