O canto vinha de longe

De lá do meio do mar
Não era canto de gente
Bonito de admirar
Dorival Caymmi (Caminhos do mar)

Àquela hora do dia, a praia estava praticamente deserta. Viam-se apenas alguns pescadores estendendo redes ou armando varas de pescar. Além deles, gaivotas solitárias voavam sobre o oceano, tentando conseguir, sem muito sucesso, o café da manhã. Era um típico dia de verão: céu azul com uma leve brisa soprando na direção da terra.

Caminhando sozinha pela beira da praia, Laura sentiu uma espécie de reconhecimento. O mar sempre lhe causara aquele tipo de reação, difícil de definir. Aqui se sentia não só revigorada, mas, estranhamente, acolhida.

Uma vez, uma amiga lhe dissera que ela devia ter um lado sereia. Na ocasião achou o comentário muito engraçado: “Sereia?! Que bobagem!” Não acreditava nessas coisas, era tudo crendice. Agora, no entanto, não estava tão certa. Ser sereia – se é que elas existiam mesmo – não devia ser tão ruim assim. Ter todo aquele mar só para si, nadar para onde quisesse, sem se afligir com nada e com ninguém.

Enquanto andava, Laura via as marcas que os pés deixavam na areia. Estavam mais profundas do que em outras épocas de sua vida. Sem querer, lembrou-se do telefonema da noite anterior. Uma voz feminina, aparentando inocência, quis lhe contar o que ela já sabia há algum tempo. Entre aborrecida e assustada, desligou rapidamente, sem esperar que a mulher completasse a primeira frase. Não devia ter atendido.

Ela não estava se escondendo; entretanto, deixara claro que não queria ser perturbada. Desejava ficar sozinha. Era um direito seu. As pessoas não entendiam ou talvez não quisessem entender. Solidão virou doença. Basta querer ficar quieta num canto, simplesmente pensando na vida, para alguém sair dizendo que é depressão. Ela não estava deprimida! Só queria ficar longe do rebuliço, do diz-que-diz, da aporinhação. Era algum pecado? Para certas pessoas, parecia que sim.

Esfregou os pés na areia. Como gostaria de ter uma daquelas doenças nas quais não se consegue lembrar nada, nem do que se comeu no café da manhã. Seria tão mais fácil. Mas talvez as coisas sejam assim mesmo, tudo um truque: é descuidar e o destino te pega, te come, te... E era exatamente daquele jeito que ela vinha se sentido, devorada. Nenhum pedacinho tinha ficado sem ser mastigado. Será que também fora cuspido? Suspirou. Não valia a pena continuar pensando naqueles assuntos. Decidiu decretar, por conta própria, uma espécie de pausa em sua vida. A partir de agora estava fechada para balanço.

Olhou o mar. Lá longe, bem no horizonte, viu um movimento. Talvez fossem baleias. Forçando os olhos procurou ver mais longe. De novo, o mesmo movimento. Prendeu a respiração. “Será uma sereia?”, pensou. Quem sabe, ela a conhecesse e à distância estivesse tentando cumprimentá-la? Com um sorriso, Laura acenou.

De repente, um ruído a trouxe de volta. Demorou para perceber que era o celular. Número não identificado. Desta vez, não atendeu. Preferiu sentar na areia, olhando o mar, na expectativa que sua “amiga” viesse buscá-la para um passeio.