Devaneios literários (crônicas)

1ª edição

Autora: Mariana Collares

208 páginas

ISBN 9788580450385

Bookess

 

Por Geraldo Lima

 

Creio que ninguém mais, em sã consciência, considera a crônica um gênero menor. Querer, por exemplo, confrontá-la com o romance para justificar a superioridade deste em relação a ela já não cabe mais. Ela, como qualquer outro gênero literário, apresenta características próprias que lhe dão relevo e vitalidade. Dentre essas características que lhe dão vida própria, destaca-se o fato de ela tratar, geralmente, de assuntos circunstanciais, fazendo uso de uma linguagem leve, sem rebuscamentos. Foi assim que cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, para ficar só nesses dois mestres, deram à crônica o status de grande literatura. E é assim também que a escritora Mariana Collares procede no seu belo ‘Devaneios literários’, livro de crônicas publicado pela Bookess, em 2011.

O cronista deve ser, em primeiro lugar, um grande observador do cotidiano, percebendo aqueles detalhes que escapam à maioria dos mortais. Essa característica Mariana Collares apresenta com sobra. Ela tem um senso agudo de observação da vida cotidiana, e traduz isso em textos leves, mas que não deixar escapar a visão crítica e o senso de humor, dois ingredientes fundamentais na composição da crônica. Cito, para exemplificar o que acabo de dizer, duas crônicas presentes em ‘Devaneios literários’ (a primeira abre o livro e a segunda o fecha): “Notinhas do Fórum Social Mundial” e” Yoga para principiantes”.

Na primeira, em que predomina o diálogo, a autora nos mostra uma situação paradoxal: um freguês, participante do Fórum Social Mundial, entra em um restaurante e pede um chimarrão, mas é informado pelo garçom de que naquele estabelecimento não se vende tal produto. O espanto do freguês e a graça surgida a partir daí é porque a cena se dá em Porto Alegre. “– Mas como assim? Não estamos em Porto Alegre, a capital dos gaúchos, terra do chimarrão?”, indaga perplexo o freguês.  E fica ainda mais perplexo ao descobrir que naquele estabelecimento, que deveria apresentar em seu cardápio primeiramente os produtos da região, não se vende nem cafezinho. “– Você quer dizer que estamos no Brasil e não tem nem café?”, escandaliza-se o participante do Fórum Social Mundial. (E aqui podemos perceber uma característica dos textos de Mariana e, obviamente, da sua personalidade: a coragem de expor situações e temas sem medo de desagradar os outros. Satiriza, como se pode observar nessa crônica e em outras, comportamentos próprios dos seus conterrâneos sem perder, no entanto, o senso de humor.) Na segunda crônica, bem curta, como que ouvimos uma voz dando as coordenadas de um exercício de yoga. É, sem dúvida, a voz da professora ou do professor de yoga. Não há, no texto, senão esses comandos ditados pela voz. E onde reside a graça dessa situação? Na ligação entre o título (Yoga para principiantes) e a última frase do texto: “Ai, meu Deus, desmaiou”. A autora nos leva, nesse caso, a preencher as lacunas deixadas pela voz que apenas orienta os exercícios de yoga. Logo, vemo-nos imaginando que tipo de pessoa seria aquela que acabou de desmaiar, ou que tipo de reação a cena teria provocado nos demais alunos, caso houvesse outros no recinto. Não há como não se deixar envolver pelo riso e pela imaginação.

Sabemos que o espaço privilegiado da crônica é o jornal. Por isso ela traz essa marca da precariedade das matérias jornalísticas. Segundo Jorge de Sá, no seu livro ‘A crônica’ (Editora Ática), “A aparência de simplicidade, portanto, não quer dizer desconhecimento das artimanhas artísticas. Ela decorre do fato de que a crônica surge primeiro no jornal, herdando a sua precariedade, esse seu lado efêmero de quem nasce no começo de uma leitura e morre antes que se acabe o dia...”. Mas quando o cronista resolve colocar em livro as crônicas publicadas anteriormente no jornal (hoje, podemos falar de blogs e sites também como espaços onde a crônica aparece em primeira mão, e é nesse espaço virtual que surgem as crônicas de Mariana Collares), a coisa muda de figura: o que se pretende, agora, é tornar mais duradouro o que se pretendia apenas transitório. É assim que devemos analisar o ‘Devaneios literários’ da gaúcha Mariana Collares. O livro fecha-se num conjunto de textos que ganham vida e fôlego para sobreviver para além do suporte no qual apareceram inicialmente. São textos marcados ora pela espontaneidade da narrativa sem firulas, ora pela poesia, pelo lirismo, ora pela reflexão mais aguda, mais tensa. A qualidade do livro reflete-se tanto no conteúdo das crônicas quanto na destreza com que a autora as molda. Faço apenas uma ressalva, e talvez aí entre um dado subjetivo: não me agrada o título usado pela autora. Lembra-me certos livros de péssima poesia e textos passadistas, sem nenhuma conexão com a literatura contemporânea, o que não é o caso desse belo livro de Mariana Collares.

(Texto publicado, originalmente, no site O BULE)