Ao que se sabe foi o náufrago Nicolau de Resende, o primeiro português que da costa litorânea do Maranhão atravessou por terra a bacia oriental do Parnaíba, em demanda de Pernambuco ou da Bahia. Saindo dessas regiões no ano de 1571, naufragou na costa maranhense, tendo retornado com alguns companheiros pelo litoral. Consta que foi bem recebido pelos Tremembés do delta parnaibano, onde refez suas energias e, assim, retornando às colônias portuguesas. Contudo, o padre Cláudio Melo quer que ele tenha vivido entre esses indígenas, convolando núpcias, deixando família e se estabelecendo comercialmente, sendo o verdadeiro responsável pelo “povoamento do Piauí”. No entanto, pouco se sabe sobre esse aventureiro, senão que era náufrago, estava perdido e como todo perdido procurava retornar para junto dos seus. Portanto, não deve ter ficado no Piauí. Já não eram aqueles tempos antigos em que naufragou um Diogo Ávares, o Caramuru, um João Ramalho e alguns outros. Em 1571, estava Salvador de pé, Pernambuco produzindo açúcar e diversos portugueses espalhados pela litoral leste. Portanto, mais do que óbvio que esse náufrago procurasse os seus, a não ser que se tratasse de algum criminoso português fugindo do cumprimento de sua pena.

Em momento algum disse o cronista Gabriel Soares de Sousa em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, que esse náufrago residia há dezesseis anos no delta parnaibano, mas que perdera-se há dezesseis anos. Observe-se: “Perdendo-se, haverá dezesseis anos, um navio nos baixos do Maranhão, da gente que escapou dele que veio por terra, afirmou um Nicolau de Rezende, desta companhia, que a terra toda ao longo do mar até este rio Grande era escalvada a maior parte dela, e outra cheia de palmares bravos, e que achara uma lagoa muito grande, que seriam de 20 léguas pouco mais ou menos; e que ao longo dela era a terra fresca e coberta de arvoredo; e que mais adiante achara outra muito maior a que não vira o fim, mas que a terra que vizinhava com ela era fresca e escalvada, e que em uma e em outra havia grandes pescarias, de que se aproveitavam os tapuias que viviam por esta costa até este rio Grande, dos quais disse que recebera com os mais companheiros bom tratamento. Por este rio Grande entram navios da costa e têm nele boa colheita, o qual se navega com barcos algumas léguas” (SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Coleção Brasiliana, vol. 117. 4ª Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Editora da USP, 1971, p. 47/48).

Portanto, diante desse texto pensamos que Nicolau de Resende veio por terra até o delta parnaibano, de onde seguiu em um dos navios que ali comerciava com os índios, razão pela qual somente informa sobre as terras até aquele local. Contudo, o cronista português informa que ele era “desta companhia”. Que companhia? Pensamos que só poderia ser a companhia em que participava também o cronista. Para elucidar essa dúvida, vejamos o que diz o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro(1816 – 1876), em carta ao IHGB, publicada no intróito da crônica reeditada, sobre Gabriel Soares de Sousa: “Era filho de Portugal, passou à Bahia em 1570, fez-se senhor de engenho e proprietário de roças e fazendas em um sítio entre Jaguaribe e o Jequiriça”. Portanto, Nicolau de Rezende pertencia à companhia da Bahia, para onde retornara em alguma embarcação. Na falta de maiores informações sobre o polêmico destino desse náufrago, é o que se nos afigura mais plausível.

De qualquer forma, essa polêmica não nos interessa, vez que esse náufrago, mesmo se tivesse permanecido entre os Tremembés, o que não acreditamos, praticamente nenhuma influência teria exercido na colonização do Piauí.

Depois dessa fase, esses índios ainda vão dar muito trabalho aos portugueses, se aliando a franceses e holandeses. Portanto, Nicolau de Resende não teria exercido influência sobre eles, a não ser que não estivesse comprometido com o projeto colonizador português. E se não estava fica difícil alguém sustentar o importante papel por ele desempenhado. Em que?

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*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico e Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.