“O trágico não vem a conta-gotas” foi uma das linhas da prosa que acordei pensando hoje. Onde a li? Em alguma obra de Guimarães Rosa. Creio que ela está nos desprovérbios do conto “Desenredo”, um dos melhores do autor que trata do romance entre Jó Joaquim e Livíria ou Rivília. E no conto desenredado Jó Joaquim se redime e perdoa as falsas lérias ou boatos sobre sua mulher amada porque o amor o pegou de jeito e o ódio se desfez diante da tragédia que é a traição humana, as intrigas, os boatos de rua que perderam o sentido no cotidiano de amar.

E com esta frase do mineiro Rosa, em minha alma demasiadamente humana, eu resolvi tecer o que penso do trágico em minha subjetividade de existir. Creio que uma das grandes tragédias da humanidade se instaura na falta de amar. Amar no sentido simples das coisas como amou Alberto Caeiro. Amar as nossas plantas, amar a natureza, amar a falta da pessoa amada, amar a presença dela como se amanhã a sua ausência em nossas vidas fizesse mais sentido que a eternidade de um minuto.

Talvez esse sentimento trágico de perder seja o breve aviso para acordarmos e dizer “eu te amo”. Simplesmente eu te amo e basta. Eu te amo pode ser para o nosso cão, nosso gato, nossas plantas, nossos avós, nossos pais, nossos amigos, nosso semelhante... porque amanhã cada perda fará sentido diante de outra frase de Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, pois “o trágico não vem a conta-gotas”.

 

Estou escrevendo tudo isso porque há poucos dias, meu irmão mais velho que nunca conversava, sempre calado e discreto, mandou-me um áudio de voz confessando o seguinte: “Minha irmã, eu nunca lhe disse isso. Mas escute bem o que vou dizer agora: eu sempre lhe admirei muito e te amo demais”. Foi a única vez que ele me disse isso em 40 anos. Depois escreveu no perfil do Whatssap: “Eu amarei meus filhos eternamente”. E o trágico veio a conta-gotas em poucos dias quando ele caiu de um telhado e partiu. O mundo seria menos trágico com o verdadeiro sentido da intransitividade do verbo AMAR  como me ensinou o meu velho e amado poeta, eterna criança, Manoel de Barros: “Se a gente não der amor ele apodrece em nós”.

 

(Por Rosidelma Fraga- Junho de 2016).