Há duas modalidades do ato de rir: o riso, como algo positivo, e o escárnio, como a forma negativa. O riso denota o agrado e o prazer com o visto ou com o sentido; o escárnio, o “prazer” de perceber, no outro ou num fato, um ponto mau ou desfavorável. 
Escrevo isso, leitor, porque voltei a ter, em mãos, o livro do historiador Georges Minois, publicado há alguns anos, “História do Riso e do Escárnio” (“Histoire du Rire e de la Dérision”), Editora UNESP, 2003. 
Como entende Minois, o argumento seminal que explica por que os humanos riem é o de sermos os únicos animais que têm consciência da nossa finitude. Pode ser que o riso, o escárnio, a gargalhada, o sorriso, o humor, a risada, a alegria, a ironia, o deboche, o sarcasmo e a derrisão sirvam para compensar a nossa tristeza profunda frente à fragilidade humaníssima. O riso, seja prazeroso ou crítico, emerge quando há tensão entre a ilusão e a realidade. Não por acaso, toda boa arte faz sorrir. 
Georges Minois divide a história do rir em três períodos sucessivos.
O primeiro é o da Antiguidade grega, quando o riso está ligado aos deuses; a capacidade de rir é dos deuses, mais ainda do deus supremo. O segundo é o do Cristianismo, quando o rir deixa de ser divino e passa a ser prática do Diabo. A alegria e o riso são reservados às festas pagãs, como o Carnaval. Os sorrisos discretos, alegres ou sarcásticos, substituem as risadas e as gargalhadas. Só os ímpios e pecadores riem à farta. O terceiro período se dá na Renascença, no Iluminismo e nas ditaduras monárquicas europeias dos séculos XVII e XVIII, e ainda nos regimes autoritários do século XX. Nesse tempo, o riso prevalecente, o qual se confunde com aquilo que passa a chamar-se humor, aproveita-se das fissuras, que se abrem naquilo que antes era sagrado ou indiscutível, para mais as esgaçar, na crítica virulenta da religião cristã, da monarquia e do autoritarismo. É o riso da rebeldia. 
No século XXI, o rir perdeu sua ligação interpretativa às circunstâncias de cada era; ou sua utilidade para compor retratos dos tempos históricos; ou mesmo de ser protagonista de uma história sua. Hoje, ele está disseminado, multiforme e observável em toda a parte: no cinema, nas “baladas” noturnas, na televisão, nos cultos católicos e nos evangélicos, nos restaurantes, nos pagodes, nas ruas, na internet, na literatura. Ele, ainda que banalizado, transformou-se em algo contundentemente de nós todos com nós mesmos, como uma máscara universal a esconder precariamente a falta de respostas animadoras para as questões essenciais.