A vida inteira talvez não seja mais que uma longa preparação para deixá-la.

John Banville

A chuva caía de mansinho, deixando as folhas das árvores pesadas e a atmosfera carregada de um cheiro gostoso de terra molhada. As nuvens, no entanto, não estavam tão negras. Ao contrário. Elas, a cada minuto, pareciam mais claras e menos pesadas. A menina sentia-se um pouco aflita. Nunca era bom quando chovia. Nesses momentos, a angústia de se sentir presa era sempre mais intensa. Com um suspiro, procurou se acomodar melhor na cadeira.

Sua mãe, mesmo tendo muito a fazer em casa, de vez em quando vinha espiá-la, apenas para verificar se ela precisava de alguma coisa. Ansiosa sempre estava lhe oferecendo algo de comer ou beber, como se, mantendo-a bem alimentada, pudesse afugentar todos os seus problemas e aflições. Há pouco ela lhe ofereceu uma fruta. Como não queria vê-la preocupada, aceitou comer uma maçã mesmo sem vontade. Odiava ser a causa de tanta angústia e preocupação.

A maçã rolava em suas mãos. Viu pelo canto dos olhos sua mãe esperando pela primeira mordida. Resignada, começou a comer. Enquanto mastigava, voltou a olhar para fora. A chuva havia parado. “Que bom!”, pensou, “Agora, quem sabe, posso ir para o pátio”. Estava justamente pensando em pedir a sua mãe que a levasse para fora quando percebeu um lindo arco-íris surgindo entre as nuvens. Suas cores ainda eram um pouco esmaecidas, nem mesmo todas conseguiam ser vistas, mas ele em breve estaria claro, luminoso e, principalmente, muito, muito lindo.

Lembrou de ter lido sobre ele nos livros que sua mãe estava sempre lhe comprando. Era formado pela separação das cores da luz solar quando atravessava gotas de água suspensas na atmosfera. Por isso, eles eram tão fáceis de observar após a chuva. Esses eram os momentos nos quais o ar apresentava-se mais saturado de gotículas de água. Havia mais explicações cientificas para esse fenômeno, mas eram muito complicadas. A ciência, muitas vezes, sabia como tirar a graça das coisas.

Ela, por exemplo, gostava de pensar no arco-íris como algo mágico e misterioso. Inclusive, já tinha elaborado suas próprias teorias sobre o assunto. Ele podia muito bem ser o caminho percorrido por duendes para as suas minas de diamantes. Ou, ainda, a coroa perdida de uma linda princesa.

Quando voltou a olhar para o céu, o arco-íris estava mais nítido. Já era possível ver com clareza algumas de suas cores. Azul, verde, laranja, amarelo e vermelho. Engraçado, os livros diziam que ele era composto de sete cores, mas ela nunca tinha conseguido vê-las todas ao mesmo tempo. Houve um dia, muito parecido com esse, em que acreditou ter visto o violeta. No entanto, como estava muito fraquinho, até hoje ela não sabia se realmente ele estivera lá ou se o havia imaginado. O tal do anil, esse ela nunca viu. “Talvez, o problema sejam os meus olhos”, pensou. Ou quem sabe, ele não existisse mesmo. Com um sacudir de ombros, não quis se preocupar com esses detalhes. Não era realmente importante.

Existiam muitas fotos e ilustrações de arco-íris nos livros, mas o que a menina desejava era ter uma máquina fotográfica para registrar esse arco-íris em especial. Assim, ele não seria um qualquer, seria o seu arco-íris. Um leve sorriso surgiu no seu rosto geralmente sério. “Já imaginou? Um arco-íris só meu?”. Ele seria o seu amuleto da sorte.

Quando a mãe entrou na sala, ela ainda estava sorrindo.

- O que foi minha filha? A maçã não está boa? Quer outra? – perguntou ansiosa, interpretando mal a sua expressão.

A menina não se surpreendeu com a atitude da mãe. Ultimamente, era sempre assim, até um sorriso podia se tornar algo preocupante.

- Vem aqui, mãe. Vem ver o arco-íris – convidou a menina.

A mãe, ainda tentando entender a expressão da filha, aproximou-se da janela. Sim, havia um arco-íris, mas ela não conseguiu realmente vê-lo, seus olhos preocupados eram apenas para a menina pálida que da cadeira a fitava sem se mover.

- Sim, querida, muito lindo. Mas, não está um pouco frio? Vamos fechar a janela, não quero que você pegue um resfriado.

A menina não respondeu. Lançando um último olhar ao “seu arco-íris” deixou que a mãe empurrasse a cadeira de rodas para longe da janela.