OS AMANTES 

CLARICE DE OLIVEIRA

Quando eu morrer, quando sair da gaiola, sonho em atravessar as águas das cachoeiras; quero sentir meu fantasma ser perpassado pelas águas; desejo surfar sobre as ondas do mar de Ipanema, uma das praias mais perigosas do Rio de Janeiro. 
Agora livre, verei os muitos fantasmas que percorrem as areias da Barra da Tijuca, e a enganadoura quietude das margens das lagoas e canais dessa mágica Barra da Tijuca, que guarda as memórias dos tamoios, que aqui deixaram sua magia, chamada pelas suas indÍgenas-ondinas, as muitas vindas dos seres que gostavam das praias. 
As lagoas e os canais da Barra, a misteriosa Barra, que guarda seus segredos de antes do aprisionamento das águas, do tempo em que uma baleia teve sua volta ao mar impedida por esse transtorno, e morreu, deixando seu esqueleto para um futuro morador branco ou mulato fazer uma cerca em volta de seu quintal, com as costelas do imenso mamiÍfero aquático.
Meu fantasma, na Barra da Tijuca, vai sentir o vento que nunca se aquieta lá, atravessar sua existência informe, porque não quero a aparência que tive nesta vida, minha vida sobre a Terra, no Brasil. 
As cinzas do meu corpo serão jogadas ao mar. Meu fantasma passará dias e dias acompanhando as cinzas na sua viagem para as costas da Índia do Sul. Penetrarei no templo de minha antiga aldeia e chorarei de saudades de minha família e do meu namorado de quando lá viví. 
Primeiro, quero a liberdade para a minha Alma – ela, a minha Alma fez algumas conquistas valiosas – valiosas, porque as conquistas Espirituais que são feitas na Terra têm um valor todo especial, já que a "mineração" dessas "gemas valiosas" custaram os sacrifícios, lágrimas e ferimentos. 
Mas não quero cicatrizes na minha Alma – desejo que, ela, minha Alma, esteja bela e sedutora, pois quero reconquistar o grande amor que deixei na Índia – o belo rapaz de olhos negros, os olhos negros que nunca tiveram rival nas mais antigas histórias do planeta Terra.