À cautela


À cautela
imitar os girassóis em cada vela

dar moinhos à farinha
e um nome à estória

lavar raízes de glicínias
e a cabeça aos vendavais

por conta das mantas rotas
da montada
massajar os cascos ao jumento
frente às frinchas
da muralha

a escumalha
espreitá-la de viés a ver
se engole ainda
fantasmas fritos
em óleo de soja modificada

há que ter recato
na montanha

rever sermões
antigos

beber limões
verdes
espremidos

ser de cá
em coisas vãs e estranhas

ser de lã
em coisas duras
como unhas

ser de distâncias nenhumas
enquanto se fia o linho
das manhãs
na harpa inaugural
deste eixo polido que somos
tangente ao eclodir
de novos dias
novos pomos
maduros nos ramos úberes
do éden
filhas não mais procrastinadas de Eva
herdeiros de corpo inteiro
de um mapa adâmico
liberto de arcas acorrentadas

asas de anjos
a bulir levemente
a túnica lisa do lago

um afago
e a mais pura perseverança
herdada intacta das romãs

no tempo
até as mais duras rochas se enternecem

e caem de joelhos
em dobras de água
na orla porosa da praia

vai haver hora

de colher o fruto
sob o olhar doce do cosmos

de apagar o espaço
com um risco de cauda de cometa

de apagar o tempo
com um frémito
de borboleta

e à cautela
entretanto
imitar os girassóis
na precisão exacta
da rota

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