REVENDO DANIKEN

Miguel Carqueija

           

            Não deixa de ser um acontecimento voltar a ler um livro de Daniken após tantos anos. Ele teve a sua época, embora não tenha sido o primeiro (mais ou menos junto com Arthur C. Clarke) a propor que a humanidade haja sido criada por seres extraterrestres via manipulação genética. Semelhante tese deixa em branco uma questão óbvia: então quem criou esses misteriosos extraterrestres?

            Note-se que essa pergunta é muito diferente daquela tolice ateísta, “quem criou Deus?”. Afinal, sendo Deus eterno e todo-poderoso, não pode ter sido criado. Mas a coisa muda de figura quando se trata de alienígenas.

           

“Viagem a Kiribati”, por Erik von Däniken. Subtítulo: “Aventuras entre o céu e a terra”. Círculo do Livro, São Paulo-SP, s/d. “Título original: “Rein nach Kiribati”, Econ Verly Gneb H, Düsseldorf (Alemanha Ocidental) e Viena (Áustria), 1981. Tradução: A.J. Keller. Capa: foto de Eduardo Santaliestru.

 

            O livro é uma coletânea com sete artigos e investigaões do autor suíço em vários pontos do mundo pelo fim da década de 80. É interessante e eu não nego que alienígenas tenham estado na Terra no passado remoto e entrado em contato com nossos antepassados, apesar de que nada existe de conclusivo nas diversas viagens exploratórias aqui narradas. Onde Däniken derrapa miseravelmente é quando ele dá de falar sobre religião (assunto do qual ele nada entende), reinventando o Cristianismo. Para isso ele vai na Caxemira buscando uma suposta “sepultura de Cristo”, que comprovaria não ter havido ressurreição. Ele fala com certo Professor F.M. Hassnain, que, sobre a veracidade de tal túmulo, chega a afirmar: “A série de provas está completa. Qualquer tribunal do mundo as aceitaria sem reparos!”

            Apesar dessa enormidade Däniken apenas descobre um túmulo fechado, que não é permitido abrir. Por aí se vê como é fácil lançar dúvidas nas mentes fracas! Anos depois surgiria o “Código Da Vinci”...

            A tosquice das ideias de Däniken o leva a por no papel essa asneira:

            “A Bíblia diz que um legionário romano abriu o flanco de Jesus com uma lança, constatando que da ferida saíram sangue e água. Portanto, Jesus não estava morto.”

            Ele sequer localiza o texto bíblico! Ora, ainda que fosse possível sobreviver à cruz, o caso de Cristo é bem outro, tal o exagêro dos maltratos que lhe foram infligidos desde a véspera, inclusive sem que lhe dessem água e alimento. E se saiu água junto com sangue por aí se vê que o caso era mesmo de morte, já que além dos cravos e da coroa de espinhos foram aplicados milhares de golpes por açoitamento.

            Em texto verdadeiramente delirante o autor chega a dizer que Jesus conversou (sic) com Saulo (São Paulo) na estrada para Damasco, onde Jesus teria conseguido “convencer o romano”. É ignorar o conteúdo do texto dos Atos dos Apóstolos (cap. 9, 1-9), pois Jesus não apareceu em pessoa, falou com Saulo mediante uma teofania e mais, tendo caído do cavalo, Saulo ficou temporariamente cego. Däniken ainda diz mais adiante que Saulo foi crucificado de cabeça para baixo, confundindo São Paulo com São Pedro!

            Qual o valor de semelhante argumentação?

            Curiosamente a melhor coisa que achei no livro foi um pequeno parágrafo no capítulo final que fala em pesquisas no Peru:

            “Com excesso de velocidade, passam os ônibus que levam turistas para Nazca, presenteando-os certamente com um resfriado — uma vez que ninguém consegue escapar da corrente de ar condicionado. Seria muito melhor suar um pouco; mas todo mundo faz questão desse maldito conforto.”

            Concordo plenamente com Däniken. Ar condicionado é uma verdadeira maldição.

 

Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2017.