Menaggio é uma pequena vila da região da Lombardia, bispado de Como, ducado de Milão, na Itália, próxima à fronteira com a Suíça. Fica situada às margens do Lago di Como, entre as majestosas montanhas dos Alpes e verdejantes colinas que inebriam a visão dos visitantes. Foi neste aprazível recanto da Europa, que chorou pela primeira vez uma criança que iria fazer história no império lusitano e na Igreja católica. Rebentou para a vida em 18 de setembro do recuado ano de 1689. De família cristã, receberia na pia batismal o nome do anjo Gabriel. Naquele dia encheu-se de alegria a casa de seus genitores, o médico Jácome Malagrida e sua jovem esposa, Ângela Rusca, ambos oriundos de antigas famílias lombardas, com longa tradição católica. Eram cristãos velhos.

Estudou o ensino básico na vila natal, onde entrou no seminário aos 12 anos de idade. Mais tarde, seguiu para Milão, estudando Teologia e Filosofia, na Faculdade Helvética. Concluindo, porém, esses estudos em Gênova, para onde se mudara, ali ingressou na Companhia de Jesus, a 27 de setembro de 1711. Possuía apenas 22 anos de idade e desde criança dera provas de engenho e de tendência ao misticismo.

Dez anos depois, esse padre jesuíta deixou a cidade de Gênova com destino ao Novo Mundo, onde se dedicaria a missões evangelizadoras. Chegando à cidade do Maranhão, em 1721, os Superiores da Companhia de Jesus o designaram para pregar, em cujo ofício destacou-se por dizer com eloquência mensagens que caíam fundo no sentimento do povo. Em 11 de outubro de 1723, foi nomeado pregador do Colégio do Pará e ali encarregado da educação dos alunos. No entanto, intermitentemente a essa ação apostolar não descuidou de sua verdadeira vocação, que o trouxera para o Novo Mundo, passando a missionar em Belém e nas aldeias circunvizinhas.

De retorno ao Maranhão, foi designado para reitor da Missão dos índios Tabajaras, no Ceará-Grande. Então, penetrou o território piauiense pela primeira vez, atravessando-o no centro-norte, de oeste a leste, no ano de 1724, para domiciliar-se na cumeada da Serra de Ibiapaba, onde se situavam aquelas missões jesuíticas. Ali se demorou por três anos, evangelizando o ameríndio aldeado e fazendo novas incursões pelo sertão, levando a palavra de Deus às nações incultas e conquistando novos fiéis, às vezes, com risco da própria vida, em face dos perigos que lhe apareciam e que os afrontava intrepidamente. Em sua pregação tudo eram milagres, prodígios e vozes misteriosas que o avisavam do futuro, pois julgava-se um favorito do céu. Nesse período, esteve pregando no vale do Berlengas, bacia do Poti, inclusive na Missão dos Aroases. É o primeiro registro de sua ação apostolar no Piauí.

Durante o ano de 1727, esteve regendo a cadeira de Belas Letras no colégio dos jesuítas, na cidade do Maranhão, para onde retornara por ordem dos superiores.

No entanto, no ano seguinte voltou a catequisar indígenas, conseguindo o elogiado feito de missionar algumas aldeias dos ferozes Barbados, no vale do rio Itapecuru (Maranhão), cuja missão teve grande desenvolvimento. Esse fato foi assaz comemorado pelo governo, que exaltou seu ardentíssimo zelo e piedade cristã, além do destemor, sobretudo depois daqueles bárbaros, em tempos de paz, terem matado o venerável padre João de Avelar. Em agosto de 1729, com a ajuda dos Barbados tentou missionar outras nações, segundo escreveu, tendo encontrado uma “tão perto e nas entranhas deste Estado, e tão desconhecida aos portugueses; porém, achei tão bárbara de língua e de trato, que tratando-nos como capitais inimigos, sem nunca poder entendê-los, nem ser entendidos, ainda que os convideis em três línguas, responderam com boas flechadas aos sinais de paz, que lhes mandei dar pelos meus Barbados; como foi preciso pagá-los na mesma moeda e puxar do juiz defensivo”. Nesse confronto foi cercado com grande furor por aqueles bárbaros, de que romperam o cerco em duro confronto, lamentando ele não ter podido avançar nas tratativas de paz. Logo mais pediu ao governador uma escolta de vinte soldados, para o acompanharem em novo descimento que pretendia fazer de mais uma aldeia dos Barbados e Acoroás, que infestavam os já aldeados (AHU. ACL. CU 009. Cx. 15. D. 1526; Cx. 17. D. 1766; CU 013. Cx. 11. D. 1055. Cx. 12. D. 1118).

Regressando à cidade do Maranhão, em 1730, foi encarregado de reger simultaneamente as cadeiras de Teologia e Belas Letras. Portanto, estava sempre oscilando entre as duas vocações, de missionário e educador, preferindo sempre à primeira.

Novamente, no ano de 1735, afasta-se dessas atividades em São Luís e retorna ao sertão, missionando entre colonos e indígenas. Sua voz vibrante, ideias místicas e pregação apaixonada, é novamente ouvida pelas ribeiras e chapadas do Maranhão, do Piauí e da Bahia, de onde retorna por Pernambuco, fundando um convento para recolhimento de mulheres na vila de Igaraçu, e novamente pelo Piauí e Maranhão. Foram quatorze anos ininterruptos de evangelização, de livre pregação, com narração de milagres, prodígios, sonhos e vozes misteriosas, que lhe diziam mensagens celestes. Foi quando granjeou fama de santo, atribuindo-se-lhes curas milagrosas. Em suas orações atraía multidões, passando a ser chamado por muitos admiradores, de apóstolo do Brasil. Nesse tempo, arrostando toda sorte de dificuldade, fundou diversos conventos e seminários por onde passava. Aliás, por provisão de 1747, do bispo D. fr. Manuel da Cruz, foi autorizado a fundar um seminário no distrito da Parnaíba, na fazenda do capitão José Lopes da Cruz, oferecendo este último, uma sua capela com o patrimônio que tivesse, para a manutenção do novo estabelecimento de ensino. Embora a provisão não indique o nome da fazenda em que seria fundado o Seminário da Parnaíba, certamente seria a fazenda Buriti, hoje cidade de Buriti dos Lopes, onde morava o referido benfeitor. Não faz sentido que fosse ele financiar uma escola em outra fazenda, longe de sua família. Ali seria ministrado o ensino de Gramática, depois passando os seminaristas para o Seminário do Maranhão, onde estudariam Filosofia e Teologia. Infelizmente, com a saída do indicado bispo para Mariana e a viagem do padre Malagrida para Lisboa, não teve execução aquela provisão. Interessante ressaltar que o bispo D. fr. Manuel da Cruz, enfatizou a dificuldade de encontrar clérigos de capacidade, letras e virtudes para o regime espiritual e temporal dos seminários, nas funções de prelados, mestres e mais ministros. Por essa razão, justificou que tudo concorria nos religiosos da Companhia de Jesus, em face de seu instituto e vocação, tendo eles larga experiência na administração de inumeráveis seminários, inclusive em Roma, onde lhes fora entregue pelo sumo pontífice o governo dos quatro mais célebres seminários que havia em todo o mundo. Aliás, desde a fundação da aludida Companhia, em 1534, por Ignácio de Loyola e outros religiosos, e, sobretudo depois de sua instalação em Portugal, no ano de 1540, construiu ela uma rede de ensino que se tornou hegemônica em todo o mundo lusófono pelos dois séculos seguintes (LEONI, Aldo Luiz. Copiador de cartas particulares do Senhor Dom Frei Manuel da Cruz, Bispo do Maranhão e Mariana – 1739 – 1762. Brasília: Senado Federal, 2008).

Em 1749, o padre Gabriel Malagrida retornou à Europa em busca de recursos para auxiliar na manutenção dos inúmeros conventos e seminários que fundara. Chegando a Lisboa, foi, de fato, recepcionado como santo. E a imagem que conduzia consigo foi levada pelo povo, em procissão, para a igreja do colégio de Santo Antão. Por esse tempo, o rei D. João V, que estava enfermo, o acolheu paternalmente, fazendo-lhe concessões diversas e chamando-o para junto de si. O encontro foi emocionante, caindo-lhe o velho e moribundo rei, humildemente, de joelhos aos seus pés, ao que ele surpreendido com aquela cena inesperada, desfez-se em lágrimas. Foi o padre Gabriel Malagrida, quem o assistiu na hora derradeira, ministrando-lhe a extrema-unção. Esse fato aumentou ainda mais a sua fama de santidade e o seu crédito entre a nobreza e o povo de Deus. Em seguida, foi nomeado conselheiro real nas possessões de ultramar. Porém, o ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal, que ascendeu no reinado de D. José I, filho daquele falecido monarca, ensimesmado, não via com bons olhos a pregação mística e credibilidade popular daquele santo homem.

Por isso mesmo, retornando ao Pará, em 1751, não foi Malagrida bem recebido pelo governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do marquês de Pombal, que viajara com ele no mesmo navio. Por esse tempo, foi questionado até o pagamento de suas côngruas. Ainda assim ali fundou um asilo, no ano de 1753. Passou, então, ao Maranhão, onde demorou-se até 1754, afastado da catequese dos índios, porque estava envolto com a fundação de mais um convento e um seminário. Porém, esse último intento não foi concretizado porque o novo bispo não consentiu, alegando que o concílio de Trento só ao prelado atribuía esse direito. Talvez, aí já tivesse uma interferência indireta daquele poderoso ministro contra o idealista e vocacionado lente e missionário (AHU. ACL. CU 009. Cx. 36. D. 3608).

Novamente, em 1754, voltou o padre Malagrida a Lisboa, a chamado da rainha-mãe, D. Maria Ana de Áustria, viúva de D. João V, que faleceu a 14 de agosto daquele ano. No entanto, o poderoso marquês de Pombal, que se entronizara definitivamente no poder, não o deixou aproximar-se da moribunda e crente rainha. Desgostoso, retirou-se o jesuíta para Setúbal, onde pouco depois recebeu notícia da morte da rainha. Aquele ministro, que se propusera a modernizar Portugal, livrando-o da tutela dos jesuítas, não podia simpatizar com o taumaturgo, sendo, assim, o conflito inevitável.

Estava o padre Gabriel Malagrida, em Lisboa, quando sobreveio o terramoto de 1755. Foi, então, imenso o terror que se abateu sobre a população, atribuindo-o a castigo divino, de que seria necessária a penitência e a compunção. Como consequência, visando levantar os espíritos abatidos, encarregou o marquês de Pombal que um padre compusesse um folheto, que ele mandara publicar, explicando as causas naturais dos terramotos, e se desviando da crença desanimadora de que fora castigo de Deus. Porém, contra essa atitude, saiu em campo o místico Malagrida, respondendo-o com um folheto intitulado: Juízo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa no 1.º de Novembro de 1755. Nessa contradita, carregada de fervor religioso, combateu com veemência e indignação as doutrinas expostas no folheto divulgado por Pombal, e atribuía a castigo de Deus as causas do terramoto, devido aos intoleráveis pecados que eram ali praticados. Citando profecias bíblicas, condenava severamente os que fugiam da cidade, levantando abrigos nos campos, assim como aqueles que trabalhavam arduamente para reerguer das ruínas a nova cidade. Como solução, recomendava procissões, penitencias e, sobretudo, recolhimento e meditação de seis dias nos exercícios de Santo Inácio de Loyola. Era, pois, uma visão mística, atrasada, em franca oposição ao arrojado e modernizador projeto do poderoso ministro de Portugal.

Evidentemente, essa atitude do padre Malagrida, revoltou aquele ministro. Como represália, mandou queimar o folheto e o desterrou em exílio para Setúbal, no ano de 1756. Porém, mesmo nesse tempo de exílio não ficou parado o inquieto padre jesuíta, continuando a pregar com fervor nas igrejas de Setúbal, onde atraía multidões católicas, além de escrever e fazer representar peças teatrais. Ainda fundou duas casas de retiro e criou um lugar para a visita de damas da primeira nobreza que buscavam conforto espiritual naquela cidade, pois a sua presença ali, onde ministrava os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, era motivo para aumentar a visitação ao lugar. Por fim, nesse tempo foi reitor do colégio jesuíta da cidade, sendo responsável pelas obras de sua reedificação, vez que fora também gravemente atingido pela terramoto.

Certamente, essa sua dura rebeldia dava-se por crer naquilo que escrevia e pregava. Também, por acreditar que a sua fama de santo, o prestígio que gozava junto à alta nobreza, a longa folha de serviço missionário, a fundação de muitos seminários e sua eloquente pregação, respaldavam-lhe lutar contra o despotismo de Pombal. E, parece, que de Setúbal ainda escreveu uma carta ameaçadora, que teria terrível significado depois do atentado contra o monarca, em 3 de setembro de 1758, atribuído ao duque de Aveiro e aos marqueses de Távora, com o apoio da Companhia de Jesus. Esse episódio serviu para fortalecer o poder do ambicioso ministro, que trabalhou pela prisão e expulsão dos jesuítas do reino de Portugal, assim como a execução de grande parcela da alta nobreza naquele que ficou conhecido como processo dos Távora. Na verdade, as consequências do terramoto de 1755, desnudaram o conflito de interesses existente entre os jesuítas e a nobreza contra o despotismo do ministro Sebastião José de Carvalho e Melo. Foi uma luta de morte entre a política segregacionista da Companhia de Jesus, com seu imenso patrimônio representando um Estado dentro de outro Estado, e o projeto de reestruturação do Estado implementado pelo referido ministro, dentro da visão iluminista do despotismo esclarecido.

Por isso, Malagrida foi preso a 11 de dezembro daquele ano, acusado de autoria moral da tentativa de regicídio. Encarcerado no Forte da Junqueira, em Lisboa, viveu em condições abjetas, enquanto tramitava o processo perante o Supremo Tribunal da Junta da Inconfidência. Em 12 de janeiro de 1759, foi considerado réu de lesa-majestade e condenado à pena de garrote e de fogueira. Em seguida, entregue à Inquisição, em 17 de janeiro daquele ano, em virtude de ser religioso, quando foi encarcerado no cárcere da Custódia, sofrendo tortura e desumanos interrogatórios, no Palácio dos Estaus, fato que muito contribuiu para que seu temperamento exaltado resvalasse à insanidade. Acusado de heresia, inventor de novos erros heréticos, convicto, ficto, falso, confitente, revogante, pertinaz e profitente, foi pela nada santa Inquisição, condenado no auto-da-fé de 20 de setembro de 1761, à pena de excomunhão maior, deposto e degredado de suas ordens, relaxado à prisão secular com mordaça e carocha com rótulo de heresiarca. O suplício foi realizado no dia seguinte, ardendo seu corpo em chamas, na fogueira armada na Praça do Rossio, em Lisboa, em seguida sendo as cinzas disseminadas pelo mar.

Não satisfeito com essa brutalidade, Pombal ainda agiu para apagar a memória do fanático religioso, mandando destruir pinturas que existiam com a efígie do mesmo em um recolhimento da vila de Setúbal, tanto em azulejos quanto em outras espécies, reduzindo umas a pó e outras a cinzas. Cópia da sentença foi encaminhada para o Estado do Maranhão e Grão Pará, para conhecimento das pessoas que foram por ele missionadas (AHU. ACL. CU 013. Cx. 52. D. 4786; PT/TT/TSO-IL/028/08064. Trib. Sto. Ofício, Inq. Lisboa, proc. 8064; RODRIGUES, Guilherme. Esteves Pereira. Portugal – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico. Lisboa: João Romano Torres Editor, 1904. In: http://www.arqnet.pt/dicionario/index.html).

Portanto, foi esta a vida e este o fim que tomou esse santo e louco missionário do sertão. Malagrida, foi um espírito crente e puro, desses que nascem de tempos em tempos, que fundam igrejas e deixam grandes obras. Infelizmente, o seu misticismo exagerado o levou ao suplício, como última vítima fatal da Inquisição, em Portugal. No entanto, já é hora de se lhe fazer justiça. Bem poderia a Igreja católica reconhecer-lhe a áurea de santo, sobretudo nesses tempos modernos em que muitos outros foram declarados em tal dignidade, sem a metade do seu desprendimento e da sua obra em benefício da Humanidade. Entre nós do Norte-Nordeste, ficou o seu legado como missionário e educador, cuja extensão é, hoje, difícil de se mensurar.

_______________

*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br