Cunha e Silva Filho
 
 
        Se existe alguém que não sabe lidar com agendas telefônicas e para outros  fins, esse alguém sou eu. Nem mesmo sei se outras pessoas guardam suas agendas de anos anteriores, uma vez que, agora,  é bem capaz de que elas, as agendas,   estejam fora de moda por serem impressas.
     Presumo que as agendas, agora, sejam eletrônicas ou por outra,  virtuais. Perdoe-me , o leitor,  o meu lado gauche à Drummond  sobre gadgets ou outras  formas  de anotação de dados, tais como endereços, telefones,  pen-drivers ou  outras informações que a gente faz com as agendas  impressas.
   Mesmo no celular ainda não me dei ao trabalho  de aprender como  falar via WhatsApp, ou  pôr um vídeo  não Face. Embanano-me  todo e transformo o  uso do celular num caos virtual sem tamanho. Os amigos, ao verem isso,  me dão um sorriso escarninho. Da mesma forma,  é com alguns procedimentos  de links,   e transferências  nesse navegar   pela internet. Contudo, não estou  sozinho  nessa modo  argel de lidar com  o mundo virtual  ou com o  mundo  eletrônico.
        Disseram-me  uma vez que o escritor Jorge Amado (1912-2001) não sabia nem como   sintonizar  uma estação de rádio. Meu pai, também escritor,   era pouco dado  a ouvir rádio e nem mesmo  teve um rádio para uso  próprio. Por outro lado,  escritores, mais velhos aderiram  à aprendizagem do computador,  ao passo que outros nem mesmo ainda  sabem  usá-lo e me afirmaram que não  querem aprender mesmo. 
     Mas, acredito que eles seja as últimas gerações  de idosos que não desejam   familiarizar-se com  o  mundo virtual. Mais anos pela frente e todos indistintamente,   crianças, moços e idosos  estarão navegando  naturalmente   pela Internet. Ou seja,  todos  beberão do mesmo   vinho do universo virtual. Todos, assim, globalizarão a virtualidade em todos os sentidos: afetivo,   comunicativo, ideológico, profissional  etc.
   A minha intenção central desta crônica  são as agendas impressas  que, no meu caso  particular, já formam  uma um embrião de “biblioteca.” As agendas são de vários tamanhos: pequeninas,  médias e grandes,. Estas são as de que mais gosto por terem mais espaço e mais páginas. Ora, nelas está  anotada um multidão de  dados: nomes de conhecidos,  de amigos,  de pessoas de variadas  atividades  profissionais, de nomes  que, no presente,  já não identifico.
      Tudo esta anotado ao acaso na maior parte, acronologicamente, alguns com e-mails, outros com o nome da profissão. Alguns são ex-alunos que se perderam na multidão e, para resumir,  há uma lista enorme de pessoas queridas que já se foram  do meu convívio na Terra.
      À medida  em que releio ou passo  a vista distinguindo os que se foram para sempre, me vem à lembrança,  em ponto pequeno,  o número bem visível  de mortes relatadas na narração de Dom Casmurro -  essa obra-prima de Machado de Assis (1839-1908). Talvez já tenha aludido a esse detalhe alhures: em Dom Casmurro (1899) foi, pela primeira vez no âmbito da literatura, que  tive a sensação estranha e singular  da efemeridade  da vida tão genialmente  transmitida pelo  narrador Bentinho, por sinal, a meu ver,  cruel narrador machadiano.
     Nem mesmo o  foi pela quantidade de  personagens que morrem ao longo do enredo, mas pela forma como  a morte é anunciada  pelo narrador aqui e ali na obra. Dom Casmurro é o retrato mais  perfeito, em termos  de forma narrativa que  já experimentei  como  leitor. Daí a sua grandeza, a sua  singularidade, o seu sopro da vida mais “real” do que a própria  existência porque um grande romance  nos permite  ter uma visão mais profunda  do ser humano e de seus  problemas  e enigmas.
     As agendas antigas têm esse condão de nos  transportar ao passado e simultaneamente de nos  projetar  ao futuro e às transcendências. Elas são tempo e  passagem. Fixam homens, lutas e  acontecimentos  alegres ou  tristes já pretéritos. Dão  também um certo perfil de nosso travessia  cá entre os mortais e nos fazem questionamentos sobre a eternidade e a  intemporalidade   das quais  não escapamos  como viventes.
      Quem quiser encontrar organização  e cronologia  nas minhas agendas perderia seu tempo. Ao abrir as páginas dessas agendas, o leitor terá que  reordenar tudo e usar a imaginação a fim de  pôr ordem no caos. As agendas, no meu caso, serão caixinhas de surpresas. Darão boas pistas,  porém não darão a chave. Não fiz isso de propósito, porque elas se construíram da desordem e da emoção. 

      Já me fizeram entender que a  sociedade funciona  porque nada é muito lógico e a vida é feita de  acasos (William Shakespeare,1564-1616,) e, se tudo fosse certinho,  matemático, lógico, a vida seria insuportável, da mesma maneira  que ela não bastaria se não fosse complementada pela Arte, conforme declarou  o poeta Ferreira Gullar (1930-2016). A Arte nos liberta pelo menos dentro de nossa indevassável  solidão.