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                                                                  “O meio é a mensagem”. 
                                                                                                           Marshall McLuhan  

                              
A grande imprensa, no contexto da era pós-industrial, condutora de uma linguagem descontínua e alternativa, encontra na simultaneidade e no fragmentário do jornal impresso  a fonte natural para a criação de novos códigos e de novas formas de comunicação.


Marshall McLuhan observa essa tendência, ao interpretar o conflito dos mídia, em meio à confluência dos modernos e mais avançados portadores de texto (1).  Para o teórico canadense, muito influiu a invenção do telégrafo, sob o modelo de mosaico de notícias, quando então a forma gráfica dos jornais ficou mais próxima da oralidade, rompendo, por conseguinte, com a linearidade e instaurando a simultaneidade em suas páginas. 


Kerckhove já assinala a importância do telégrafo no processo de ligação entre o alfabeto e o computador. Considera o telégrafo “como primeira tecnologia de processamento de informação a reduzir os constrangimentos do espaço e do tempo, através da comunicação instantânea.” (2)


A confluência da linguagem telegráfica com o princípio alfabético guttenberguiano em muito contribuiu para a hibridização dos gêneros, não só nos mídia, mas também  na literatura. Tome-se como exemplo a obra Miramar, de Oswald de Andrade (3): trata-se de um caleidoscópio de 163 fragmentos, que devem ser montados cinematograficamente no espírito do leitor. Ressalte-se que a radicalização oswaldiana  atinge o auge no romance-invenção, Serafim Ponte Grande (4). Provavelmente, sob inspiração do Ulisses, de Joyce (5).  Ao continuar pondo em prática o seu projeto de livro estilhaçado, Oswald passou a construir textos resultantes de resíduos de outros textos. Na definição de Antônio Cândido, (apud Campos, 1977) o Serafim “é um grande não-livro de fragmentos de livro.” (6)  


A TV também tem sofrido modificações no modo de produção, decorrentes do avanço tecnológico que lhe tem permitido construir textos mais complexos, a partir das novas técnicas de reprodução de imagens e de edição.


A linguagem da televisão, inscrita no desdobramento do processo de diversificação da imagem, na era pós-moderna ou tecnológica,  tem como marcas a velocidade, a pulsação e o seqüenciamento nervoso da produção, em busca de um contínuo impacto visual junto ao telespectador. 


 MacLuhan considera a televisão um meio frio de comunicação,  porque absorve todos os sentidos; abrange mais do que a visão e a audição, que eram trabalhados separadamente no rádio e no jornal impresso. Observe-se, por outro lado, a revolucionária transformação da TV, quanto ao caráter da imagem que transmite. Sua imagem, antes analógica, isto é, produzida a partir de dados existentes ou não na natureza, mas que o telespectador os captava e os transformava em algo plasticamente visível,  passa, em sua fase mais recente,  a ser digital. Empregando sistemas mais desenvolvidos de computação, a televisão hoje é capaz de transformar qualquer imagem numa seqüência de pontos conversíveis em números, que podem agora ser manipulados. Para o pensador francês Edmundo Couchot,


Uma imagem numérica é uma mensagem reduzida a números. O computador trabalha esses números e formas, visualiza os resultados por meio de um aparelho de vídeo ou de uma impressora. Pode-se assim reduzir uma imagem por meio da pura elaboração de dados... Não é possível mais basear-se num modelo, num objeto real... Partindo dos dados de um objeto dado, o computador pode produzir uma quantidade quase infinita de imagens. A imagem numérica não é mais a transposição de um modelo determinado, não é mais a reprodução mais ou menos exata de um original, uma duplicata óptico-química como a fotografia, é uma imagem com possibilidades infinitas.(7) 


Em outras palavras, trata-se da imagem de síntese, dita virtual, porque, ao contrário dos processos de captação mecânicos, ela não remeteria ao “real preexistente”. A imagem de síntese é também usada em vidogames, simuladores de vôo, vinhetas, publicidade e em efeitos especiais no âmbito do audiovisual.  A imagem torna-se então uma representação independente do mundo, já que o real propriamente dito, em sua forma primeva, praticamente não existe mais. Essa é sem dúvida uma das mais avançadas técnicas que a televisão passa a utilizar atualmente, principalmente no telejornalismo, conforme o vemos hoje, que se utiliza de algumas estratégias da Internet, como a não-linearidade, a velocidade, e a interatividade (8), sem falar na possibilidade do intercâmbio de linguagens entre mídias impressas e em movimento. 


Veja-se, por exemplo, o Telejornal transmitido pela emissora Bandeirantes, o “BANDNEWS”. Como todo telejornal desse gênero, é produto da inevitável influência que a linguagem de um meio exerce sobre outro, mediante novos dispositivos convergentes de comunicação de natureza híbrida. Como num processo de emulação, em que um instrumento é acoplado a outro, por vezes tem-se a impressão de estar não diante da televisão, mas da capa de uma revista ou da tela de um computador, ou mais precisamente diante da página principal (home page) de um site, cuja configuração hipertextual apresenta uma série de “janelas” e “esteiras rolantes”, como se estivessem interligadas à grande rede, transmitindo informações isoladas, como cotações de bolsas de valores, previsão meteorológica, manchetes de jornais impressos no Brasil e no exterior, tudo isso, independentes das notícias narradas pelo apresentador, que se anula em meio a tanta informação. O próprio slogan “Bandnews: muito mais notícia”, literalmente confirma a intenção do programa, qual seja a de veicular o maior número possível de informações simultâneas, violentando dessa maneira a capacidade de recepção do espectador, que se vê na condição de leitor cyborg  (produto da preconizada fusão entre homem e máquina, vida e tecnologia), ao ter de ler simultaneamente os diversos textos que lhe são mostrados.  

 
Esse espetáculo visual e o exagerado volume de informações deixam-no desorientado,  por não absorver tudo aquilo que lhe é transmitido. A partir daí, caracteriza-se uma relação de interatividade compelida, uma vez que, para acompanhar o noticiário, o espectador terá de selecionar a informação que deseja obter, optando  pela notícia que mais lhe interessa naquele momento. Grosso modo diríamos que esse tipo de noticiário assemelha-se ao hipertexto (9),  pois em tais circunstâncias anula a cadeia linear, e o telejornal passa então a obliterar o conteúdo da informação. Estaríamos diante do que Baudrillard denomina “encenação da comunicação”, que concorre para o esvaziamento da própria comunicação ou para  “a destruição do tempo real, a anulação do raciocínio e da reflexão, a perda da referência de espaço e a conseqüente banalização, com tendência à espetacularização da notícia”. (10)


Essa peculiaridade está em sintonia com o que afirmou o filósofo Guy Debord, em l967:
A sociedade de consumo, apoiando-se nos meios de comunicação de massa, tornara-se a sociedade do espetáculo. Os meios de comunicação de massa são apenas a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz e solitário em meio à massa de consumidores. (11)

Neste mesmo ano,  MacLuhan proclamou que o meio é a mensagem (medium is message, MacLuhan), isto é, só o meio constitui o acontecimento. Diante desse quadro inusitado, para concluir, levantamos os seguintes questionamentos:
 - Até que ponto essa encenação comprometeria o real e a qualidade do programa, uma vez que o excesso de  informação pode obstruir a construção de sentido?
 - Como encontrar alternativas para superar essa tendência de abordagem espetacular e superficial da notícia?
 - Mesmo admitindo que a seleção do material gera a fragmentação, não seria mais correto estabelecer um equilíbrio nessa operação, procurando minimizar o apelo ao extraordinário e ao vulgar?
 - O acúmulo exagerado de imagens e de informações, bem como as mudanças constantes e inesperadas de cenas, na intenção de reter o telespectador diante da tela, não estariam contribuindo para afastá-lo da tela, dado que  menor será o seu interesse em observar as cenas que se apresentam diante de si, em virtude da seqüência entediante de apelos? 
  - Ao invés de comunicar, não estaria o excesso de informação devorando seus própriios conteúdos?


Eis alguns pontos que julgamos oportuno questioná-los, pois se constituem talvez os principais desafios do telejornal de hoje, em que pese o seu papel de porta-voz dos interesses da opinião pública, ao ocupar cada vez mais o espaço das entidades, agremiações, partidos políticos e sindicatos, que no passado constituíam as principais vozes de intermediação entre  a população e o governo, embora, convenhamos, esse trabalho não passe  de  meros eventos midiáticos.

NOTAS

1 – MCLUHAN, Marshall. The medium is the message: An Inventory of Effects. New York: Bantam Books, 1967
2 – KERCHHOVE, Derrick de. A Pele da Cultura, Lisboa, Relógio D’Água, 1997, p. 256 a 284
3 – ANDRADE, Oswald de. Obras completas II: Memórias sentimentais de João Miramar, Serafim Ponte Grande.  Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1975.
4 - ANDRADE, Oswald de. Ibidem.
5 – JOYCE, James. Ulisses. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1983.
6 – CÂNDIDO, Antônio. Apud CAMPOS, Haroldo. Serafim: Um grande não-livro, in Oswald de Andrade, op. cit. p. 107 

7 - COUCHOT, Edmund. In MARCONDES FILHO, Ciro, Televisão São Paulo, Editora Scipione Ltda, 1994, p.21

8 - Interatividade: entendida como capacidade do sistema de acolher as necessidades do usuário e satisfazê-lo. Relaciona-se aos inúmeros ambientes de informação ou interfaces digitais

9 - Hipertexto: tipo de documento digital que permite ligações cruzadas entre diversas partes de um mesmo documento ou através de documentos diferentes. As ligações são realizadas a partir de elos (links) entre os diferentes pontos do sistema hipertextual.

10 – BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Editions Galilée, 1981. p.103 a 112

11 – DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. In ARBEX JR, José. Showrnalismo, a notícia como espetáculo. São Paulo : Casa Amarela, 2000, p. 69/70


 
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