Ao adentrar à livraria começou a ouvir um “happy birthday to you”, em surround, produzido por um equipamento eletrônico sonoro qualquer, seguido de “parabéns” e de um farfalhar de palmas abundantes, vindas de todos os espaços da loja. Olhava para os lados tentando descobrir se era ele o motivo da homenagem. Era. Percebeu ao ver que os monitores das câmeras mostravam seu rosto nas telas, enquanto balões virtuais espocavam, barulhentamente, e as pessoas passaram a cumprimentá-lo, uma a uma. Refeito, constatou que, de fato, aniversariava naquela data: cinquenta anos. Mas como poderiam saber daquilo, se nem o próprio estava lembrando? Era cliente contumaz da livraria, assíduo e compenetrado comprador; todavia, não se lembrava de se, algum dia, fornecera-lhe documento com fotografia de seu rosto; nem de cópia da velha cédula de identidade – na qual, a propósito, somente os muito chegados e íntimos poderiam reconhecer naquele jovem de dezesseis anos, o cidadão madurão em que se transformara – poderia imaginar que a loja dispusesse, haja vista, invariavelmente, fazer negócios ali se valendo de seus cartões de crédito e/ou débito. Acorda, amigo! Disse a si mesmo: o mundo mudou, diminuiu, globalizou-se; ninguém mais se esconde ou é desconhecido, companheiro! As instituições policiais, dada a violência cada vez mais recorrente, facilitavam o acesso aos seus cadastros; praticamente, publicavam-nos. Reclamar? Por quê? Quem não deve, não teme, ainda que trema um pouco, como dizia aqueloutro. Não somente nossas residências andam cheias de câmeras e de outros sensores espiões; nas ruas, praças, avenidas; enfim, nas vias públicas pelas quais transitamos costumeiramente, lá estão semelhantes aparatos tecnológicos. A intenção, não escamoteada, mas também se poderia dizer que sim, é garantir um mínimo de segurança ao cidadão, às instituições, à sociedade, por que não? Por conseguinte, nada mais natural qualquer um ser escaneado em todas as suas dimensões físicas, pesquisado, segregado de um universo global muito maior e, uma vez copiados seus dados físicos, psicológicos, comportamentais, estes serem levados a um específico banco de dados, onde seriam cadastrados, catalogados, depurados por perfis e disponibilizados a tantos quantos os quisessem conhecer ou precisassem deles extrair algo para fins diversos. Era a realidade que estava à sua frente, numa amostragem simplória, porém, não inusitada, tendo em vista que durante as vinte e quatro horas do dia, todos nós somos instados a dar nossa opinião, aceder a uma pesquisa, responder a questionamentos os mais absurdos, negar-nos a atender pedidos ou solicitações estranhas, irritar-nos; também, confirmar, aceitar, conceder, aderir a campanhas publicitárias, chamamentos, convocações, feitos com base em informações que nem imaginamos como tantos conseguiram. Retroagiu, mentalmente, um pouco no tempo e se abismou. O futuro, notadamente, o mais surreal que expectara vislumbrar, deveria chegar bem mais adiante: ele ainda era um neo-jovem de cinquenta anos - que, segundo estatísticas de longevidade, viveria mais uns trinta anos – talvez por isso mesmo a sensação de que a velocidade com que tudo acontecia parecia incompatível com a de que se vale o mesmo tempo para mensurar nossa existência. Questionar a realidade, não, meu velho. Na verdade, os atos e fatos produzidos ao longo do que, equivocadamente, chamara de passado distante, é que haviam conduzido o mundo ao estágio atual. Acerca disso sobreveio-lhe premissa, cuja autoria não poderia precisar, mas que concluía: “todos os atos (e fatos) são causas dos posteriores e consequências dos anteriores”; ou seja, muito ainda estava por vir e por ver, no que não mais ousaria denominar futuro – eis que outros, quem sabe, já o estivessem vivendo, em espaços, lugares ou planos diferentes -; e, aí, nova lembrança acudiu-lhe à mente, na forma, também, de uma expressão, lida, vista ou ouvida de um veículo qualquer de informação: “lembrar ou valorizar o passado é o melhor presente para o futuro”. Frase de efeito? Lugar-comum? Um craque dos contos italianos diz que o tempo envelhece depressa. Após o impacto de realidade a que se submetera, foi-se da loja, de onde, daquela feita, nada levou; sequer se despediu ou agradeceu a todos pela honraria que lhe prestaram. Não, não se julgava um sujeito desinformado, mas somente, utopicamente, lhe era possível imaginar situação como a experimentada. Sabendo-se que passado e presente são fatos, seria o futuro uma abstração, um sonho? Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com>