[Domingos Pelegrini]

         - Oi, amiga, nova por aqui?

⠀⠀⠀⠀- É, chegando. Lugar gostoso, né?

⠀⠀⠀⠀- Demais. De dia a gente vai pro campo beber água de bica, que a dos riachos dá nojo, e comer fruta, bicar sementes, noitinha a gente volta aqui pro bosque.

⠀⠀⠀⠀- Pois é, um bosque no centro de cidade, cercado de prédios!

⠀⠀⠀⠀- Que nos protegem dos ventos.

⠀⠀⠀⠀- E também tem muitas árvores altas, hem, dá pra ter ninho bem longe dos bichos.

⠀⠀⠀⠀- Não tem bichos aqui, nem gambá nem quati, nem perereca tem mais, só dá pomba neste bosque.

⠀⠀⠀⠀- Sem inimigo nenhum? É um paraíso!

⠀⠀⠀⠀- Porém tem gente.

⠀⠀⠀⠀- Mas o que podem nos fazer lá de baixo?

⠀⠀⠀⠀- Não sei o que poderão fazer mais, mas já fizeram de tudo. Armadilhas, barulho, luzes, repelente, mas só fomos ver que tudo isso era contra nós quando lambuzaram galhos com uma pasta grudenta. Daí entendemos: eles estão em guerra contra nós!

⠀⠀⠀⠀- Então eles detestam pombas! Mas porque?!

⠀⠀⠀⠀- Por causa do cocô, acredita? É, eles não fazem cocô, pelo menos daqui nunca vi nenhum fazendo, e querem que pomba também seja assim!

⠀⠀⠀⠀- É, ainda sou nova mas já sei que gente é muito esquisita.

⠀⠀⠀⠀- Então ouça uma velha pomba. Este bosque é um ótimo lugar mas sujeito a ataque a qualquer momento. Já usaram até uma máquina de fazer barulhinho pra endoidecer pomba, coisa muito chique, mas nós cobrimos de cocô e acabou.

⠀⠀⠀⠀- Que horror!

⠀⠀⠀⠀- Já amanhã quem sabe o que podem inventar. E cuidado com o que come, uma pomba mais velha diz que botam na comida uma coisa que não deixa pomba procriar. Confie apenas nesses que vem nos dar comida desde sempre, agora eles vem de madrugada escondidinhos. Tento entender, uns nos detestam e outros nos amam.

⠀⠀⠀⠀- Então peço ajuda, velha amiga, me avise de algum novo perigo.

⠀⠀⠀⠀- Ah, tem um que nem dá pra avisar. De repente, bum!

⠀⠀⠀⠀- Bum?

⠀⠀⠀⠀- Lançam estouros, soltando fogo das mãos, e no alto explodem as tais bombas.

⠀⠀⠀⠀- Porque chamam assim, porque é coisa contra pomba?

⠀⠀⠀⠀- Não, usam nas festas ou pra futebol. Mas, se estouram perto dos ninhos, goram os ovos!

⠀⠀⠀⠀- Que horror! Já não sei se fico por aqui, afinal quero ter meu pombo e minhas pombinhas. Mas porque me olha assim?

⠀⠀⠀⠀- Pensando... se essa guerra não será por excesso de pombas aqui.

⠀⠀⠀⠀- Credo! Vai querer excluir?!

⠀⠀⠀⠀- Ou defender, é, defender o ambiente. Pombo demais só traz problema.

⠀⠀⠀⠀- Mas cadê a solidariedade columbina?!

⠀⠀⠀⠀- Antes de tudo a própria vida! Se não tivesse tanta pomba aqui, não tinha tanto cocô e...

⠀⠀⠀⠀- Então também vai querer que pomba não mais faça cocô?!

⠀⠀⠀⠀- Não falei isso, você torceu minhas palavras!

⠀⠀⠀⠀- Como tenho vontade de torcer teu pescoço, sua velha gorda elitista defensora de privilégios!

⠀⠀⠀⠀- Defensora da vida, isto sim! Aqui já tem cocô demais até pra pomba, vaza!

⠀⠀⠀⠀- Vou é à luta! Daqui ninguém me tira! E já vou catar graveto pra fazer ninho!

⠀⠀⠀⠀- Depois vai dizer que não avisei. E não faça ninho acima do meu! Sabe porque, né?