Por Katiana Dias, professora graduada em Letras/Português e Psicóloga Clínica.

O que esperamos de uma obra de estreia? Construirmos sentidos de que ela é portadora, em algum grau, de ineditismo. Na forma e / ou no conteúdo. Ou no mínimo nos encantarmos pelo poder inebriante das emoções.

Em Paradeiro (Teresina, Nova Aliança, 2016), coletânea de contos de Geovane Monteiro, podemos encontrar o espaço da novidade. Tanto que sobre ela declarou o crítico literário Cunha e Silva Filho:     “O que a leitura dos seus contos suscita é aquilo que, em poesia, se chama de estranhamento, (...) desfamiliarização ou desautomatização dos modos comuns pelos quais percebemos a realidade e as situações existenciais. Seu intento é o de impactar o leitor”.

Há nos sete contos que integram a obra o cuidado de carpintaria com a utilização do plano da expressão para a construção de um mundo de subjetividades em que as figuras de linguagens e suas relações antinomias são uma marca registrada.  Há em sua prosa o gosto pela metáfora, empregada em perspectiva inusitada, porque objetiva a sondagem interior de personagens e ambientes.  Trata-se de prosa poética, o que, não raro, torna a leitura do livro delongada (a expressão “difícil” seria exagero ou endereçada a leitores apressados, como mencionado na orelha da coletânea) e desafiadora.

O livro apresenta histórias ou quase histórias, em razão de a linguagem ser protagonizada na obra e de estar a serviço das possibilidades imagéticas. Na expressão do editor Leonardo Dias, “revela mais vida e menos relato”, ou seja, personagens e situações são esboçadas, insinuadas, necessitam do mergulho de “quem lê com o corpo e o gesto”. Os temas circulam em torno do cotidiano e do homem comum vivenciando situações em nada extraordinárias. Um velho divorciado vivendo na casa da filha, uma senhora dona de casa, uma diarista no ônibus, um rapaz num bar, um presente bizarro de uma amiga, um dia chuvoso, um operário cumprindo horários. O autor faz uso dessas figuras de modo singular: Mais importante do que elas são as tensões existenciais que lhes atribuem sentidos na trama. A obra é, quase que exclusivamente, vida interior. O enredo conta pouco com ações desencadeadas e literais. Olho D’água, Água Branca (duas pequenas cidades do interior do Piauí) e alguns bairros de Teresina compreendem toda a ambientação sem permitir que a obra se enquadre na literatura regionalista, em decorrência do forte teor psicológico e filosófico da narrativa.

Os contos são golfados da psique das personagens. A intriga se constrói através dos comandos mentais evidenciados no recôndito dos indivíduos em seus anonimatos involuntários. O tempo existencial delega para segundo plano o meio externo. Para o leitor, faz-se essencial o “silêncio Tao”, de modo a vivenciar - em tempo real - cada peça, sem aguardar o caráter definitivo, desmascarado e urgente das narrativas tradicionais. A sintaxe, pois, instrumentaliza a feição espiritual e metafísica a partir da investigação da alma humana. Assim, é possível ao leitor abrir mão de si mesmo e poder se encontrar repentinamente, como num choque inesperado, passageiro e contínuo. Nesse sentido, Paradeiro oferece possibilidades, aproximações, ausências reveladoras, desinteresse por explicações decisivas e classificatórias. Monteiro, um velho aposentado e divorciado, tenta encontrar-se nas próprias afirmações, apega-se ao vazio que lhe eterniza seus pares, a senhora Dona Maria busca num garoto uma segurança na velhice, A moça Ada descobre saldos em sua vida cíclica, J.S. ganha da solidão um caminho mais humano e articulado... A partir dessas situações, a problematização e a intensificação dos poucos eventos suplantam o mero registro do pequeno dia a dia em cidades interioranas. É uma espécie de jogo que pode envolver o leitor a um mundo movediço, falsamente ingênuo, de cada personalidade da obra.

Em tempos de praticidades vazias e produtos de consumo rápido no universo das letras, Paradeiro é uma boa indicação para quem aguarda uma contística que desafie os significados das representações que construímos pela palavra. O jovem escritor Geovane Fernandes Monteiro, natural da cidade de Água Branca / Piauí, alcançou uma literatura inventiva, digna de continuidade. Que outros livros do autor surjam assomarem à boa literatura.