Após os decênios de 1930 e 1940, anos decisivos para a consolidação do modernismo,  no plano da prosa de ficção, o romance brasileiro seguiu as duas conhecidas tendências tipológicas mais exploradas pelos autores da época: o romance neo-realista, de caráter social e regional,  e o romance psicológico ou introspectivo. 
     Considerando a impossibilidade de conciliar as diferenças internas que separam essas diretrizes, seguidas pelos principais romancistas na produção de seus textos, Alfredo Bosi (1974, p. 440) amplia o quadro, com base nas formulações de Lucien Goldman, e enquadra o romance brasileiro modernista, de 1930 aos nossos dias, em quatro tendências, “segundo o grau crescente de tensão entre o herói e o seu mundo”, a saber: romance de tensão mínima, romance de tensão crítica, romance de tensão transfigurada e romance de tensão interiorizada.  
      ULISSES ENTRE O AMOR E A MORTE, romance de O. G. Rego de Carvalho, (1953), segue a tendência do romance psicológico ou instrospectivo, de tensão interiorizada, em que o herói não enfrenta a antinomia eu/mundo pela ação: evade-se, subjetivando o conflito. Em outras palavras: ação, espaço e tempo são meros suportes para a construção da narrativa, uma vez que o foco de interesse não é o exterior, mas o mundo interior das personagens.  A estrutura do romance compõe-se de 5 partes, todas nominadas pelo narrador. Para fins didáticos, assim as condensamos: 
      PRIMEIRA PARTE: Viagem de cura. (8 capítulos). Os relatos têm como cenário Oeiras. Ulisses revive as primeiras imagens da infância: a cidade em tarde de procissão; o encontro com o primo Olavo nas ruínas da antiga cadeia; o pai enfermo, que viaja para Teresina; o mutismo de José, o irmão mais velho; o namoro de tia Julinha com Dr. João da Mata; a morte do pai.
      SEGUNDA PARTE:  A Selga (8 capítulos). As visões do pai atormentam Ulisses. É a mãe quem lhe conta a verdade: “seu pai nos deixou desde julho”. Ulisses e a irmã Anália regam o arrozal que enfeitaria o presépio de Natal. Acontece o noivado de tia Julinha com Dr. João da Mata. Ulisses é conduzido à Selga. No sítio, sustém o impulso de gritar ao ver o primo Olavo, que vai ao seu encontro. A loucura o assusta na expressão de Joana, e a esquisitice de José o inquieta; este desfaz o ninho de pombos e deixa os ovos caírem propositadamente no chão; a mãe de Ulisses envia carta ao avô, comunicando que, por insistência de Anália, resolve mudar-se para Teresina.
      TERCEIRA PARTE: Adolescência (9 capítulos). Na viagem para Teresina, Ulisses evoca o passado: lembra o pai que o levou para cortar os cabelos pela primeira vez; Oeiras comparece com seus morros, o riacho, a quinta; em Teresina, “Tinha o coração amargurado pelas incertezas da vida nova”; é apresentado ao primo Norberto que o acompanha ao Ateneu; as águas turvas do Parnaíba o enlevam, “contemplando a correnteza, as pequenas balsas, a ponte metálica, as quintas de Timon”; assiste as primeiras aulas do “admissão ao ginásio”. Com Arnaldo e Norberto forma um “trio”. Ao mergulhar no leito raso e arenoso do Poti, Ulisses sente uma “estranha dor no bico do peito, descobrindo-o depois levemente intumescido”; a descoberta o deixa maravilhado e põe-se a “considerar”. 
     QUARTA PARTE: Os pombos (10 capítulos). Ulisses conhece Conceição, por quem se apaixona; Arnaldo, primo de Conceição, envia-lhe dois pombos; José os acolhe para si. Em sonho, Ulisses vê “inúmeros pombos em revoada, por cima dos morros que cercavam Oeiras”. Na coroa do Parnaíba, Arnaldo o desconcerta com uma súbita pergunta sobre sexo, que lhe traz recordações de Amélia, uma mocinha que o abraçara em Oeiras, quando tinha sete anos. Sente desejo por Conceição e nem se dá conta do desaparecimento dos pombos; percebe que “aquela tarde descortinara para si um mundo admirável”. No dia seguinte vê José que lhe revela ter sacrificado os pombos e pressente que algo estranho iria acontecer com o irmão. José tenta suicídio; salvo, cumpre promessa de ingressar no seminário.
      QUINTA PARTE: Conceição (7 capítulos). Na praça Pedro II, Ulisses encontra Conceição; em casa repete para si, por diversas vezes, que a amava com ternura; vêem-se nas barraquinhas dos festejos da igreja; Conceição diz-lhe que é inconstante por ter os olhos castanhos, diferentes dos dela, por isso lhe será fiel até a morte; acha agradável ouvi-la assim; confessa tudo à mãe sobre o namoro; ela o adverte para que não se mostre apaixonado. Ulisses recorda o episódio que pôs fim às ilusões amorosas da adolescência: ouve  Conceição dizer à tia que não o namora. Após a "missa do galo",  vêem-se pela última vez. O desfecho fica em aberto. 
      Os capítulos do romance são curtos e interdependentes pelo sentido. Possuem autonomia, a exemplo dos capítulos do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos. O enredo não é rigorosamente linear, pois a construção das tramas é feita através de quadros ou cenas evocadas, através de flash-backs, por Ulisses, narrador-personagem, dos 7 aos 15 anos de idade (vide referências a esse respeito nos capítulos “Na coroa do Parnaíba” e “Um encontro”).  Os episódios são narrados do ponto de vista do adolescente, que os evoca  tempos depois, como comprovam as palavras do último parágrafo do romance: "Conceição  saiu rápida, sem volver o rosto. Quando mais tarde a procurei para renovar os votos de amor que lhe tinha feito e constantemente repetia, já não a encontrei: misturara-se à multidão. Dela ainda hoje, guardo a recordação desse momento, em que nossas mãos, as minhas aquecidas nas suas, se uniram pela última vez."
Manuel Bandeira identifica no Ulisses a presença do realismo simbólico, pulverizando, dessa forma, os índices de autobiografismo apontados por muitos. Neste caso o exemplo máximo está no capítulo Quente era a manhã, em julho:
 “Quente era a manhã, em julho, quando meu pai se deitou, as pálpebras baixando. E puro e distante e feliz, encarou o céu e o tempo” (O.G Rego: 2001).
 Exemplo semelhante de realismo simbólico surpreendemos, numa outra referência  à descrição de morte, em Memórias sentimentais de João Miramar:
 “No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me buscar para a reza do anjo que carregou meu pai”. (Oswald: 1975)
 Antônio Cândido refere-se a Oswald de Andrade como iniciador da técnica cinematográfica em nosso romance, caracterizada pelo que denominou "descontinuidade cênica". Essa peculiaridade é ressaltada por Haroldo de Campos, ao considerar Oswald de Andrade um escritor que se inscreve na vertente antinormativa do romance contemporâneo, ao produzir  uma narrativa caleidoscópica, situação em que, ao lê-la, o leitor é co-participante da criação literária. Senhoreando-se dos fragmentos, passa então a remontá-los, a fim de ter uma visão do todo. Em "Ulissses", a simultaneidade das cenas e o emprego de flashes aliam-se ao realismo simbólico, já referido, para romper com a cadeia linear do discurso e instaurar a técnica cinematográfica, que requer a montagem e remontagem dos fragmentos, para o desvendar de novos significados. Não há seqüência cronológica. O enredo é praticamente substituído por uma sucessão de eventos. No plano interno da obra não se estabelecem datas para o início e fim da narrativa. No plano histórico, as descrições do espaço e demais referências remetem ao início da década de 1950. Na obra, predomina o espaço urbano: Oeiras e Teresina onde se transcorrem, respectivamente, a infância e a adolescência de Ulisses.
Quanto aos temas, o ponto alto da obra é sem dúvida o sentimento de perda, apoiado em dois subtemas – amor e morte, implícitos no próprio título do livro. O amor reflui à infância de Ulisses, que evoca a paisagem natal, as imagens afetivas do pai, do irmão, da tia, de Conceição. A morte traduz a perda disso tudo. No romance, o tema da adolescência ganha corpo, ao tempo em que o narrador vai tecendo a personagem Ulisses, desde os primeiros capítulos. 
A obra possui ainda notável valor cultural e educativo. Resgata pela memória um cenário urbano muito distante de nós: a antiga e bucólica paisagem de Teresina - uma cidade de quintas e sítios, onde se caçavam rolinhas com baladeiras, às margens dos rios de águas fartas e despoluídas; uma cidade de portas abertas ao amanhecer, povoada por figuras que se apagaram no tempo, como o vareiro, o padeiro e o leiteiro. Uma cidade com praças, jardins floridos e barraquinhas nos adros das igrejas, onde os jovens passeavam e namoravam ao som dos alto-falantes. Por essa razão, "Ulisses entre o amor e a morte" pode ser considerado  um grande romance de época e, para os que conheceram Teresina no passado, nada mais agradável do que revisitá-la, através de texto de leitura leve, fluente e prazerosa.


BIBLIGRAFIA

ANDRADE, Oswald de. Memórias Sentimentais de João Miramar. Rio : Civilização Brasileira, 1975.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo : Cultrix, 1982.
CARVALHO, O G. Rego. Ulisses entre o amor e a morte. In O. G. Rego de Carvalho – Ficção reunida, Teresina : Editora Corisco, 2001.


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