Sobre a violência, rapidamente! Há quem diga que a violência é uma questão cultural, não da natureza. Pode ser que sim. O sapo que engole um mosquito ou o leão que mata a zebra não praticam atos de violência. A palavra violência é usada para caracterizar determinados atos praticados pelo "homo sapiens" contra outro de mesma espécie ou não. E por que o "homo sapiens" faz uso da violência? Cesare Lombroso defendeu a teoria de que os criminosos tinham um conjunto de características anatômicas comuns, como a forma do crânio e da testa, o tamanho da mandíbula e o comprimento do braço e que apresentavam sinais de atavismo. As ideias de Lombroso, como nos conta a história, foram totalmente desacreditadas. Outras abordagens biológicas também não responderam satisfatoriamente a questão de “por que as pessoas cometem crimes?”. Não sei se a psicologia logrou êxito na tentativa de compreender o fenômeno da vioência, posto que as abordagens psicológicas da criminalidade, salvo engano, procuram explicações dentro do indivíduo, e não da sociedade. Dentre as teorias psicológicas, destaco a que enfatiza como traço característico do criminoso a “fraqueza de espírito” e a “degeneração moral”. Na psiquiatria, alguns sugerem que criminosos desenvolvem uma “personalidade amoral” ou uma “psicopatia”. Essas são pessoas retraídas e sem emoções, agem com premeditação, friamente e se deliciam com a violência por si só. Mas essas teorias, na melhor das hipóteses, explicam apenas alguns aspectos do crime. São tantos os tipos de violência que se torna implausível supor que todos os que cometem crimes compartilhem das mesmas características psicológicas. No contraponto, Durkheim considerava o crime e o desvio (desconformidade em relação a um determinado conjunto de normas aceitas por um número significativo de pessoas em uma sociedade) como fatos sociais, argumentando que ambos (crime e desvio) eram elementos inevitáveis e necessários das sociedades modernas. De acordo com Durkheim, na era moderna as pessoas são menos limitadas do que nas sociedades tradicionais. Ainda com Durkheim, os crimes e desvios cumprem a função adaptativa (ocasionando mudanças nos comportamentos sociais e na cultura) e promovem a manutenção de limites entre os “bons” e “maus” comportamentos. Um ato desviante ou criminoso pode provocar uma resposta coletiva que aumente a solidariedade grupal. Seja qual for a abordagem sobre a violência, não tenho dúvida de que esta tem um potencial destruidor e desagregador. O “mal” existe e ele é uma criação do homem e o sofrimento que uma pessoa impõe a outra também o é. Lembra-nos Aristóteles que o homem é o único "zoon" com capacidade para agir orientado por uma moral, de modo que suas ações e juízos resultam ora em vício, ora em virtude. A grande meta das pessoas é viver bem, alcançar a felicidade ("eudaimon"). Para Aristóteles, um homem incapaz de “viver em sociedade” ou alheio ao Estado é um “bruto ou uma divindade”. As recorrentes notícias de violências me remetem à seguinte reflexão: o homem, "zoon politikon", distancia-se dessa natureza? Parece-me que “viver em sociedade” tem sido um fardo pesado para algumas pessoas que se “esforçam” para se “adequarem” aos “modelos de comportamentos sociais”. Essas pessoas não são divindades, logicamente! Os brutos não medem esforços para a satisfação de seus impulsos violentos. O senso moral e o de responsabilidade não existem. No mundo das retóricas morais, o bruto alimenta-se diariamente do ódio e não se preocupa com a sorte do outro, não sente compaixão ou piedade ante a ruína do outro. Com mais frequência assistimos a espetáculos de horrores contra a vida humana. Pura barbárie! E como bárbaros, experimentamos o fenômeno autofágico shakespeariano: “tenho minha cólera como alimento, jantarei minha própria substância, desse modo ficarei saciado à medida que me alimentar (Coriolano IV, II). Parece-me que a nossa grande meta já não é alcançar a felicidade, mas permanecer vivo, ou melhor, escapar da morte! O mal banal a que estamos sujeitos diariamente é ilógico e irracional. A “banalidade do mal” parte do "Australopithecus africanus" (homem-macaco), digo, do "homo sapiens", que não se responsabiliza moralmente pelo que faz. É um irresponsável! E quem se responsabiliza? O homem habitou cavernas, aprendeu a caçar, descobriu o fogo, aprendeu o fluxo das marés, a lógica dos ventos e lançou-se para além do Velho Mundo. É Wilde, o homem pode ser muita coisa, mas não é racional! Aristóteles, o homem está cada vez mais bruto! Riobaldo, você tem razão! “Viver é muito perigoso...”! E “Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...