Essa divisória que nos separa do mistério das coisas a que chamamos vida.

Victor Hugo

Quando saiu da casa, sentia-se tonta. Olhando para o céu azul, sem nuvens, não soube para onde ir. Desorientada, decidiu caminhar um pouco, precisava de um tempo para compreender o que havia acontecido.

Uma amiga tinha lhe indicado aquele endereço. “Você precisa ir”, disse ela. Na hora nem quis falar no assunto, não queria mais complicações na sua vida. “Você não tem coragem”, respondeu a amiga, “Tem medo do que possa ser dito”. Mil vezes ela tivesse seguido o seu instinto.

Enquanto tentava controlar a respiração, acelerou o passo. “Tudo bobagem. Tudo crendice”, repetia para si mesma, querendo se convencer.

A casa localizava-se num bairro distante, cheirando à pobreza. No entanto, apesar do mau pressentimento, atravessou a cidade e quando percebeu estava na frente de um portão desconjuntado. Nesse momento, podia ter dado para trás. Reconsiderado. Não o fez. Seguiu adiante e bateu na porta.

Quem atendeu foi uma criança suja e magra que mal a olhou nos olhos. Não sabia dizer se, por debaixo dos trapos que vestia, era uma menina ou um menino. Em silêncio, foi conduzida para dentro da casa. Ela era pequena, mal iluminada e cheia de móveis velhos e desmantelados. Além da cozinha e de um pequeno banheiro, só havia mais dois cômodos. E foi para um deles que a estranha criança a levou.

Quando, às suas costas, a porta foi fechada, viu-se dentro de uma pequena sala, onde havia apenas uma mesa e duas cadeiras. Sentada em uma delas encontrava-se uma mulher. Assustou-se. Ela não era nada do que imaginara. Ainda jovem, vestia-se com simplicidade e asseio, o contrário da criança que a tinha recebido. Sua presença naquele lugar lúgubre era um pouco incongruente. Ela parecia não pertencer aquele lugar.

Em silêncio, a mulher apontou para a outra cadeira. Procurando respirar com calma, sentou-se rígida, esforçando-se em disfarçar a tremedeira das mãos.

- Calma, moça. Não precisa ter medo. Não vou lhe fazer mal.

Seu coração deu um salto dentro do peito. O que era aquela voz? Tão tranquila e doce. As mãos pararam de tremer e sentiu todo o corpo relaxar. Confusa, não sabia como conduzir aquela situação. A mulher parecendo ler sua mente prosseguiu:

- A moça não acredita, mas veio até aqui porque quer respostas. Precisa saber se fez a coisa certa. É isso?

- Sim – ela se ouviu dizendo.

A mulher, fechando os olhos, endireitou o corpo e moveu a cabeça para o lado como se estivesse ouvindo alguém. Permaneceu assim por um tempo interminável.

“Meu Deus, o que é tudo isso?”, pensou. Quando já estava pronta para deixar a sala, a mulher abriu os olhos. Um longo suspiro escapou da sua boca e com algum esforço disse:

- Está tudo bem. Pode ficar tranquila. Ela sabe que a moça fez o melhor. Não a culpa por nada, a hora dela tinha chegado.

Por um instante parou de respirar. Como ela sabia? Como aquela mulher podia saber?

- Ela estava muito fraca, com muita dor, a moça fez o que era certo – continuou a mulher.

- Como você sabe? – perguntou angustiada, sentindo um tremor estranho passar pelo corpo.

- Ela está falando comigo.

- Agora? – quis saber.

- Sim.

“Chega!”, pensou, “Não vou ficar mais um minuto nessa casa! Isso é ridículo! Eu sou ridícula”. Nesse momento, odiou a amiga que a havia empurrado para essa situação, odiou a mulher a sua frente e, principalmente, odiou a si mesma. Como pôde acreditar que ir até aquele lugar lhe daria algum conforto?

Estava preparando-se para sair quando um aroma intenso espalhou-se pelo quarto. Sentiu-se congelar. A mulher não esperou pela pergunta:

- É ela. Um presente para a senhora.

- Como? – balbuciou, temendo a resposta.

- A senhora sabe – respondeu a mulher, ao mesmo tempo em que levantava da cadeira e saía por uma porta do outro lado do quarto.

Na rua ela se deteve. As lágrimas começaram a rolar, sem controle, pelo rosto. “Como? Meu Deus, como?”, se perguntava, mas no fundo já sabendo qual seria a resposta.

Quando deixou a casa o perfume impregnava sua roupa, seu cabelo, seu corpo. Um perfume que ela reconheceria em qualquer lugar. Jasmim. O perfume de sua mãe.