Esteticamente Martins Napoleão assim se autodefine, em carta ao escritor Herculano Moraes: "...diria que sou um neoclássico - um clássico renovado e em permanente renovação: romântico no fundo e clássico na forma".(1) Essa confluência entre a tradição e a modernidade é reiterada na teoria que formula em algumas páginas das "Folhas soltas ao Vento". Delas extraímos a seguinte passagem: "Façamos num relance a crítica ao fenômeno artístico, assim como se mostra na literatura universal e no momento desses trinta anos". Aqui, certamente o poeta se refere às três décadas que compreendem o pré-modernismo e as duas fases iniciais do nosso modernismo. "Entre os múltiplos fins, a que se tem destinado, consciente ou inconscientemente, a arte, podemos assinalar, entre outros, para referência desta análise, os seguintes:
1º - eternização das formas que nos interessam, pelo seu caráter de pureza e de universalidade;
2º - a criação de um mundo ideal, que nos ajude a esquecer as misérias do mundo real;
3º - expressão do que não permite adequada tradução no mundo do espírito;
4º - despertar em diferentes indivíduos, as mesmas emoções, estabelecendo estreita comunicação entre as almas, no que têm de mais íntimo e de mais profundo;
5º - oferecer finalmente vivas representações de beleza". (2)
Ao partilhar do pensamento do filósofo francês Emílio Boutroux, o poeta finaliza afirmando que a arte parece submetida a uma lei: assim como deve, ao mesmo tempo, conservar e inovar, deve, também, reunir e combinar o individual e o universal, concluindo que a ela requer um poder diverso da imitação servil ou da simples fantasia. Evasão, sinfronismo, catarse e sobretudo o poder de estabelecer a comunicação entre os homens, no que há de mais íntimo e profundo, são para o poeta as principais funções da poesia. Na espontaneidade da criação, o que se desvela é o coletivo através da voz individual do poeta. A criação subordinada à comunicação, nos termos de João Cabral de Melo Neto que assevera: "como o importante é comunicar-se, o autor usa os temas da vida dos homens, os temas comuns aos homens, que ele escreve na linguagem comum. Seu papel é mostrar a beleza no que todos vêem e não falar de uma beleza a que somente ele teve acesso". (3) Esse viés interativo da poesia de Martins Napoleão é manifestado no lirismo contagiante com que interpreta os mais íntimos sentimentos do homem. Daí seu propósito de preservar as formas clássicas adaptando-as a situações contemporâneas.
Nesta hipótese, não seria falso aproximá-lo das intenções de Mário Faustino, curiosamente, assim como Martins Napoleão, um polígrafo de idêntica formação intelectual e humanística. Ambos, resguardando suas influências literárias e respectivas peculiaridades estilísticas, souberam conciliar tradição e modernidade, inspirados na sabedoria dos mais renomados e expressivos autores da literatura universal, quer do ponto de vista formal ou do ponto de vista temático. Seria então a valorização da poesia do passado, como lição para o presente, princípio faustiniano, que traduzimos nos versos do poeta de "Caminhos da vida e da morte":
"Por estes caminhos, sulcados de passos,
por anos, por séculos,
milhares de irmãos, indo e vindo, passaram,
com a alma, ainda viva, empurrando o seu corpo cansado.
Milhares de irmãos, condenados à vida,
passaram agitando o pendão do seu sonho,
arrastando o manto real do pensamento,
ou carregando o sofrimento aos ombros.
Passaram, com as suas alegrias e os seus desesperos,
buscando, ou perdendo,
a maravilhosa mentira da felicidade. (4)
Essa confluência tradição / modernidade a que nos referimos, pode ser delineada
a partir da trajetória que empreende o poeta, do classicismo ao modernismo, com óbvias incursões ao romantismo e ao simbolismo. Nessas paragens, a informação estética é tecida mediante o exercício da função poética que, concorrentemente, se vale da emoção e da metalinguagem como exemplificam os versos:

"A alma de toda coisa neste mundo
é a imagem de uma lágrima caída

do olhar profundo
d'aquele que, num sonho, faz a vida.
Como uma copa de ébano, o Poeta
levanta a sua dor ante o universo,
e recolhe essa lágrima secreta,
desfeita em verso... (5)

O poeta-emissor, consciente da ferramenta de seu trabalho expõe sua noção de lirismo que se consubstancia na materialidade do poema.
Em "O Prisioneiro do Mundo", publicado em 1943, o tema da poesia e do poeta ecoam em tom biográfico-emocional, nos versos do poema A Tarefa:
Com o trabalho, senhor, de alguns instantes
recolherei a música do mundo
para dar, como a ouvi, aos que vierem depois,
pois a cada homem cumpre uma tarefa:
nem podem todos semear a terra,
ou escrever poemas. (6)
A grandeza da poesia de Martins Napoleão está exatamente em operar o clássico em perfeita sintonia com o moderno. Preservou, quanto ao tema e à forma, principalmente através do soneto, numa atmosfera lírica e em versos livres, o que o classicismo apresenta de mais universal. Neste caso, de modo inovador, associa à poética, a função emotiva da linguagem, que se sobrepõe em relação à cognitiva ou referencial, como atesta o segundo terceto do soneto Nessun maggior dolore: "Poeta, se queres o maior gemido,
a dor que não tiveste e que me invade,
lembrem-te o sonho morto e o amor perdido." (7)
O modernismo comparece na obra do poeta, numa dimensão que conjuga informação estética e metalinguagem, na forma como tece a mensagem nos interstícios do texto, quando, tematiza o poema, o poeta a poesia, o tempo, o amor, a vida e a morte. O poema, geralmente em versos de extensão curta, livres e brancos, cumpre sua utilidade através do canto absoluto, conforme o poeta, para que "possa exprimir a integração, a plenitude, e a culminância do glorioso momento da Vida: o desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno..."

Palestra proferida na Academia Piauiense de Letras (Teresina), em15/3/2003.
Sobre o autor: Benedito Martins Napoleão do Rego nasceu no dia 17 de março de 1903, em União - PI. Foi advogado, professor, jornalista e poeta. Faleceu no Rio de janeiro, no dia 30 de abril de 1981.

NOTAS
1. MORAES, Herculano. Visão histórica da Literatura Piauiense (1808-1978) 5ª ed. Teresina: Comepi, 1999, p. 191.
2. NAPOLEÃO, Martins. Folhas soltas ao vento. Teresina: Comepi, 1980.
3. MELO NETO, João Cabral de. Poesia e composição - A inspiração e o trabalho de arte. In TELES, Gilberto de Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo brasileiro, Petrópolis: Vozes, 1977, p.318.
4. NAPOLEÃO, Martins. Caminhos da vida e da morte. Rio de Janeiro: Oficinas de J. Borsoi Júnior, 1941, p.11
5. _________________ Copa de Ébano In Cancioneiro Geral vol. I, Academia Piauiense de Letras, s/d.
6. __________________ O prisioneiro do mundo, ibidem, p.261.
7. __________________ Poemas ocultos, ibidem, p.65 - "nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miséria (italiano) Não há maior sofrimento do que recordar-se do tempo feliz na miséria. (Dante in Divina Comédia, Inferno, V, 121-123). Nessun maggior dolore é também título de um soneto de Da Costa e Silva, em "imagens do amor e da morte", 2ª parte do livro Verônica

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