[Dílson Lages Monteiro]

 

Teimo em não escrever. As leituras bem me poderiam bastar. De uns dias para cá, todavia,  por imposição de um fôlego sufocado, sinto-me mais do que convidado  a ir além das obrigações requeridas pelo exercício da palavra nos ares de minha profissão. 

Há dias planejo voltar a verbalizar expressões e estados de alma muito além dos projetos literários que alimento  -  e enquanto planejo e adio recomeços, vou tecendo imaginações e textos para mim mesmo, por enquanto, na exata paciência requerida pelo ofício literário. Há dias adio esse retorno, incerto, duvidoso de minhas prioridades.

Palavras ou bichos? De que me serve a experiência rural; de que serve para o homem da cidade, desde que o concreto das ruas verteu-se em minha identidade? Bichos ou palavras comportam a relação de adição? Admitem mesmo o "além disso"?

Hesito em escrever. Hoje, porém, todas as  anotações de uns quinze dias  sentam-se ao meu lado; dão-me ordens, fazem-me sugestões e gritam baixinho: escreve, escreve, escreve que o sol sumiu, a lua não veio e amanhã, quem dirá a que se presta. As anotações, tateio-as, converso com elas, e o cotidiano - até o planejamento da aula - diz-me que tem lugar aqui. Por que não?

Ideias soltas no percurso de quem trafega avenidas por longos minutos. Notícias de rádio. Sentidos e sons de palavras que surgem como bolhas e, nas chuvas tardias, encharcam-me de obrigações. Sinto. Tenho que pôr o hedonismo de lado e registrar o meu tempo. Se não, ele caduca e comigo desaparece.

Estou de volta a este espaço, com a intenção de que o mínimo que escreva seja periódico, semanal. Todas as sextas-feiras,  eu aparecerei em sua tela. Nem que seja para te dizer: estou aqui. Minha presença - tua presença - deixa-me em estado de suspense; e nos comunicamos o anseio de nos revelarmos parte de uma história ou sensação.

Seja bem-vindo, mais uma vez. Para as palavras, não há reveses que impeçam o sonho e a imaginação de cada sentido.