A ciência não pode prever o que vai acontecer. Só pode prever a probabilidade de algo acontecer.

César Lattes

Era uma vez, num tempo não muito distante, duas rainhas poderosas. Seus nomes: Certeza e Dúvida. Apesar de seus reinos serem próximos, elas quase nunca se visitavam. Qualquer tentativa diplomática de estabelecer laços de amizade entre as duas nações sempre resultara em um fracasso absoluto.

A rainha Certeza era uma mulher imponente. Alta e gorda. Muito gorda. É claro que nenhum de seus súditos mencionava essa segunda característica. Afinal, como ela mesma já havia dito em diversos de seus pronunciamentos: “Pessoas saudáveis, com certeza, não podem ser magras”. Em todas as apresentações oficiais, a soberana apresentava-se sempre muito elegante. Suas roupas eram criações de estilistas famosos, que se esmeravam em tentar encobrir as suas formas avantajadas. No pescoço e nas orelhas, um conjunto de colar e brincos de perolas verdadeiras, vindas diretamente dos mares da China. Sem dúvida alguma, a rainha Certeza era uma governante austera, elegante e de opiniões firmes.

Por outro lado, a rainha Dúvida tinha idéias e características totalmente diferentes da sua vizinha. Para começar, ela era magra. Muito magra. Nunca conseguia decidir o que comer e, na dúvida, preferia não fazê-lo. Do mesmo modo, sua aparência não era a das mais cuidadas. Infelizmente, ela tinha um terrível tique nervoso: roía as unhas. Quando estava agitada, não conseguia se controlar e, mesmo em meio a uma audiência importante, roía unha por unha praticamente até o sabugo. Era horrível de se ver. Entretanto, apesar de parecer insegura em muitas de suas decisões, era uma mulher de temperamento forte, sempre estando pronta para discutir e debater.

Assim, então, eram as duas rainhas: Certeza e Dúvida. Ambas poderosas em seus reinos. Mulheres que jamais se omitiam em dar suas opiniões. E este era justamente o problema. Elas nunca concordavam em nenhum assunto.

Enquanto Certeza não abria mão de suas idéias, considerando-as sempre absolutas e inquestionáveis. Dúvida, por outro lado, questionava tudo. Segundo ela, devia-se duvidar sempre: do amor, da arte e até de si mesmo – não acreditar em nada, a não ser na morte, pois só ela é certa no jardim das incertezas. Era uma luta de titãs, na qual jamais havia uma vencedora. As poucas vezes em que se encontraram, saíram do embate exaustas. Nessas ocasiões, Certeza bufava de tanta fúria, ao passo que Dúvida roía as unhas até os dedos sangrarem.

Os súditos de ambos os reinos já estavam acostumados com esses bate-bocas e não ligavam muito para isso. Para eles, essa era a maneira encontrada por Suas Majestades de se distraírem da difícil tarefa de gerir os destinos de tantas pessoas sob sua responsabilidade.

Um dia, no entanto, chegou a notícia que uma nova rainha estaria prestes a subir ao trono em um pequeno reino perto de suas fronteiras. Nunca ninguém ouvira falar dela. Tratava-se da filha bastarda do antigo rei. Seu nascimento havia sido mantido em segredo, pois a esposa do soberano não podia saber de nada. Contudo, com a morte do velho governante e a ausência de herdeiros legítimos, a moça fora chamada a ocupar a real posição. Foi um escândalo.

Dúvida e Certeza, quando ficaram sabendo da noticia, tiveram, como sempre, opiniões diferentes. A primeira, é claro, não acreditou na história; afinal, a tal moça ainda não se havia apresentado, portanto, podia ou não ser o que afirmava. A segunda, ao contrário, não demonstrou qualquer dificuldade em aceitar toda história como verdadeira. Para ela, velho rei sempre fora um devasso.

Quando a data da coroação da nova rainha finalmente chegou, Certeza e Dúvida não conseguiam controlar a curiosidade. “Quem seria aquela moça?”, era o que mais se perguntavam. No entanto, externamente, mantinham a aparência de indiferença. Elas, também sendo rainhas, deviam-se mostrar distantes e impassíveis.

Antes da cerimônia de coroação, como mandava o protocolo, foram conduzidas à presença da nova soberana para as apresentações oficiais. A surpresa foi total. Viram-se diante de uma jovem absolutamente diferente de tudo o que haviam imaginado. Não era magra e nem gorda, não era feia e nem bonita. Sua pele translúcida não permitia que se conseguisse definir com clareza os seus traços. Ela parecia flutuar diante delas. Sua posição, na sala de audiência, mudava a cada instante, tornando a conversa difícil.

A moça, no entanto, não demonstrava nenhum tipo de perturbação. Ao contrário. Olhava para as duas rainhas como se fossem velhas conhecidas. Aproximando-se – ou será que se afastava? –, apresentou-se com humildade:

- Eu me chamo Probabilidade. E é um imenso prazer conhecê-las.

Duvida e Certeza, mudas de espanto, não sabiam como agir ou o que dizer. Limitaram-se a estender as mãos na tentativa de cumprimentá-la. Contudo, ela sempre escapava. Apreensivas, e até mesmo um pouco assustadas, reconheceram que ali estava alguém com quem se preocupar.

Dúvida logo percebeu que a nova rainha seria um mistério difícil de esclarecer. Certeza, por sua vez, viu nela a personificação do seu mais temido pesadelo: o abandono de todas as suas convicções. Probabilidade, enquanto isso, preocupava-se apenas em imaginar como seria o seu reinado. Ela, na sua inexperiência, ainda não sabia que a partir daquele momento tudo estava prestes a mudar.