[Marcelo Martins Eulálio]

Em um dos vários e bons episódios do desenho animado “Os padrinhos mágicos”, a que assisti com meus filhos, o protagonista Timmy Tumer, um garoto comum de dez anos, que vive em Dimnsdale, Califórnia, deseja de seus padrinhos mágicos Cosmo e Wanda que as pessoas sejam iguais em todos os aspectos. Talvez assim o mundo lhe parecesse melhor. Para ele, as pessoas são intolerantes, diferentes nas ideias, nos gostos e no modo de pensar. Suas ideias e opiniões não eram compreendidas. Em um dado momento, depois de muita confusão e decepção, Timmy volta atrás e deseja tudo como antes, ou seja, cada qual com suas próprias características, modos de pensar, defeitos e virtudes; cada qual com sua própria identidade e personalidade. Já não havia - para o Timmy - graça alguma no fato de todos serem literalmente iguais, com as mesmas ideias e gostos. O mundo havia perdido suas cores, sua graça. O mundo tornou-se monótono e insuportável.

Nesse caso, em termos, a ficção estaria imitando a realidade? O desejo de Timmy, penso, é o desejo (in) consciente de cada um de nós. Queremos que as pessoas pensem iguais a nós, gostem das mesmas coisas de que gostamos, enfim, sejam como nós somos. Considero, moderadamente, compreensível esse desejo. Mas, se assim fosse, de modo absoluto, como na ficção, acredito que o mundo não teria a graça que hoje tem. Assim como um próton (uma das partículas do átomo) na presença de outro se repele, certamente aconteceria o mesmo com as pessoas, se fossem “literealmente” iguais entre si. Ora, se os opostos se atraem, por que os diferentes não se compreendem? Como espécie, nos distinguimos dos outros animais (apesar de achar que às vezes agimos piores que animais irracionais). Não importa a cor da pele, a altura ou qualquer outro detalhe de nosso biotipo, temos características semelhantes, por isso nos qualificam como “humanos”, por isso somos iguais.

Como espécie humana somos iguais, pois compartilhamos características biológicas e possuímos qualidades morfológicas e fisiológicas similares, somos iguais porque não nos diferenciamos apenas nos aspectos físicos dos outros animais. A forma de nos comunicar por meio da linguagem e de usar a razão também são características que nos humanizam e nos tornam iguais.

Quando o cientista, astrônomo, teórico político e filósofo Aristóteles afirmou que o homem era um “animal político”, estava dizendo que só ele possuía as qualidades que tornavam possível a sua existência em sociedade. O homem, dentre todos os animais, possuí o “logos”. O “logos” é mais do que a capacidade de falar. O termo denota também a razão e a moralidade, “o que distingue o homem dos outros animais é ser ele o único a perceber o bem e o mal, o justo e o injusto”. Esse senso de justiça, intrínseco ao homem, confere-lhe impulso (instinto) social. É isso que o faz viver em sociedade, e dele faz “um animal político em maior medida do que qualquer abelha ou qualquer animal gregário”. Logo, todos que possuem o logos são iguais, pertencentes à mesma espécie! Para Aristóteles, no plano metafísico, a razão é, de todos os sentidos, o que melhor contribui para que se conheçam as coisas e as nossas diferenças.

Com base no raciocínio cristão, somos iguais porque todas as pessoas são filhas do mesmo pai. Deus fez o homem à sua própria imagem. Somos iguais como objetos morais, para os quais Deus manifestou certas ordens do direito natural e nos capacitou para que, de vontade própria, as cumpríssemos ou as infringíssemos (livre arbítrio). Agora, o fato de possuirmos o “logos”, de pertencermos à mesma espécie e de sermos filhos do mesmo pai, não significa que não sejamos detentor de algumas diferenças. Os iluministas diziam que todos nasciam iguais e que as diferenças decorriam do processo de socialização (endoculturação), ou seja, da educação e das influências do ambiente. Hoje sabemos que não é bem assim. Apesar das semelhanças biológicas, morfológicas e fisiológicas, as pessoas nascem com diferentes bagagens genéticas e não há dúvida de que somos diferentes uns dos outros em virtude de nossas características herdadas, e não apenas por causa da educação que recebemos. Somos o produto dessa combinação.

Somos iguais entre si e somos diferentes dos outros animais. Somos da mesma espécie, possuimos o logos, temos a capacidade de aprender e recordar o que aprendemos, mas somos também diferentes um dos outros. Não temos o mesmo caráter, a mesma personalidade, o mesmo temperamento, as mesmas características físicas, os mesmos gostos, os mesmos ideais e os mesmos valores.

O certo é que, por obra e graça de Deus, somos um paradoxo, somos iguais na diferença. Somos como as plantas, que sendo do mesmo solo produzem frutos diversos. Isso é a grande maravilha de Deus! As pessoas se distinguem em uma infinidade de aspectos. “Cada ser uma só imagem” (Shakespeare). Somos de todas as cores e de diferentes raças! Somos gordos e magros. Somos samba e somos rock. Somos axé e somos sertanejo. Somos socialistas e somos democráticos. Somos conservadores e somos liberais. Somos católicos e somos evangélicos.

A graça e a beleza da natureza humana (e das sociedades com suas diferentes culturas) estão nas diferenças! O que justifica rivalidades entre alemães e turcos, franceses e marroquinos, castelhanos e bascos, ingleses e irlandeses, judeus e mulçumanos, católicos e evangélicos, nacionais e imigrantes, “brancos” e “negros”, homens e mulheres? Imaginem se no “facebook” todos os pensamentos fossem iguais? Mark Zuckerberg, profissionalmente, não seria o que se tornou e, financeiramente, não ganharia o que ganhou (e continua ganhando)!

Portanto, o que falta aos intolerantes é a compreensão sobre a natureza das diferenças e sobre “o aparente paradoxo de o homem ser um só, como ser-espécie da natureza, e ao mesmo tempo ser múltiplo em suas expressões coletivas, políticas e culturais”! Se acredito ser correto comer carne de porco, e não de vaca, se alguém come carne de vaca e não de porco, o que importa? Gostem ou não, “sou o que sou” e concluo esta reflexão com o pensamento de Bob Marley: vocês riem de mim por eu ser diferente, eu rio de vocês por serem todos iguais. Marcelo Martins Eulálio – Advogado e Professor.

Marcelo Eulálio é professor e advogado - mmeulalio@yahoo.com.b