O Piauí perdeu na manhã da última sexta-feira, 15 de junho, um de seus filhos mais ilustres, o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana. Foi ele um pensador irrequieto, um incentivador de grandes iniciativas, um realizador notável, enfim, um intelectual com larga folha de serviços prestados à sua terra e ao seu povo. Nesse aspecto deixa uma lacuna irreparável no meio intelectual piauiense.

Raimundo Nonato Monteiro de Santana, nasceu na aprazível cidade de Campo Maior, vale do Longá, em 27 de fevereiro de 1926.

A infância viveu na terra natal, no aconchego do lar paterno, entre a frequência à escola primária e as brincadeiras, nas horas vagas, pelos lagos e igarapés que entre os vastos campos e carnaubais verdejantes circundam aquele burgo sertanejo. A adolescência foi em Teresina, para onde veio continuar os seus estudos, matriculando-se no Colégio Diocesano “São Francisco de Sales”. Ali, no curso ginasial dirigido pelo rígido monsenhor Cícero Portella Nunes, foi colega de turma e fez amizades que perduraram pela vida toda, com colegas de geração, entre os quais M. Paulo Nunes, Afrânio Nunes, Lucídio e Petrônio Portela, Sebastião e Raimundo Leal, entre tantos outros.

Mais tarde, segue para Fortaleza, matriculando-se no curso jurídico da Faculdade de Direito do Ceará. Aluno ativo e inteligente, fez política estudantil, chegando a eleger-se secretário-geral da União Nacional dos Estudantes(UNE). Recebeu o pergaminho de bacharel em 1949, com 24 anos incompletos.

Retornou, então, a Campo Maior com um discurso inovador que foi bem recebido pela juventude, comerciantes e setores urbanos e independentes da cidade. Não tardou para aquele jovem advogado ser lançado pelo povo para concorrer nas eleições que se travariam em outubro de 1950, para a prefeitura da cidade, contra o forte esquema do senador Sigefredo Pacheco, então chefe político local. Movimentou-se a cidade numa batalha memorável, de que saiu vitorioso aquele jovem, para sensação de todo o Estado, que recebeu com surpresa o veredicto das urnas. Prefeito de uma das mais importantes cidades do Piauí, nascia assim uma nova e promissora liderança política. A pouca idade e inexperiência administrativa não o impediu de realizar profícuo governo, de que ainda hoje, tantos anos decorridos, guarda memória a cidade. Porém, a pedido da jovem esposa, dona Magnólia Paranaguá, por ele carinhosamente chamada Magui, que não se adaptou aos entreveros da luta partidária, abandonou a promissora carreira política ainda em seu alvorecer, com o fim do mandato, em 31 de dezembro de 1955.

Foi quando fixou residência em Teresina, iniciando magistério no Liceu Piauiense. Em seguida, depois de lograr êxito em brilhante concurso de provas e títulos, ingressou no quadro docente da Faculdade de Direito do Piauí, onde assumiu a cátedra de Economia. Mais tarde, foi um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí, que encampou a Faculdade de Direito, onde prosseguiu no magistério superior.

Paralelamente a essa atividade no magistério, fazia estudos profundos e incentivava a atividade cultural no Estado. Para isto fundou em 1957, o Centro de Estudos Piauienses e em 1960, o Movimento de Renovação Cultural do Piauí. Foi um tempo de efervescência cultural, fazendo editar a revista Econômica Piauiense, para divulgar as ideias e estudos que realizava. Foi ele o grande incentivador e editor das primeiras obras de Odilon Nunes, partícipe ativo daquele grupo, que tanta novidade trouxe à nossa historiografia. Mais recentemente, criou a Fundação de Apoio Cultural do Piauí(FUNDAPI).

Em seu curriculum consta ainda ter-se diplomado em Economia Política e Sociologia, no ano de 1959, pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros(ISEB), criado em 1955, no Rio de Janeiro, com o objetivo de estudar, ensinar e divulgar as ciências sociais.

Por algum tempo lecionou também na Universidade de Brasília e na Escola Superior de Guerra.

Dada a sua capacidade intelectual e dinâmica de suas atividades culturais, foi chamado a exercer diversos cargos no Estado, entre os quais: vice-diretor do escritório regional da SUDENE e diretor da Comissão de Desenvolvimento do Estado (CODESE), embrião da futura Secretaria Estadual de Planejamento, onde desenvolveu notável trabalho.

Batalhador incansável pelo desenvolvimento econômico e cultural do Piauí, em 1967, com a ampliação do quadro efetivo, foi chamado a ocupar a cadeira 32, da Academia Piauiense de Letras, de que tomou posse em 18 de dezembro daquele ano. Era o justo reconhecimento de sua militância no desenvolvimento do Estado. No biênio 2000-2001, presidiu esse Sodalício, ali realizando uma das mais profícuas administrações. Por fruto de convênio com o Banco do Nordeste, promoveu ciclos de debates e palestras sobre assuntos diversos, inclusive sobre desenvolvimento econômico, editou a revista literária e uma coleção de dez obras, além de quinze fascículos de figuras notáveis do Piauí, este último em parceria com o Sistema Meio Norte de Comunicação.

Foi também membro do Conselho Estadual de Cultura e do Instituto Histórico e Geográfico piauiense.

De sua bibliografia constam obras cujos títulos dizem de suas ideias efervescentes em favor do desenvolvimento de sua terra: O desenvolvimento econômico nacional na teoria econômica geral, tese (1959); Aspectos de uma ideologia para o desenvolvimento; Introdução à problemática da economia piauiense (1957); A história da obra de José de Alencar; A evolução histórica da economia do Piauí (1964); Vale do Longá e perspectiva histórica do Piauí (1965); e, Piauí: formação, desenvolvimento, perspectivas (1995).

O Professor Santana, como carinhosamente lhe chamávamos, era uma figura extraordinária. Entre nós existia amizade recíproca. Foi ele a primeira pessoa que convidou-me para ingressar na Academia Piauiense de Letras. Mais tarde, liderou um grupo de amigos que lançou-me à presidência da Casa, de que colocou seu nome à disposição para a vice-presidência. Administramos juntos a Academia. Certa feita, em sua residência, a convite seu, depois de longa conversa sobre temas culturais, me chamou à sua biblioteca e mostrou diversos livros, entes os quais toda a minha obra devidamente encadernada, o que demonstra o apreço que à mesma dedicava. Fiquei lisonjeado.

No entanto, infelizmente desde alguns anos esse nosso amigo se afastara das nossas conversas e reuniões semanais na Academia, vítima do mal de Alzheimer. Fez falta. E como faz! A sua palavra segura era um norte para todos nós, que tanto lamentamos a sua perda. Na sessão de sábado, seu amigo de geração, M. Paulo Nunes, teceu-lhe o perfil e relembrou a memória em preito de saudade e admiração. Você partiu para o outro lado da existência, velho amigo, mas sua obra ficará para sempre como testemunho de seu trabalho incansável e de seu amor ao Piauí. Seu nome permanecerá imperecível nos seus livros, na sua descendência e em nossos corações. Fique bem. Que Deus o acompanhe!

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* REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br