LUCILENE GOMES LIMA

 

 

Ferreira de Castro retoma o discurso de viajantes, cronistas e cientistas sobre a Amazônia à medida que os motivos que compõem a trajetória do protagonista Alberto no seringal são os da confrontação com o meio bárbaro. O enredo do romance termina com a destruição da fonte de injustiça mas também com a possibilidade de Alberto deixar o meio que poderia levá-lo à condição de fera.

            Toda a constituição do enredo se volta para a aprendizagem subordinada à libertação do meio. Alberto perde a soberba ao passar pela experiência do seringal, constatar o sistema de espoliação do trabalho humano ali implantado, mas o mesmo meio que o faz descobrir a solidariedade para com os homens humildes que consomem a vida num trabalho de que não tiram proveito se torna o algoz de todos esses homens e dele próprio. Dando este contorno à obra, o ficcionista segue uma tendência do romance naturalista, destacada por Brayner:
 
Reduzindo todos os homens a uma mesma fórmula – criaturas dominadas pelo meio, raça e momento – o romancista naturalista parte sempre do princípio mestre que todos os homens são fundamentalmente iguais. Não importa a classe social a que pertençam e nem mesmo o grau de cultura a que se liguem; submetidos ao ambiente e às paixões instintivas, agem todos de forma idêntica [...].[166]
 
            A selva significa essa redução da personagem protagonista que chega ao meio desconhecido como um ser distinto perante os outros. É estudante de direito enquanto os demais recrutados não possuem instrução; leva para a barraca livros entre seus pertences ao passo que os demais muitas vezes além das roupas do corpo levam apenas as ferramentas básicas aviadas pelo seringalista; é moço fino, não adaptado para o trabalho grosseiro de penetração na mata e corte das seringueiras e os outros, seres rudes dos quais se espera adaptação ao meio. Entretanto, o meio irá igualar o protagonista no decorrer da narrativa aos outros. O cerne desse momento se estampa na passagem do romance em que o protagonista, ao se olhar no espelho, não vê sua fisionomia atual, mas o mesmo rosto embrutecido, animalizado dos homens com os quais labutou outrora nas estradas de corte. A única chance que se apresenta à não capitulação ao meio é deixá-lo, fugir de sua barbaria em busca da civilização. Essa é a ambigüidade da realização social do romance: documentar as relações econômicas que promovem o ciclo e, ao mesmo tempo, apresentar uma justificativa determinista, fatalista, para essas relações.
 
Beiradão: a percepção de um escritor nativo sobre o ciclo
 
            A prerrogativa de escrever sobre o “ciclo da borracha” tendo sido testemunha ou partícipe do processo dá-se com alguns escritores. Entre eles, incluem-se Ferreira de Castro, Humberto de Campos, Alberto Rangel, Carlos de Vasconcelos e Álvaro Maia. As experiências de Ferreira de Castro e Humberto de Campos os situam no barracão, executando as tarefas do dia-a-dia que ali se faziam necessárias. O primeiro fazia pequenos serviços não tendo, segundo Jaime Brasil, trabalhado na estrada de corte por ser ainda muito jovem. O segundo foi gerente de seringal. Quanto a Alberto Rangel e Carlos de Vasconcelos, executaram como engenheiros serviços de demarcação de terras, o que lhes possibilitou também um contato com os seringais.