Carlos Evandro Martins Eulálio 

Na moderna ficção brasileira, em que pese a revolução formal introduzida no código linguístico literário por Guimarães Rosa, e de sua consequente evolução até os nossos dias, constatamos, ainda, a coexistência de duas correntes que constituem as duas tradições bem nítidas da literatura brasileira: a corrente neorregionalista e a corrente psicológica ou introspectiva. É na primeira que situamos Fontes Ibiapina.

Podemos destacá-lo como um dos autênticos herdeiros do Neorregionalismo de 1930. Na sua produção literária, o cenário predomina sobre o homem, seja o ambiente da zona rural, com seus problemas geográficos e sociais e aí despontam obras como Pedra Bruta, Tombador, Sambaíba, seja o meio urbano, ressaltando aspectos da classe média e do proletarismo como em Palha de Arroz, romance consagrado, e seu livro de contos, Quero, Posso e Mando.

A narrativa ficcional de Fontes Ibiapina é vasta e dispersa nas várias modalidades de produção: conto, romance e teatro. O conto é sem dúvida a mais autêntica e melhor forma de expressão literária do autor. Neles destacamos não só a reconstrução e resgate do mundo sertanejo, evocando costumes e cenas regionais como em “Trinta e Dois” e “Brocotós”, mas também o quase documento folclórico, como em Passarela de Marmotas, onde vemos um desfilar de episódios curiosos, centrados em nossos duendes mais representativos: Lobisomem, Mula-sem-cabeça, Cabeça-de-cuia, Saci-pererê etc. nos quais se revela o conhecedor profundo das crendices e superstições de nosso povo interiorano. Mentiras Grossas de Zé Rotinho, por exemplo, consta de 23 contos populares enfocando o folclore piauiense. Sua Paremiologia Nordestina reúne, no dizer de Fontes, “adágios, rifões, brocardos, anexins, parêmias, máximas, ditados, expressões, comparações, relaxos, paleios, chulos... e o diabo a quatro pelo avesso de pernas para o ar do linguajar do caboclo nordestino duma figa.”

No romance, Fontes adota a técnica realista-documental. Tombador e Sambaíba revelam um autor memorialista, identificado com a região em que nasceu e viveu sua adolescência. “As redondezas dos Picos”, servem de cenário, ressaltando nesses textos os problemas geográficos, políticos e sociais da segunda metade do século dezenove e começo do século vinte. Palha de Arroz é o romance mais divulgado de Fontes Ibiapina. O cenário é Teresina, na década de 1940, fins da ditadura de Vargas. Trata-se de um clássico documentário urbano-social realista. É um romance de época, pois nele o autor procura resgatar a situação da classe proletária que morava em casas de palha nos principais bairros pobres de Teresina: Palha de Arroz e Barrinha, principalmente, atingidos misteriosamente pela onda de incêndios, ainda hoje questionadas as suas causas e consequências, por historiadores e escritores. A narrativa tem como protagonista Francisco Clemente Porciúncula, familiarmente conhecido por “Chico da Benta” e vulgarmente batizado por um policial com o apelido de “Pau de Fumo.” Chico da Benta estudou no Diocesano, até o 4º ano do ensino médio (antigo ginasial). Por isso entendia de geografia, história, política e sociologia. Ainda na adolescência perdeu os pais. No mundo do subemprego passou a conviver com marginais e prostitutas, entregando-se à prática do furto. Diverso de Pau de Fumo é o destino de outro personagem que ganha destaque na obra. Trata-se do negro Parente, que deixa o Piauí e migra para o sul. Mas o romance não se detém apenas nesses episódios. É uma obra aberta à pesquisa sobre uma época de grandes acontecimentos políticos e sociais de Teresina, sendo testemunha do início do processo de urbanização da cidade. Tudo isso em estilo simples e sem convencionalismos, expresso numa linguagem que é produto do contato direto com o nosso meio e de uma extraordinária experiência de vida. Por essa razão é que Fontes Ibiapina recupera com espontaneidade em suas páginas literárias o registro coloquial, típico do sertão nordestino, entremeado de modismos, com acentuada tonalidade humorística. Para concluir nossa leitura, vale destacar esta passagem de grande riqueza visual e de rara sensibilidade lírica:  

Era uma lua bonita!... Palha de Arroz, tranquila, parecia um arraial antigo dentro da madrugada. Lá no meio do céu, redonda e bonita, a lua parecia um disco. Um disco cantando uma canção. Uma canção que poetas não escreveram nem músicos compuseeram...” (Palha de Arroz)

 
 
        Carlos Evandro Martins Eulálio é professor e crítico literário

Literatura Piauiense para o vestibular em colaboração com Cineas Santos e Herculano Moraes, Edições Corisco, Teresina, 1979"