A cordilheira serrana que vem do planalto central em rumo do norte separando a bacia do S. Francisco da bacia do Tocantins, a certa altura se abre ao meio formando um ipsilon em que uma vertente derreia para o leste direcionando o curso do rio S. Francisco e outra derreia para o oeste direcionando em sentido contrário o curso do rio Tocantins. Eis aí o fator determinante do direcionamento das águas do norte do Brasil.  Para trás ficam os campos cerrados do Brasil Central e numa vertente as primeiras manifestações da floresta amazônica ao passo que na outra vai se encontrar os primeiros sinais da caatinga nordestina. No vértice desse ipsilon vão surgir as primeiras águas que formam o rio Parnaíba, de cujas vertentes da cordilheira serrana que se abriu vão correr as águas dos diversos afluentes que o engrossarão ao longo de seus 1.700km de curso. Do lado de fora desses vértices outras águas vão formar novos afluentes das duas primeiras bacias hidrográficas, às vezes com nascedouro comum interligando-as. Por essas razões na bacia intermediária do Parnaíba vai se encontrar espécimes vegetais das três grandes vegetações brasileiras, sendo mesmo a barra do Gurgueia com o Parnaíba, verdadeiro marco de vegetação donde vai se encontrar as primeiras manifestações da exuberância amazônica em contato com a vegetação de cerrado. Pois, essa interligação de bacias e a variedade vegetal vai determinar a bacia parnaibana como grande corredor de migrações entre as diversas tribos indígenas que demandavam de uma região para outra. Mais tarde, esse caminho vai ser continuado pelos retirantes nordestinos que do sertão agreste buscam os vales úmidos do norte.

Mercê desse fenômeno migratório, no brasil pré-lusitano quase uma centena de nações indígenas vai residir no vale parnaibano, com cerca de trezentas mil almas. Viviam primordialmente da caça e da pesca, ajudados por uma agricultura rudimentar em que cultivavam algumas culturas a fim de não deixarem ao acaso a sobrevivência diária de seus membros. Às vezes entrava em guerra uma nação contra outra em disputa dum rio mais piscoso ou duma mata de fauna mais rica, onde pastavam as manadas de caitetus, veados, antas, capivaras, cotias, pacas, tatus e outras espécies da rica fauna parnaibana. Todavia, até o século XVII o curso desse rio vai ser desconhecido para os conquistadores lusitanos, se acreditando, por informações dos índios do litoral, que o mesmo nascia em uma grande lagoa rica em pérolas.

Esse desconhecimento do rio piauiense vai se refletir em sua primeira denominação, Rio Grande dos Tapuias. Rio Grande, porque era o maior desaguadouro da costa entre o Maranhão e Pernambuco, a ser avistado pelos navegantes. Dos Tapuias, em face dos índios Tremembés que desciam em canoas a mariscar em sua foz. Mais tarde foi também designado Pará, Parauaçu, Punaré, Paraguaçu e, por fim, Parnaíba, em homenagem aos paulistas de Santana do Parnaíba que aqui fincaram raízes. O ano em que se descobriu sua foz não se sabe ao certo, mas foi designado Ano Bom, daí o delta parnaibano ter ficado conhecido durante os primeiros anos como Baía do Ano Bom.

Na verdade, outros europeus que não os portugueses iniciaram o comércio pelo Rio Grande dos Tapuias ainda em meado do século XVI, através de aliança com índios Tapuias da nação Tremembé. Por essa razão, o Rio Grande dos Tapuias, mais tarde designado Parnaíba, vai ser uma importante via comercial, principalmente utilizada pelos franceses, que em troca de ferros, roupas, espelhos e algumas bugigangas levavam âmbar e pau-violeta, entre outros produtos vegetais e animais. Para isso, os Tremembés, seus principais fornecedores, se aliaram a índios do interior servindo de intermediários e se fortalecendo como grandes parceiros de franceses e de outras nações indígenas. Sobre esse assunto muito ainda há de ser pesquisado, inclusive na França, para se estabelecer o grau de intensidade desse comércio, a influência que exerceu sobre as tribos que dele participaram e a consequente dificuldade que possa ter trazido para a ocupação colonial portuguesa no litoral piauiense, retardando-a de forma a atrasá-la em relação ao sul da mesma bacia hidrográfica. Por seu turno, os franceses estacionavam em frente ao delta, ou Baía do Ano Bom, com seus navios de honesto porte, de onde prosseguiam rio a dentro por algumas léguas em busca dos diversos produtos estocados pelos tapuias Tremembés, por si e/ou comprados de outras tribos do interior, em caravelões da costa. Faziam “muito boa colheita”, segundo informa o cronista Gabriel Soares de Souza. Até onde navegavam os franceses rio acima é questão ainda não descoberta, entretanto, não se pode esquecer que os Tremembés tinham influência até a foz do Poti, hoje Teresina, onde viviam seus parentes Aranhis, e por esse afluente acima os também parentes Potis e Crateús.

Esses fatos todos demonstram que os Tremembés se tornaram grandes aliados dos franceses, não sendo descabido, portanto, que alguns deles possam ter visitado a França a fim de fortalecer as relações comerciais, assim como ocorreu com os Tupinambás do Maranhão. De qualquer forma essas notas pontificam o rio Parnaíba, outrora Rio Grande dos Tapuias, como corredor de contrabando. É assunto que merece maior investigação.

(Artigo publicado no jornal Meio Norte, coluna Academia, edição de 02.11.2007).

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*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico e Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.